por Edu Praça
Então pois é. Este blogue acabou vivendo férias coletivas neste dezembro em junto com o futebol nacional. Engulo a culpa toda, pois meus caboclos camaradas Celso e Cuca há dias me cutucam com a vara curta da aporrinhação.
Alegam estar há dias nadando em leito dos assuntos muitos, mas nada querem publicar antes da registrosa manifestação sobre o caneco da Copa do Brasil conquistado em levante inédito de braços pelo Galo mineiro.
Razão toda deles. Nós, que somos três seguidores do rival derrotado Cruzeiro, seríamos logo e justamente alvejados pela tinta do descrédito. Diriam nossos poucos e bons leitores que isso aqui é espaço de conveniência para torcedor cegueta lançar tapete abaixo os ganhames adversários. Davia, cá não estamos eu ou meus caboclos parceiros para dourar pílulas de glória própria e cerrar olhos para festa alheia armada no salão da nossa queda.
O retardo deste texto não se deveu a tal tipo de picaretosa covardia. Se me faço explicoso, fato é que fui acometido pela singela preguiça: o jogo final, enunciado e esperado como clássico ditoso das emoções, não foi além de reprise do primeiro certame. Fiquei sem ânimo sob o risco de pintar texto sem traço de originalidade.
Cá vamos, davia.
O time azul, não sei por que cargas, vestia branco. De um fato, assentou com o pálido futebol entoado. Recém consagrado campeão nacional, escapou de ver o rival capturar o título na rede da goleada. A orquestra cruzeirense não suou gota de resistência. Chegava atrasado em tudo o que se chamava lance. Desafinou completamente enredada pelo domínio da disciplina galense. A magreza do placar mínimo não revela o que foi a supremacia do campeão.
Galo entrou em campo vestindo o tradicional preto da força e o branco da velocidade. Tinha até como opção vestir o vê da vantagem e viver jogo feiosamente sentado sobre os dois a zero da primeira partida no Horto. Assim não o fez. Marcou muito e jogou sempre no campo adversário. Quis a vitória e a conquistou ainda no primeiro tempo pela cabeça de Diego Tardelli. De resto, o arqueiro azul Fabio viu bola em sua trave e operou algumas de suas típicas milagragens para assegurar queda honrosa.
Assim foi que deu Galo e só Galo na cumeeira do merecimento todo.
Devoto ao rival os parabéns por incrementar sua história com mais um troféu.
Cumprido o devido e assegurado o crédito deste blogue, meus sócios de peleja já podem serenos destilar seus achismos de um novo. Venha o ano quinze com futebol do puro e razão muita para tagarelagens de pensabundos.
domingo, 28 de dezembro de 2014
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
chuva, suor e caneco
por Edu Praça
Nem não dá. Sei que haverá quem vai firular contornos épicos
ao embate que consagrou o título brasileiro ao meu Cruzeiro. Vão achar boniteza
na conquista pegada em adversas intempéries.
Davia, não posso tabelar em concordância. Espetáculo dessa
importância, mobilizador das tensões e atenções muitas, gerador e embolsador
dos dinheiros todos, não pode ser encenado em tal lamentoso palco.
É caso de lembrar que este é o mesmo Mineirão padrão FIFA
que ofereceu tapete ao vexame canarinho ante os alemães na última Copa. A
reforma do estádio comeu alguns anos e dinherama que namora o bilhão de reais.
Os artistas de Cruzeiro e Goiás viram sua cena de protagonismo roubada pela
expressão da incompetência e do desrespeito. A torcida, razão de ser de tudo isso, paga caro pelo assento,
pela assinatura da tevê a cabo e também pela pecha de otário que lhe é
emplacada.
Pois é. Obstante os pesares, teve um jogo. E até que se
viram expressões do futebol bom e puro.
No primeiro tempo, foi chuva desmanchadora de topetes e
gramado de fazer inveja aos paulistas órfaos do Cantareira. Meu Cruzeiro entrou
certinho composto de seus melhores quadros, e conseguiu até trocar passes para
construir um belo gol: Everton Ribeiro na meia cancha desenhou corte de letra
para leitura de Mayke em velocidade pela direita. Este calibrou preciso o cruzamento
para a cabeçada anteciposa e precisa de Ricardo Goulart. Pro abraço.
Ornando o cenário da emoção, o time do Goiás logo
encontrou empate. Na trombação típica de um jogo em condições atípicas, Egidio
inventou uma falta desnecessária em sua lateral esquerda. A cobrança mandou
bola na área azul, a zagueiragem cruzeirense errou o tempo e a redonda sobrou
em pés de Samuel, que contou com a poça dágua para amortecer seu domínio e, com
rapidez, encaixou belo disparo no ângulo.
O segundo tempo mandou estiagem e melhorou bastante o
terreno. O gramado se reapresentou bem parecido com campo de futebol. Não
isento de algum sofrimento, contido apenas pelas usuais milagragens do capitão
Fabio, o Cruzeiro conseguiu fazer seu jogo, marcoso em linhas adiantadas.
Agora pela esquerda, foi a vez de William arredondar a
bola da inteligência, chamar o marcador à dança e alçar assistência que encontrou Everton Ribeiro na
pequena área esmeraldina para empurrar de cabeça a pelota à meta e dar números
finais ao placar. Dois a um.
Futebol viçoso e regular. Orquestra de baile bem afinada pelo
maestro Marcelo Oliveira. Cruzeiro precisou de trinta e seis rodadas para carimbar
o gaboso título de campeão nacional de 2014.
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
por ora, terreiro do Galo
Por Edu Praça
Nem não adianta. Pega até mal a raposa que ensaiar reclamosos
cacarejos. A primeira batalha pelo caneco da copa do Brasil rolou no Horto sob
cantos uníssonos da torcida alvinegra. O galo teve domínio dos fatos do início
ao fim e em todos os cantos da área em escaramuça. Construiu um inapelável dois
a zero no placar da justiça toda.
Não resta incerto que os maestros Levir e Marcelo se fiam
entre os melhores regentes do futebol nacional. Este até entalha alguns
desenhos de mais sofisticação na arte da boleiragem. Davia, aquele sabe de tudo
e mais um pouco no ofício de compor orquestras de competição.
