domingo, 28 de dezembro de 2014

sobre o caneco do Galo e a lisura deste blogue

por Edu Praça

Então pois é. Este blogue acabou vivendo férias coletivas neste dezembro em junto com o futebol nacional. Engulo a culpa toda, pois meus caboclos camaradas Celso e Cuca há dias me cutucam com a vara curta da aporrinhação.

Alegam estar há dias nadando em leito dos assuntos muitos, mas nada querem publicar antes da registrosa manifestação sobre o caneco da Copa do Brasil conquistado em levante inédito de braços pelo Galo mineiro.

Razão toda deles. Nós, que somos três seguidores do rival derrotado Cruzeiro, seríamos logo e justamente alvejados pela tinta do descrédito. Diriam nossos poucos e bons leitores que isso aqui é espaço de conveniência para torcedor cegueta lançar tapete abaixo os ganhames adversários. Davia, cá não estamos eu ou meus caboclos parceiros para dourar pílulas de glória própria e cerrar olhos para festa alheia armada no salão da nossa queda.

O retardo deste texto não se deveu a tal tipo de picaretosa covardia. Se me faço explicoso, fato é que fui acometido pela singela preguiça: o jogo final, enunciado e esperado como clássico ditoso das emoções, não foi além de reprise do primeiro certame. Fiquei sem ânimo sob o risco de pintar texto sem traço de originalidade.

Cá vamos, davia.

O time azul, não sei por que cargas, vestia branco. De um fato, assentou com o pálido futebol entoado. Recém consagrado campeão nacional, escapou de ver o rival capturar o título na rede da goleada. A orquestra cruzeirense não suou gota de resistência. Chegava atrasado em tudo o que se chamava lance. Desafinou completamente enredada pelo domínio da disciplina galense. A magreza do placar mínimo não revela o que foi a supremacia do campeão.

Galo entrou em campo vestindo o tradicional preto da força e o branco da velocidade. Tinha até como opção vestir o vê da vantagem e viver jogo feiosamente sentado sobre os dois a zero da primeira partida no Horto. Assim não o fez. Marcou muito e jogou sempre no campo adversário. Quis a vitória e a conquistou ainda no primeiro tempo pela cabeça de Diego Tardelli. De resto, o arqueiro azul Fabio viu bola em sua trave e operou algumas de suas típicas milagragens para assegurar queda honrosa.

Assim foi que deu Galo e só Galo na cumeeira do merecimento todo.

Devoto ao rival os parabéns por incrementar sua história com mais um troféu.

Cumprido o devido e assegurado o crédito deste blogue, meus sócios de peleja já podem serenos destilar seus achismos de um novo. Venha o ano quinze com futebol do puro e razão muita para tagarelagens de pensabundos.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

chuva, suor e caneco

por Edu Praça

Nem não dá. Sei que haverá quem vai firular contornos épicos ao embate que consagrou o título brasileiro ao meu Cruzeiro. Vão achar boniteza na conquista pegada em adversas intempéries.

Davia, não posso tabelar em concordância. Espetáculo dessa importância, mobilizador das tensões e atenções muitas, gerador e embolsador dos dinheiros todos, não pode ser encenado em tal lamentoso palco.

É caso de lembrar que este é o mesmo Mineirão padrão FIFA que ofereceu tapete ao vexame canarinho ante os alemães na última Copa. A reforma do estádio comeu alguns anos e dinherama que namora o bilhão de reais.

Os artistas de Cruzeiro e Goiás viram sua cena de protagonismo roubada pela expressão da incompetência e do desrespeito. A torcida, razão de ser de tudo isso, paga caro pelo assento, pela assinatura da tevê a cabo e também pela pecha de otário que lhe é emplacada.

Pois é. Obstante os pesares, teve um jogo. E até que se viram expressões do futebol bom e puro.

No primeiro tempo, foi chuva desmanchadora de topetes e gramado de fazer inveja aos paulistas órfaos do Cantareira. Meu Cruzeiro entrou certinho composto de seus melhores quadros, e conseguiu até trocar passes para construir um belo gol: Everton Ribeiro na meia cancha desenhou corte de letra para leitura de Mayke em velocidade pela direita. Este calibrou preciso o cruzamento para a cabeçada anteciposa e precisa de Ricardo Goulart. Pro abraço.

Ornando o cenário da emoção, o time do Goiás logo encontrou empate. Na trombação típica de um jogo em condições atípicas, Egidio inventou uma falta desnecessária em sua lateral esquerda. A cobrança mandou bola na área azul, a zagueiragem cruzeirense errou o tempo e a redonda sobrou em pés de Samuel, que contou com a poça dágua para amortecer seu domínio e, com rapidez, encaixou belo disparo no ângulo.

O segundo tempo mandou estiagem e melhorou bastante o terreno. O gramado se reapresentou bem parecido com campo de futebol. Não isento de algum sofrimento, contido apenas pelas usuais milagragens do capitão Fabio, o Cruzeiro conseguiu fazer seu jogo, marcoso em linhas adiantadas.

Agora pela esquerda, foi a vez de William arredondar a bola da inteligência, chamar o marcador à dança e alçar assistência que encontrou Everton Ribeiro na pequena área esmeraldina para empurrar de cabeça a pelota à meta e dar números finais ao placar. Dois a um.

Futebol viçoso e regular. Orquestra de baile bem afinada pelo maestro Marcelo Oliveira. Cruzeiro precisou de trinta e seis rodadas para carimbar o gaboso título de campeão nacional de 2014.

Mas nem não nos deixemos fiar no engano dos parabéns. Torcida é coisa de fome e sede. Daqui a dois dias tem mais um caneco em disputa. Em cabeça de torcida, o jogo mais importante é sempre o próximo.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

por ora, terreiro do Galo

Por Edu Praça

Nem não adianta. Pega até mal a raposa que ensaiar reclamosos cacarejos. A primeira batalha pelo caneco da copa do Brasil rolou no Horto sob cantos uníssonos da torcida alvinegra. O galo teve domínio dos fatos do início ao fim e em todos os cantos da área em escaramuça. Construiu um inapelável dois a zero no placar da justiça toda.

Não resta incerto que os maestros Levir e Marcelo se fiam entre os melhores regentes do futebol nacional. Este até entalha alguns desenhos de mais sofisticação na arte da boleiragem. Davia, aquele sabe de tudo e mais um pouco no ofício de compor orquestras de competição.

A tropa galense entrou pra mostrar quem manda e se impôs dono absoluto do terreiro. Jogou a final como final. Seu arqueiro nem não sentiu calor nas luvas. Mal aspirou o cheiro do trabalho. Datolo, Luan e Tardelli comandaram o baile com precisão didática de posses e passes. Marcação da muita e correria de desafiar relógios. Não havia bola dividida que não sobrasse em pés alvinegros.

Na contramão, o time azul tocou no compasso dos pontos corridos e viu anulado seus outrora inegáveis talentos. Mayke, Goulart e Ribeiro não viram conforto no couro da pelota. Investidas de pelotas ao alto, tão eficazes em outros palcos, foram solenemente rechaçadas pelos zagueirosos alvinegros. Dentre estes, um tal Jemerson eu nunca havia visto mais elegante em força de humildade e segurança.

Clássico é embate de sangue em olhos e aceleração sobreumana. O Galo foi lá e fez como devia.

De sobra, cabe louvar o combate na lealdade pura. O juizão até exibiu lances de apitador caseiro e um dos gols foi confirmado apesar de construído no milímetro da irregularidade. Davia, não há caboclo sério capaz de desconsiderar humano aquele erro. Juizão levou o jogo na boa, só no assopramento do apito. Se não me deixo engano, foi coisa de um ou dois cartões amarelos e só. Coisa bonita.

Agora é Galo em busca de encontrar conforto vestido nessa roupa apertada que costumam chamar de vantagem. Do outro lado, o time azul com noventa minutos e mais uns quebrados para executar bom número diante de plateia sua. 

Nos bares e esquinas onde moram as superstições, há quem diga que o Galo não cisca bem no terreiro da facilidade. É bicho esporado no desafio. Será meu Cruzeiro capaz de aplicar virada no estilo que tem sido chamado de Atlético Mineiro? O futebol é um esporte fazedor de ironias. Ninguém não vai deixar de ver.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

futebol, ética e malandragem

por Edu Praça

De um pronto, devo registro sobre o momento destacoso do futebol mineiro. Meu estado não tem mar, mas está surfando na crista da onda. Ano passado o Galo conquistou a América e a Raposa papou o Brasil. Neste dois mil e catorze, se enfrentarão em clássico nas montanhas e picos do ineditismo, a decidir quem fica com o caneco da Copa do Brasil. Na ausência do mar, bar não há de faltar.