A tropa galense entrou pra mostrar quem manda e se impôs
dono absoluto do terreiro. Jogou a final como final. Seu arqueiro nem não
sentiu calor nas luvas. Mal aspirou o cheiro do trabalho. Datolo, Luan e
Tardelli comandaram o baile com precisão didática de posses e passes. Marcação
da muita e correria de desafiar relógios. Não havia bola dividida que não
sobrasse em pés alvinegros.
Na contramão, o time azul tocou no compasso dos pontos
corridos e viu anulado seus outrora inegáveis talentos. Mayke, Goulart e Ribeiro
não viram conforto no couro da pelota. Investidas de pelotas ao alto, tão
eficazes em outros palcos, foram solenemente rechaçadas pelos zagueirosos
alvinegros. Dentre estes, um tal Jemerson eu nunca havia visto mais elegante em
força de humildade e segurança.
Clássico é embate de sangue em olhos e aceleração
sobreumana. O Galo foi lá e fez como devia.
De sobra, cabe louvar o combate na lealdade pura. O juizão
até exibiu lances de apitador caseiro e um dos gols foi confirmado apesar de construído
no milímetro da irregularidade. Davia, não há caboclo sério capaz de
desconsiderar humano aquele erro. Juizão levou o jogo na boa, só no
assopramento do apito. Se não me deixo engano, foi coisa de um ou dois cartões
amarelos e só. Coisa bonita.
Agora é Galo em busca de encontrar conforto vestido nessa
roupa apertada que costumam chamar de vantagem. Do outro lado, o time azul com
noventa minutos e mais uns quebrados para executar bom número diante de plateia
sua.
Nos bares e esquinas onde moram as superstições, há quem
diga que o Galo não cisca bem no terreiro da facilidade. É bicho esporado no
desafio. Será meu Cruzeiro capaz de aplicar virada no estilo que tem sido
chamado de Atlético Mineiro? O futebol é um esporte fazedor de ironias. Ninguém
não vai deixar de ver.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
futebol, ética e malandragem
por Edu Praça
De
um pronto, devo registro sobre o momento destacoso do futebol mineiro. Meu
estado não tem mar, mas está surfando na crista da onda. Ano passado o Galo
conquistou a América e a Raposa papou o Brasil. Neste dois mil e catorze, se
enfrentarão em clássico nas montanhas e picos do ineditismo, a decidir quem
fica com o caneco da Copa do Brasil. Na ausência do mar, bar não há de
faltar.
Mas esse um fato merecerá
um texto detalhoso no futuro breve, tão logo a batalha tenha colhido seus
feridos, vencedores e vencidos.
O papo aqui é sobre o já
ocorrido e não cuida do porvir. Na rodada passada do brasileirão, meu líder
Cruzeiro venceu sem grande resistência um Botafogo que parece fazer interesse e
força pra gozar férias no segundo escalão do futebol nacional. O time azul,
jogando em casa, não fez rogo de botar balanço nas redes por duas vezes logo
nos minutos iniciais. Depois foi só dançar o fanque do resultado administrado,
guardando combustível para o jogo decisório que teria contra o Santos pela
semifinal da Copa do Brasil.
Mas esses muitos rodeios já
me afastam demais do gol. O propósito destes escritos não nem é fazer crônica
de resultados. Abordei Cruzeiro vs Botafogo apenas para lembrar um lance
curioso, sem relevo de importância no desfecho do jogo, mas que me levou um
tiquim mais fundo nas complexidades desse esporte envolvido no sem razão
das paixões e dinheiros.
O placar já marcava dois
tentos a zero quando um dos defensores severianos, pressionado em marcação no
seu campo, fez tentativa de passe lateral. O sujeitoso boleiro parecia visar
seu companheiro de zaga, mas a bola acabou alcançando o arqueiro Jefferson. De
um pronto, com a rapidez dos convictos, o juizão soprou apito a marcar tiro em
dois lances dentro da área contra o Botafogo. Ficara caracterizado o recuo de
bola. Uma chance capital para o time azul matar o jogo empurrando a terceira
bola pras redes ainda no primeiro tempo.
Mas repente emergiu um
peraí. A nobreza do caráter chamou o juizão às falas. Marcelo Moreno, o
centravante que fazia as vezes de marcador no lance, na cumeeira das suas
honestices todas, disse ao juiz que a bola resvalou em seu pé, alterando
milimetricamente a trajetória e descaracterizando portanto o recuo intencional
da bola ao goleiro. Diante daquela atitude, não restou ao juizão senão um
acenar de braços desfazendo sua própria apitação.
Na tevê, narristas e
comentadores cobriram de elogios o pendor ético do atacante cruzeirense. De um
fato, transpondo a questão aqui pro lado da vida vivida, é atitude que merece
os aplausos todos e o troféu dourado do ferplei.
Davia, aqui pensabundo na
intimidade dos meus achismos, boto indagação: teria o sujeitoso agido da mesma
forma caso o placar registrasse resultado desfavorável no momento do lance?
Tivessse o jogo empatado ou em caminho de derrota, o caboclo cederia assim, de
delicada honestice, sua chance de gol?
Futebol é coisa complicada
demais da conta. Ouso até dizer que a filosofia praticada em campo é a
dialética da malandragem. Aqueles simpáticos a uma visão mais 'institucional'
da vida vão dizer que cabe ao juiz identificar e punir os malandrosos. Há quem
diga até mesmo que o ofício do boleiro exige a competência da malandragem. O
apitador que faça bom trabalho, tudo veja e vista a roupa sobreumana da
ausência de erros.
Há ética cabível no
futebol?
Alguém seria capaz de
condenar moralmente o Moreno, caso ficasse quieto diante do apito convicto do
juizão e cobrasse a falta em tabelinha com o João Sem Braço? O torcedor celeste
aprovaria o ato de um jogador renunciar assim uma chance caso o time tivesse em
apuros? O que dizer de patrocinadores que recebem a cada gol o retorno
financeiro das suas feiosas marcas em estampas de camisa?
Eu mesmo confesso não ter
respostas a essas interrogações. Nas minhas peladas aqui e ali, eu certamente
já lancei mão e pé dos truques e retruques da boleiragem. Nas artes do futebol
não cabe a lógica pura. A bola rola e se oferece aos dribles amorais.
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
um homem, um voto
por Celso Fernandes Ribeiro
Hoje o papo é curto e só dá trela aos simplesmentes.
Mal passada a ressaca da dura peleja eleitoral, começam as querelas daqueles que não sabem brincar de democracia.
Derrubar a tese de que o nordeste elegeu a presidenta Dilma não é tarefa das mais complicosas. Basta a aritmética eficaz dos padeiros e feirantes para computar que ela teve maior volume de votos no sul e sudeste (26 milhões em redondos números), se comparado aos 20 milhões de votos colhidos no nordeste.
Somemos a esse noves fora a situação emblemática de que o sujeitoso opositor tucano perdeu jogo em casa. E aí podemos considerar tanto sua casa de oficio e formalidades, Minas Gerais; ou também sua casa de artificio e veleidades, o Rio de Janeiro. Se quero fazer troça, digo que Aécio foi traído na casa da esposa e na casa da amante.
Assim, sem dificuldade, lançamos aquela tese à lixeira das conversas fiadas.
Difícil mesmo é a turma do mimimi se livrar dos ranços classistas e dar meia dúzia de passos para o século XXI, quando sufrágio censitário não mais vigora.
No a do aqui e do agora, é na urna que avistamos uma silhueta de justiça. Ali na urna, o caboclo vivedor no sem razão das injustiças sociais e econômicas, combalido pelas históricas desigualdades, vale o mesmo peso do sujeitoso que assenta sobre os cumes da riqueza toda.
Na urna é um homem, um voto. Uma mulher? Um voto valedor idêntico. E um preto? Também lasca voto com o mesmo efeito unitário.
Aí vêm os doutos senhores lambedores de beiços de sempre bradar em timbre odiento e tom acusatório: "esses uns pobres elegeram a presidenta!".
Peço perdão aos doutos senhores por engrossar o coro dos ignorantes e tascar indagação: pobre com voz não é expressão grande de civilização?
Ao contrário da infeliz vida real em sociedade, na urna não tem barão ou visconde a falar mais alto e mais grosso que o plebeu.
Resta entender que esses doutos senhores são os surdos gritadores em defesa da democracia sem povo.
domingo, 19 de outubro de 2014
copo meio vazio (ou a dança do pessimismo engajado)
por Cuca Linhares
É de escalar as ladeiras do
impressionante. Reclamoso, vou me meter de novo na treta do jornalismo. Desta
vez, sentar achismos na cadeira do econômico.
A economia já costuma ser refeição
pesada de digerir. E tem gente graúda que faz questão de botar mais caroço
nesse angu de rapa, que é pra ninguém engolir mesmo.
Mas não adianta. Aprendi um cadim do economismo. Uns sujeitosos
caboclos lá das Minas Gerais trataram de me ensinar tudinho. Recebi os
princípios do conhecimento prudente para uma vida decente. Passeei na vanguarda
do saber acadêmico até descobrir que o saber, quem sabe mesmo é o humilde caboclo vivedor.
Porque este sabe de si e dos seus apertosos calos.
Pois então. Jornal virou mesmo
panfleto de partido político a torcer realidades. Mas nem é aí onde assopro a corneta do problema.
Sou de considerar muito nobre quando um noticioso periódico publica sua
preferência nos cardápios eleitorais. Davia, um fato é que não há mais que meia
dúzia de proprietários das mídias de mais amplo alcance neste nosso Brasil. Hipócritas na alegação de isenção, dabitude não se revelam
preferidores deste ou daquele candidato. Meia dúzia de ovos postos num cesto só. Ali na cozinha malocados no armário da direita.
Vivemos jornalismo de manchete. Aquele que tem capacidade de fazer notícia boa virar tragédia com fins politiqueiros.
Quero cá me deitar num só exemplo
demonstroso desse estratagema midiático.
Não teve um cabimento o tal tipo
de matéria que encontrei num dançar maiúsculo de manchetes. Um jornalão
publicou ontem “Geração de emprego tem pior resultado em 13 anos”. Outro diário
mandou “Emprego tem pior setembro desde 2001”. E para finalizar a orquestra, um
terceiro potente órgão de imprensa ratificou “País tem menor geração de
empregos formais desde 2001”.
O sujeitoso que engole essas manchetes
na talagada feito cachaça boa, conclui de pronto que o país vive uma crise no
mercado de trabalho. Porém, o leitor mais atento vai franzir testa e botar indagação.
Como pode isso se o governo canta aos quatro ventos que o desemprego deixou de
ser fantasma assombroso? Quem está mentindo?
Aí é onde mora todo ardil: incrivelmente,
ninguém está mentindo. Simplesmente os editores escolheram pintar em cinza um
céu que podia ser azul claro. Não é difícil explicar o óbvio do disparate. O
próprio texto que segue a manchete esclarece que foram geradas um milhão de
novas vagas formais nos nove primeiros meses do ano. Isso é notícia boa para fazer
nenhum caboclo botar defeito. O seu e o meu Brasil tem no agá do hoje uma taxa
de desemprego beijando ali os cinco por cento. A mais baixa da nossa
destrambelhada história.
Nada mais natural, portanto, que a
geração absoluta de empregos seja menor. Se já tá quase todo mundo empregado,
nem tem como gerar muitos mais postos de trabalho. Dito em outras palavras, o
que importa mesmo não é o número absoluto de empregos gerados em um determinado
mês, mas sim importa saber se esse montante de empego gerado é capaz de
absorver os caboclos trabalhadores que entram a procurar labuta no mercado de
trabalho. Na matemática do trivial, quanto menor o desemprego, menor será a geração de emprego necessária
para dar conta dos novos entrantes.
Mas os jornalões continuam a
praticar a máxima pela qual notícia ruim vende mais. Ainda mais se o alvo é o
Petê.
Pela similitude das manchetes,
parece até coisa de trato feito. Todas a enunciar somente a parte meio vazia do
copo. Não sobra gota de dúvida que dia vinte e seis é o mais importante do ano.
Faço espera que a metade cheia do copo seja de água com açúcar.
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
que faz um senador?
por Edu Praça
Tô em peleja com meu amigo Celso e
me meto agora no falatório da política. É que ares do futebol andam circundando
a atmosfera eleitoral.