Mas esse um fato merecerá um texto detalhoso no futuro breve, tão logo a batalha tenha colhido seus feridos, vencedores e vencidos. 

O papo aqui é sobre o já ocorrido e não cuida do porvir. Na rodada passada do brasileirão, meu líder Cruzeiro venceu sem grande resistência um Botafogo que parece fazer interesse e força pra gozar férias no segundo escalão do futebol nacional. O time azul, jogando em casa, não fez rogo de botar balanço nas redes por duas vezes logo nos minutos iniciais. Depois foi só dançar o fanque do resultado administrado, guardando combustível para o jogo decisório que teria contra o Santos pela semifinal da Copa do Brasil.

Mas esses muitos rodeios já me afastam demais do gol. O propósito destes escritos não nem é fazer crônica de resultados. Abordei Cruzeiro vs Botafogo apenas para lembrar um lance curioso, sem relevo de importância no desfecho do jogo, mas que me levou um tiquim mais fundo nas complexidades desse esporte envolvido no sem razão das paixões e dinheiros.

O placar já marcava dois tentos a zero quando um dos defensores severianos, pressionado em marcação no seu campo, fez tentativa de passe lateral. O sujeitoso boleiro parecia visar seu companheiro de zaga, mas a bola acabou alcançando o arqueiro Jefferson. De um pronto, com a rapidez dos convictos, o juizão soprou apito a marcar tiro em dois lances dentro da área contra o Botafogo. Ficara caracterizado o recuo de bola. Uma chance capital para o time azul matar o jogo empurrando a terceira bola pras redes ainda no primeiro tempo.

Mas repente emergiu um peraí. A nobreza do caráter chamou o juizão às falas. Marcelo Moreno, o centravante que fazia as vezes de marcador no lance, na cumeeira das suas honestices todas, disse ao juiz que a bola resvalou em seu pé, alterando milimetricamente a trajetória e descaracterizando portanto o recuo intencional da bola ao goleiro. Diante daquela atitude, não restou ao juizão senão um acenar de braços desfazendo sua própria apitação.

Na tevê, narristas e comentadores cobriram de elogios o pendor ético do atacante cruzeirense. De um fato, transpondo a questão aqui pro lado da vida vivida, é atitude que merece os aplausos todos e o troféu dourado do ferplei.

Davia, aqui pensabundo na intimidade dos meus achismos, boto indagação: teria o sujeitoso agido da mesma forma caso o placar registrasse resultado desfavorável no momento do lance? Tivessse o jogo empatado ou em caminho de derrota, o caboclo cederia assim, de delicada honestice, sua chance de gol?

Futebol é coisa complicada demais da conta. Ouso até dizer que a filosofia praticada em campo é a dialética da malandragem. Aqueles simpáticos a uma visão mais 'institucional' da vida vão dizer que cabe ao juiz identificar e punir os malandrosos. Há quem diga até mesmo que o ofício do boleiro exige a competência da malandragem. O apitador que faça bom trabalho, tudo veja e vista a roupa sobreumana da ausência de erros. 

Há ética cabível no futebol?

Alguém seria capaz de condenar moralmente o Moreno, caso ficasse quieto diante do apito convicto do juizão e cobrasse a falta em tabelinha com o João Sem Braço? O torcedor celeste aprovaria o ato de um jogador renunciar assim uma chance caso o time tivesse em apuros? O que dizer de patrocinadores que recebem a cada gol o retorno financeiro das suas feiosas marcas em estampas de camisa?

Eu mesmo confesso não ter respostas a essas interrogações. Nas minhas peladas aqui e ali, eu certamente já lancei mão e pé dos truques e retruques da boleiragem. Nas artes do futebol não cabe a lógica pura. A bola rola e se oferece aos dribles amorais.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

um homem, um voto

por Celso Fernandes Ribeiro

Hoje o papo é curto e só dá trela aos simplesmentes.

Mal passada a ressaca da dura peleja eleitoral, começam as querelas daqueles que não sabem brincar de democracia. 

Derrubar a tese de que o nordeste elegeu a presidenta Dilma não é tarefa das mais complicosas. Basta a aritmética eficaz dos padeiros e feirantes para computar que ela teve maior volume de votos no sul e sudeste (26 milhões em redondos números), se comparado aos 20 milhões de votos colhidos no nordeste. 