Os ventos do racional sopram tão
longe da vela politiqueira que eleitor virou torcedor de arquibancada. Gritoso
no estufar do peito, mas esquecido que voto é menos pulmão que consciência.
Costurando a linha da
concordância, Celso e eu achamos que um desse povo deveria lançar mais panela
de pressão nas outras cozinhas da politicagem oficial. Falo do parlamento e das
assembleias, que é em verdade o escritório das nossas mais vivas necessidades e
deveria ser a antessala das nossas mais imediatas lamúrias.
Brasileiro é povo centroso que
não gosta de dividir responsabilidade. Candidato a presidente sabe que, se
escolhido, herda de um pronto todos os pecados da humanidade. Se o time do
Felipão dançou sacudido frente à artilharia alemã, sabemos claro que a culpa
foi da presidenta. Desse um jeito, pouco ou nada cobramos dos excelentosos
deputados e senadores.
Ora, vejam se minha incomodação
não faz um bico de sentido. O atual candidato tucano à presidência tem larga
vivência nos corredores da política. É senador da república que exibe vanglória
de ter sido cunhado em preparo para esquentar a mais importante cadeira da
nação. Devo esperar que um tal sujeitoso senador tenha ideias para a lapidação
da república. Passo além das ideias, um senador tem poder. Teve o mineiro queijo e faca
para lançar ao parlamento suas ideias de um país melhorado.
Mas então um caboclo cidadão vai
lá no saite do Senado curiosar e bate a cara na frustração: o distinto senador
nada aprovou. Propostas nenhumas no galho da relevância. Quatro anos de
inatividade.
Cá me resta a pensamentosa
conclusão de que não cai possível deixar voto no senhor Aecio.
Quem sabe é caso de pedir
gentileza ao Senhor Palhaço Tiririca, agora escolado de reeleição, que conte à Excelência Neves o que se faz no Parlamento.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
trezentos e sessenta graus
por Cuca Linhares
Estradas em cerração nos levam ao próximo domingo de urnas. Passadas já muitas e quase todas
oportunidades de acender faróis sobre a via do porvir, a neblina não permite
enxergar bem as curvas que podem pegar todo um mundo de calças arriadas em
surpresa. Nem não há desinfeliz que não deva tremer no medo do capote.
Há dois meses, parecia
implausível botar fé em outra coisa que não fosse a reafirmação de Dona Dilma
em sua desconfortosa cadeira presidencial. O difuso ímpeto mudancista que gerou
ondas de protesto no Brasil recente não enxergara nos sujeitosos candidatos
disponíveis uma alternativa da boa.
A trágica passagem de Eduardo
Campos fez bagunça nesse coreto. Dona Marina deixou o coadjuvismo para o
estrelato e se candidatou à bacia da alternância de poder. Pendurou no colo a
miçanga da mudança, fazendo cantoria de uma dita e desdita nova política.
Há não mais que duas semanas,
tudo quanto é fazedor de planilha e pensador do bom senso passara a dar como
favas já contadas que Marina vestiria a faixa em janeiro do ano quinze. Num
desse quadro, a desgastada e desgastante briga de petê contra tucanos estaria
rompida, ou ao menos deixado de figurar em posição principal no carde de lutas.
No agá do hoje, faltando cinco dias
pra romaria das urnas, não vejo caboclo em capacidade afirmosa de bater
martelos.
Curso de tempo muito curto foi
suficiente para mudar de um tudo. Mudança tanta a rumo de ficar
tudo como dantes. Giro de trezentos de sessenta graus?
Dona Dilma, após o cagaço da
ascensão de Marina, começou a pautar o embate e firmou sua audiência cativa nas
gentes que viveram em pele as transformações sociais dos tempos últimos. É
gente que provou comida quente e tirou o país do mapa da fome. É gente que
vivia lá tão longe e recebeu visitas do Estado. Conheceu escola e até
universidade, coisa que não costumava brotar em terras de interior. Gente que
viu salário crescer e descobriu que dinheiro compra bugigangas e não só comida.
Gente que passou a olhar no espelho e se ver gente.
Marina, ao lado de um caixão,
acenou sorrisos e conquistou uma larga turma. Porém, de um logo começou a se
atolar na areia movediça das próprias contradições. Deu bananas à
institucionalidade, aos partidos e disse querer governar com “a sociedade”. Deu
trufas e champagne ao sistema financeiro e prometeu um banco central obediente.
Tirou o leite da indústria que, segundo ela, já é crescidinha para mamar em
tetas estatais. Disse e desdisse tanta coisa que aquele papo docinho de engolir
sobre nova política anda dando indigestão desconfiosa em muita gente.
Numa dessa confusão de idas e
vindas, o sujeitoso Aecio ficou um bom tempo ali preso no calabouço de um
castelo de cartas fora do baralho, sempre lançando aquele sorriso animoso de
quem afirma ser o lindão mais querido e preparado. Agora na reta final, ensaia
engatar a quinta marcha que pode lhe dar o segundo lugar que levaria a corrida
presidencial ao ponto final de um giro de trezentos e sessenta graus. Será tudo como dantes?
Petê pega tucano na final?
Não sou eu capaz de achar
palpite.
Viúva de um casamento de fachada,
Marina pode acabar saindo da história com mãos abanando.
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Marina Silva e seu navio sem lastro
por Celso Fernandes Ribeiro
Dois colegosos cientistas da
política deram precisas e preciosas palavragens no Jornal Valor Econômico desta
sexta-feira 12. Um par de entrevistas timbradas no puro esclarecimento. Em
plástica de cores vivas e contornos pontiagudos, pintaram o quadro eleitoral saturando
os matizes da contradição chamada Marina Silva.
O brilhoso perguntador buscou
testar a hipótese da governabilidade caso o recheio das urnas revelasse Marina
a chefa da nação. Qual seria o apanágio de um tal comando?
De um seu lado, o sujeitoso
Octavio Amorim, da FGV-RJ, põe argumento na importância de um presidente
necessitar polpuda estrutura política, amparo em movimentos sociais organizados
e/ou tropa operante na casa parlamentar. O agá maiúsculo da história nos conta:
“Quando um presidente eleito não tem uma grande organização partidária, uma
base política sólida, ampla, por trás de si, essa Presidência equivaleria a um
navio sem lastro (...) o capitão pode ser genial, mas o navio sem lastro pode
virar a qualquer onda”.
Ora, a porta-bandeira da dita
nova política não tem partido. Tá morando de favor no PSB de Eduardo Campos e
prometeu sair assim que realizar o sonho da casa própria, com rede na varanda.
Mas quem há de ser convidado a deitar na rede?
Personalista, Marina não se avexa
no discurso de que partidos servem pessoas. Afirmativa, a cabocla candidata
alega que fará governo com “os melhores”, desimportando a filiação partidária. À
parte a arrogância essencial de quem se atribui o dom da definição dos “melhores”,
meu colegoso cientista traz advertência: “É ruim. O sistema partidário é o
lastro do sistema político”.
O que Amorim trata como
contradição, Luiz Felipe Miguel, da UnB, logo detona como estratégia: “Marina
está pronta para jogar o jogo que sempre foi jogado. Apesar de ter se
apropriado desse discurso da nova política, eu a vejo como uma política muito
pragmática”. A velha espertice a piscar olhos para a desfaçatez.
Marina está penteada em coque de
saber que terá de se render ao câncer dos peemedebismos próprios do regime de
coalizão. Nesse um quadro, Marina não teria problemas de governabilidade pelo
simples fato de que vai se aliar aos lambedores de beiços de sempre para
construir seu apoio no Congresso.
Miguel completa desalentosa
conclusão: “A tendência da política brasileira, da forma como ela ocorre, é o
desencanto do eleitor a cada novo governo. Porque existe um descompasso entre
aquilo que se deseja, de uma política mais transparente, mais limpa, mais
programática, e a prática”.
Em linha de concordância, cá este
blogueiro achista das coisas políticas só vê saída pela reforma da casa toda.
Partidos devem ser bons e poucos. Nunca jamais financiados por empresas.
Enquanto reforma não vem, Marina
lança ao vento vão o grito de novidade. Para logo em seguida nos dar boas
vindas de volta à velha política.
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Não deixem de ler as entrevistas completas. Alguns outros aspectos em muito interessantes são abordados. Abaixo
lanço o endereço. Talvez só abram a porta para assinantes. Se for o caso, me
convide prum chope e deixo você ler no meu espertofone.
sábado, 6 de setembro de 2014
queda e ascensão da humanidade: o caso Aranha
por Cuca Linhares
Tu és sujeitoso bonito demais da conta.
Episódio flagrante de espetáculo racista
rolou na Arena Grêmio semana última. Alegre não se sabia aquele Porto. Em alvo
preferencial da desumanidade, o muito grande goleirão santista contragiu digno
por demais da conta. Sem sacar em sacanagens da agressão torpe, mostrou ao
mundo o que é muito feio e inaceitável das inteirezas do ser.
Via eu aquelas cenas no preciso momento
de suas câmeras e ações. De um átimo subiu-me engulho condenatório do projeto
humano de civilização. Com o ensaio de lágrimas ali na mucosa dos olhos onde
toda raiva do mundo mora, foi o meu pensamento: a humanidade caiu. Um projeto
falido a arrastar suas bípedes permanências primatas. Jeito não há. Eu assumia
de um jeito a culpa daquela festa sinistra que a tevê iluminava.
Virado este blogue o espaço
privilegiado dos mais e menos nobres achismos, quis num levante vir aqui botar
cachorros a ladrar e morder. Mas escorridos minutos que trouxeram a ponderação
aplacadora da cólera, pensabundo mudei: antes do manifesto, fica por bem
esperar as repercussões do fato. Certo estava que de um nada sucederia. Racismo
é causa afundada nesta terra. Vai ninguém no nada ligar pra esse troço. Somos
todos aqueles cegos dos piores e não vemos porque não queremos.
Foi tal o meu veredicto: Faliu a
humanidade! Gente que discrimina e humilha gente, tal se este gente não fosse.
Isso não cabe em moldura qualquer de razão.
Pois agora, após o curso dos dias,
me vi alegroso na contrariedade: me parece que temos chance. Indícios no
conforto de que humanidade tem ainda um seu jeito.
Houve denúncia. Polícia recebeu e
imprensa noticiou. Ainda que minhas sobrancelhas se curvem na dúvida sobre o
mérito, o clube dono da arena se ferrou expulso do torneio. Não sei mesmo se clubes
devem pagar pela imbecilidade humana. Mas de um tudo somado, achei foi bom e
pouco. Não é caso, por óbvio, de celebração desmedida. Idiotas ainda devem ser encrencados em sua idiotice.
Mas fato induvidoso é que muitos e maiores foram os indignados acenos
solidários ao rapaz Aranha, atestando que a humanidade é projeto ainda viável. Provado
viabilíssimo na postura do próprio goleirão, que declarou ter aprendido com o
rap a ser preto e grande.
Minha gratidão é sua, Aranha, por
soprar uns grãos de areia que farão mundo mais civilizado para vivência de
minhas filhas.
Receba estas letras poucas de um
caboclo em admiração da muita.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
noite de futebol do puro
por Edu Praça
Noite ontem foi
dessas. Mata-mata acelera os corações e faz emergir estrelas em consagração. Copa
é sempre Copa. Quem não nada era, nada tinha e pouco esperava, repente tudo
rapa.
A Copa do
Brasil viveu noite com futebol da mais genuína popularidade. Gols por demais.
Viradas. Falta de luz e lampejos de gênios. Heroísmos e injustiças das muitas:
cardápio completo dos melhores ingredientes em farta porção que fazem desse
esporte o mais querido.
O retrato
escrito embaixo enquadra partidas que tive logro de ver ou ao menos abiscoitar
bons pedaços de emoção.
Nas entrâncias
de Arapiraca-AL, mesmo jogando com turma reserva, o Cruzeiro carimbou
favoritismo ante o surpreendente e digno Santa Rita. Presença surpreendente
nestas oitavas de finais, os alagoanos sacaram mais surpresa ao vazar os azuis
no primeiro tempo. Na segunda tranche, davia, tudo rolou na linha do previsível. Cruzeiro fechou o 2 a 1 da virada e, se bem somado com o
primeiro embate, temos 7 a 1. Placar largo que brasileiro não vê plano de
esquecer.
Após susto de
queda frente ao Bragantino na ida, na volta o Timão não fez rogo para liquidar
em logo sua fatura nas paragens de Itaquera. Enfiou três tentos rede adentro em
filme de 20 minutos, com cenas roubadas por Renato Augusto. O Corinthians ainda
cedeu honra de um tento à turma de Bragança, mas ficou na boa para rolar a
pelota e engolfar o apito final classificatório com o placar de 3 a 1.
Não vi com
atenção o que se deu lá nas alturas do Castelão, mas de um fato o incendiário
de General Severiano celebrou demais da conta. Segundo consta, o jogo teve
apitagem escorregosa de lama e lambança, mas sem viés. O Vozão era havido
vencedor, por incríveis 3 tentos a 2, até os 49 do segundo tempo. Pois em dois
minutos o Fogão logrou feito de empatar e virar com golaço em placa de André
Bahia. O alvinegro da estrela solitária, que tinha perdido em casa por 2 a 1, garantiu
seu salto à frente na competição. Placar final mostrou 4 a 3 com botafoguenses
em justos pulos de suado heroísmo.
Cá no
balneário, o Maraca também fez jus às suas épicas tradições e viu o Flamengo deixar
rotas as vestes do improvável. Tinha caído por 3 a 0 para os coxas brancas em
Curitiba e já ensaiava desculpas montadas no foco direcionado para o outro
campeonato brasileiro. Não sem controvérsia, o juiz apontou a marca penal duas
vezes e Alec converteu ambas, inflando esperanças da torcida. Mais um gol foi
achado por Eduardo e o desfecho levado aos pênaltis.
A incompetência
do boleiro brasilis para tiros na marca dos 11 metros é tão extremosa que faz
assunto para outro texto. Fato sofrível é que a goleiragem fez festa. Dos 12
penais cobrados, apenas 5 encontraram as redes. Paulo Vitor felicíssimo nas
defesas e no flerte com a fortuna. Flamengo verteu três tiros em gol, avança às
quartas de finais e segue firmoso na ladeira da raça, desde que o já desgastado e desacreditado Luxa assumiu o comando da tropa.
Chamado às
falas pela imprensa, o herói flamenguista Eduardo declarou: “No futebol tudo é
possível”. De um fato. Óbvia boleiragem em forma de verdade.
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
contra o buraco negro eleitoral
por Celso Fernandes Ribeiro
Nos
jornalões e panfletos. Nos apitos do aparelho celular. Nas mais frequentadas
redes virtuais e bodegas de esquina. Em todos os meios, é mensagem somente uma:
a escolha do chefe da nação. Ou chefa, como indicam agora as roletas todas do
bom senso.
Se
este nosso povo não despavimentar o que parece estrada certa, teremos a lisonja
de um duplo presente: o drible à dicotomia da máxima mesmice emoldurada por
petês e tucanos, lançando estes de lambuja ao segundo cenário do coadjuvismo. Ainda
que possam ostentar um resto de calibre decisório ante uma das candidaturas
protagonistas no decisivo turno.
Mas
não vejo hora de abordar as mumunhas muitas dessa disputa. Pelo antes inverso,
venho sublinhar em traço de contrariedade o buraco negro eleitoral havido e
vivido. Quero mesmo é desviar um tanto os olhares e orelhas do duelo central entre Dilma e Marina. Queiram entender o porquê.
Não
vejo muito uns poucos volumes de ares inspirados ou suores derramados que não
sejam em função da escolha presidencial. As tensões e atenções estão todas ali,
atraídas àquelas duas mulheres-buraco-negro. Colados nelas, não deixamos luz ou
tempo ou espaço para as importâncias do redor.
Em
um desse quadro, soa como matéria de esquecimento que a eleição é ampla, geral
e quase irrestrita.
Tenho
cá que as casas do parlamento e os governos locais são os mais diretos
mandatários de nossas demandas, ferramentosos governantes de nosso bem estar.
Escola, esgoto, mobilidade e segurança são alguns exemplos de objetos da
governação próxima. Redundo persistoso na prosa de que uns temas dessa grande
importância estão sem destaque na pauta, em parte porque são vinculados à
esfera local.
Mas
não adianta: brasileiro faz encanto demais do ocupante da cadeira central do
governo federal. Olha bem lá e longe, mas desdenha de sua cozinha.
Pois
se me dão a chance de esboçar proposta de mudança institucional feita no buril
do achismo, seria de boa função dar jeito de apartar as escolhas federais e
locais. Reservar período eleitoral para as escolhas locais (governos de estado,
deputados estaduais, prefeituras, vereadores) e juntar as escolhas federais em
período outro (presidente e deputado federal). Senado pode entrar nas duas
rodadas, já que o mandato é de oito anos, ora renovando um terço, ora renovando
os outros dois terços.
Desse
um jeito, conseguimos dispensar mais equilíbrio e atenção importante a tudo que
importa.
Enquanto
assim não é, caros amigos leitores, olhemos na sala grande para a briga entre
Dilma e Marina, mas olhemos também em força de carinho pra nossa cozinha, onde
é afinal cozido nosso rango e lavado o prato do amanhã, em que não teremos o
condão de cuspir.
terça-feira, 26 de agosto de 2014
jornalismo curupira
por Celso Fernandes Ribeiro
Figura onipresente na vida das gentes: o jornalista.
Nesse metiê das mídias informativas e deformativas, já rareiam aqueles profissionais ministros do fato. Emergem gravosos os embaixadores da versão. Fazem jornal em papel de polêmica.
De ofício, revelam-se antes jornaleiros que jornalistas, dada função precípua de vender jornal.
Talvez sido sempre assim. Induvidosa realidade é que atual notícia vergou
em cara pura de mercadoria. Se informação da boa já não entusiasma, o negócio é
comerciar manchete.
Fica impressão que ninguém lê o jornal
além das letronas. Ali no topo garrafal bonitão o sujeitoso jornalista bota o
que quer o editor patrão. Interessa pouco se o composto textual
de letrinhas que vem debaixo das letronas relativiza, desdistorce ou contradiz
a própria cabeçalha. Ninguém dá trela às pequenas letras.
Por ora de exemplo, vivemos fase de corrida para
escolha definidora das lideranças do presidir e do governar. O futuro querendo
se avizinhar um tanto tímido e vergonhado, desejoso de ser ouvido num papo bom.
Davia, o jornalista planta pés à frente com cabeça e olhos girados atrás, como um Curupira às avessas.
Se vai abordar candidato, já busca logo a manchete. Vai reduzir ministérios? Quantos e quais? Mas então Fulano de Queirós é incompetente? E o caso Ciclano Garcia? Não sabia? É picareta ou inapetente? Usa entorpecentes? Nunca? Vai controlar inflação? Ou vai sustentar emprego e salário? Mas assim vossa senhoria põe em risco a estabilidade. Mas assado vossa senhoria arrocha mesa, cama e banho dos trabalhadores.
Junho de 13 foi havido e vivido como cena política monumental. As pautas estruturosas do bem estar residem ali. Cadê jornalistas a ligar alvo e seta?
A conceber por estes jornaleiros, o país não é afinal tão portador assim das coisas importantíssimas.
O Futuro anda se sentindo tão excluído
do papo que flertou enamorado, na mesa ao lado, com o Não-Ser.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
ode à vitória da defesa
por Edu Praça
Numa contenda em guerra, é a peaozada rasa quem assume a linha
de frente. Vidas na soleira da desimportância. No turno da peleja
futebolística, de inverso, ali coincide quem primeiro põe cara a combate e quem
embraça louros de artilharia.
O futebol é o festejo de lanceiros atacantes. São os donos das
elevadas patentes, condecorados pelos cânticos da nação.
Ocioso redundar que o equilíbrio é traço de força determinoso
dos times campeões. Sem sopro duvidoso de titubeio: uma infantaria de onze em campo
de batalha precisa se fazer bloco compacto de forças audazes; os setores todos
do campo precisam de sujeitosos hábeis na astúcia.
É num justo dizer afirmativo, porém: não há no encontro da
História maiúscula uma equipe de alto desempenho sem pelo menos duas figuras de
ação crucial, a saber, o guardião da meta e o zagueiro, este sempre em
interdependência de dupla.
Não conheço talho de vitórias em time sem grande goleiro ou descomposto de zagueirudos trapalhões. São eles os generais e furriéis de toda parada:
enxergam todo o tabuleiro e sustêm maestria nas artes do tempo. Dos tempíssimos
e átimos para as ações e reações precisas.
Com estes, não há ocasião de falha e perdão tampouco.
Ontem foi dia desses. No Mineirão, a infantaria azul estrelada
suplantou a retrancada trincheira armada pela trupe do Felipão. Não sem toda
paciência e perspicácia.
Quem sorriu em capas de jornal foi Dagol, o autor do disparo
capital.
Mas quem as luzes, câmaras e ações deveriam buscar são aqueles
que levaram de um fato a vitória no lombo: Fábio, fiador das brechas e erros
alheios, e o garçom mitológico Dedé.
O jogo era jogado: a turma gaúcha esperava o dono da casa e só
saía em agudos contrataques. Construiu assim as mais efetivas chances da peleja
e poderia até sair vencedora, não fosse a goleiragem de Fabio, o maior de
todos, um monstro das difíceis intervenções flertando com as prodigiosas
milagragens.
Numa ofensiva gremista, numa hora daquelas que só atende pelo
nome agá, Dedé botou desarme cirúrgico, enfiou contrataque à direita e, em
tabela com Alisson, recebeu à frente em zona que não se chama conforto. Correu
passos com a pelota, desacelerou como o jamaicano Bolt a não querer radicalizar
recordes, olhou e pensou quase a coçar queixo. Então entregou a glória em forma
de esfera na cabeça do lanceiro roubador de brilho.
A infantaria azul estrelada segue firmosa na afinação das
lideranças.
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
sobre a queda de Eduardo
por Cuca Linhares
Num desse jeito, este blogue vai virar um obituário. Este ano da graça dos dois mil e catorze não parece em coisa boa. Amontoado de dias que não se cabem de tanto juntar partidas tristes.
Num desse jeito, este blogue vai virar um obituário. Este ano da graça dos dois mil e catorze não parece em coisa boa. Amontoado de dias que não se cabem de tanto juntar partidas tristes.
Eu nem acho assim que a morte é instituto sempre assombroso e
fedorento, levador de tristeza pura. Quando em ordem de passagem após punhadão
bom de tempo em saúde de realizações, a morte pode ser vivida natural até com
certo contente. Mas um evento fatal desfechado por acidente é de carcomer as
têmporas em arrepio.
Pois veio ela mais outra vez, a morte matante, se avizinhando
repente em cor de explosão.
Eduardo levado embora e junto com ele meia dúzia de caboclos
gentes da fina. Tragédia grande daquelas de tornear a História toda.
Indago aos deuses meus nenhuns qual o sentido de obra desse
naipe do destino. Há quem diga lá mesmo naquelas bandas do Pernambuco que o
destino não é mais que o acaso atrevidamente empavonado em mania de grandezas.
Acaso lapidado no dia escolhido: o mesmo 13 de agosto que cerrou olhos do velho
Miguel Arraes, formoso líder chegado das esquerdices, altivo nas coisas da
política e avô do Eduardo, este líder novo de uma vida política inteira que podia
ter sido e que não foi.
Curioso que no dia próprio de todo desditoso infortúnio, tinha
eu sido apresentado a toda família grande dos Campos, compartilhado sorrisos
sinceros de empatia com a força de Renata, e apertado firme a mão do
presidenciável candidato. Entrelinhas, claro: encontro feito somente por caso das
letras pontiagudas da Daniela Pinheiro.
Minha leitura findou em forma de cumprimento sincero ao sujeitoso Eduardo, ainda que sem qualquer hipótese de traduzir em voto na contenda
eleitoral iminente (pelo menos não agora, enquanto deitado ele numa rede esquisita que só
vê direção de rebentar).
Para aquém do humano, posso justo até confessar que fiz choro de
lágrima e tudo quando vi lançada na rede, a outra esta aqui em que me leem, uma fotografia de Eduardo com seu
caçula, exuberando sorrisão de pai. Não deu pra não abraçar sujeito.
Eduardo era gente grande no alto das importâncias.
E o povo brasileiro nem sabia ainda (saberá jamais)
dos bons motivos havidos, bem outros distintos daquele meu, para chorar essa ida sem volta.
Não vejo hora de falar analisativo dos estratagemas políticos burilados dessa tormenta. Dos
descaminhos que se abrem mal traçados na corrida pelo poder. Isso é seara que
meu amigo Celso de certo tomará conta mais própria em breve.
Fato registroso é que o caboclo Eduardo, ao cair botando fogo em
quintal paulista – que não era o seu – desmatou campos concretos de engenhoso
cultivo e anda queimando nervos muitos dos politiqueiros da paróquia.
Ali no baixio das mesquinhas humanices, tristeza torpe é ver ocorrência
de velas e lágrimas tornada trivial ato eleitoral. Não o digo pelo povo, legitimado nesse proceder. Mas pelos lambedores de beiços de sempre.
Já saiu a primeira pesquisa boca de túmulo.
Já saiu a primeira pesquisa boca de túmulo.
terça-feira, 5 de agosto de 2014
a futebolização do pensamento e a guerrilha da razão
por Cuca Linhares
Sem lugar à dúvida derretedora do caráter, o futebol é a magia diabrosa que bota em xeque a verdade estabelecida nas ciências da vida aceita: será o sujeito homenzudo um animal racional?
Sem lugar à dúvida derretedora do caráter, o futebol é a magia diabrosa que bota em xeque a verdade estabelecida nas ciências da vida aceita: será o sujeito homenzudo um animal racional?
A justa espécie homo sapiens
sapiens se descobriu, no clímax de sua harmonia, bateria e evolução, um ser
enfeitiçado. Que insondáveis mistérios faz um caboclo reto vestir pavilhão de
clube social e entoar hinos de fidelidade que alguns não dispensam à própria dona
patroa?
Meu time é melhor que o seu
porque é meu. Isso é jogo de paixão. Controlar objetos é função de mãos e
polegares opositores. Inventaram de fazer rolar a bola, tirando o pé do seu
papel normal. Foi criado o esporte sensacional, guardadoso de toda surpresa.
Jogo em que o pior (ou seja, o outro) pode vencer, deuses meus nenhuns!
Vestido de ingenuidade, achava eu
que um dia os caboclos sapiens fossem tratar o jogo como jogo, esporte que é. Rivalidade
dos fraternos. Alegria das puras.
Mas nada. Vergonhado de verdade,
o que vejo é não só acirramento nos assuntos da bola, mas a futebolização de
tudo quanto é assunto. Repente, todas as temáticas postas à mesa se tornam
um jogo de paixão, tombando a razão em guerrilha.
Na política já não cabe crítica.
Cada um tem seu time e torcida. Tudo ou nada. Petê não dá! Turmosa comedora
de criancinha do caraio. Tem que acabar com essa raça que inventou a corrupção em nosso balneário brasilis! Tucanada é os fedepê da
elite branca. Cambada de reaça hipócrita vai privatizar a senhora sua mãe e
arrochar o salário dos apaniguados!
Nesse campo de guerrilha, é sim natureza nobre escolher um lado. Mas clamo a todos os deuses meus nenhuns, teria tudo no mundo apenas dois lados infundíveis e inconfundíveis!?
Nesse campo de guerrilha, é sim natureza nobre escolher um lado. Mas clamo a todos os deuses meus nenhuns, teria tudo no mundo apenas dois lados infundíveis e inconfundíveis!?
Tá foda! País divido e sem crítica é das
piores lascaduras.
sábado, 26 de julho de 2014
o portentoso fabricador de belezas
por Cuca Linhares
Minha beleza enorme mais pequena faz quatro meses de sorriso banguelo mas deverá, sinto provavelmente, viver crescimento em mundo de menos e menores belezas. Neste dia de ontem partiu ao reino da pedra aquele dos mais portentosos fabricadores da coisa bela, como poucos vistos assim de perto, tão gente amassado e reengomado na sofisticadíssima humildade.
Minha beleza enorme mais pequena faz quatro meses de sorriso banguelo mas deverá, sinto provavelmente, viver crescimento em mundo de menos e menores belezas. Neste dia de ontem partiu ao reino da pedra aquele dos mais portentosos fabricadores da coisa bela, como poucos vistos assim de perto, tão gente amassado e reengomado na sofisticadíssima humildade.
Dizem que a causa da migração foi
um avecê. Acidente vernacular cerebral, da espécie verborrágica. Um tanto
montoeira de palavras se derramando dançarinas, enfileirando coreografias tão
belas que já não havia como esperar papel em que se deitar postas em ordem, vestidas em iluminogravuras.
Foi de morte morrida a partida.
Coitado do homem que já não via era tempo para embrulhar tanta palavra forte em
papel de obra de arte. Tanta palavra mais forte que nós tudo. O homem-palavra
sucumbiu bonito metamorrido na matéria-prima de si mesmo.
O fabricador de coisas belas
comove por cada som apalavrado que pula da boca naquele timbre que é só de mais
ninguém. Timbre de tossir pigarreado a ensinar ética pelos entremeios da
estética. Voz rouca que em som de rabeca ecoa. Agudíssima.
Fabricando coisas belas, nosso
homem pôs em xeque o inexorável das modernidades, a que outros homens reputam
bem atávico: há menos belezas nos progressos das coisas e dos sujeitos que se
coisificam.
O portentoso fabricador de
belezas vê, com olhos que a terra come, a terra de quem tem fome. Enxerga fundo
dentro e além da superfície. Vê aqui, debaixo da terra mesma, a raiz popular da
árvore que dá o fruto delicioso, por vezes puro demais. Puro demais sempre. Árvore
que os donos da terra comandam foices para ceifar. Fruto que os donos da terra,
ditos eruditos, rezam e matam para não comer.
A filha minha mais pequena, e não
menos a mais grande, treparão a brincar nesse pé do fruto ariano. Terão no prato farta
porção. De semente rara, esse fruto da beleza tem nome cultura popular. Mas as
gentes podem chamar somente Brasil.
(24 de julho de 2014)
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