Somemos a esse noves fora a situação emblemática de que o sujeitoso opositor tucano perdeu jogo em casa. E aí podemos considerar tanto sua casa de oficio e formalidades, Minas Gerais; ou também sua casa de artificio e veleidades, o Rio de Janeiro. Se quero fazer troça, digo que Aécio foi traído na casa da esposa e na casa da amante.

Assim, sem dificuldade, lançamos aquela tese à lixeira das conversas fiadas.

Difícil mesmo é a turma do mimimi se livrar dos ranços classistas e dar meia dúzia de passos para o século XXI, quando sufrágio censitário não mais vigora.

No a do aqui e do agora, é na urna que avistamos uma silhueta de justiça. Ali na urna, o caboclo vivedor no sem razão das injustiças sociais e econômicas, combalido pelas históricas desigualdades, vale o mesmo peso do sujeitoso que assenta sobre os cumes da riqueza toda. 

Na urna é um homem, um voto. Uma mulher? Um voto valedor idêntico. E um preto? Também lasca voto com o mesmo efeito unitário.

Aí vêm os doutos senhores lambedores de beiços de sempre bradar em timbre odiento e tom acusatório: "esses uns pobres elegeram a presidenta!".

Peço perdão aos doutos senhores por engrossar o coro dos ignorantes e tascar indagação: pobre com voz não é expressão grande de civilização?

Ao contrário da infeliz vida real em sociedade, na urna não tem barão ou visconde a falar mais alto e mais grosso que o plebeu. 

Resta entender que esses doutos senhores são os surdos gritadores em defesa da democracia sem povo.

domingo, 19 de outubro de 2014

copo meio vazio (ou a dança do pessimismo engajado)

por Cuca Linhares

É de escalar as ladeiras do impressionante. Reclamoso, vou me meter de novo na treta do jornalismo. Desta vez, sentar achismos na cadeira do econômico.

A economia já costuma ser refeição pesada de digerir. E tem gente graúda que faz questão de botar mais caroço nesse angu de rapa, que é pra ninguém engolir mesmo.

Mas não adianta. Aprendi um cadim do economismo. Uns sujeitosos caboclos lá das Minas Gerais trataram de me ensinar tudinho. Recebi os princípios do conhecimento prudente para uma vida decente. Passeei na vanguarda do saber acadêmico até descobrir que o saber, quem sabe mesmo é o humilde caboclo vivedor. Porque este sabe de si e dos seus apertosos calos.

Pois então. Jornal virou mesmo panfleto de partido político a torcer realidades. Mas nem é aí onde assopro a corneta do problema. Sou de considerar muito nobre quando um noticioso periódico publica sua preferência nos cardápios eleitorais. Davia, um fato é que não há mais que meia dúzia de proprietários das mídias de mais amplo alcance neste nosso Brasil. Hipócritas na alegação de isenção, dabitude não se revelam preferidores deste ou daquele candidato. Meia dúzia de ovos postos num cesto só. Ali na cozinha malocados no armário da direita.

Vivemos jornalismo de manchete. Aquele que tem capacidade de fazer notícia boa virar tragédia com fins politiqueiros.

Quero cá me deitar num só exemplo demonstroso desse estratagema midiático.

Não teve um cabimento o tal tipo de matéria que encontrei num dançar maiúsculo de manchetes. Um jornalão publicou ontem “Geração de emprego tem pior resultado em 13 anos”. Outro diário mandou “Emprego tem pior setembro desde 2001”. E para finalizar a orquestra, um terceiro potente órgão de imprensa ratificou “País tem menor geração de empregos formais desde 2001”.

O sujeitoso que engole essas manchetes na talagada feito cachaça boa, conclui de pronto que o país vive uma crise no mercado de trabalho. Porém, o leitor mais atento vai franzir testa e botar indagação. Como pode isso se o governo canta aos quatro ventos que o desemprego deixou de ser fantasma assombroso? Quem está mentindo?

Aí é onde mora todo ardil: incrivelmente, ninguém está mentindo. Simplesmente os editores escolheram pintar em cinza um céu que podia ser azul claro. Não é difícil explicar o óbvio do disparate. O próprio texto que segue a manchete esclarece que foram geradas um milhão de novas vagas formais nos nove primeiros meses do ano. Isso é notícia boa para fazer nenhum caboclo botar defeito. O seu e o meu Brasil tem no agá do hoje uma taxa de desemprego beijando ali os cinco por cento. A mais baixa da nossa destrambelhada história.

Nada mais natural, portanto, que a geração absoluta de empregos seja menor. Se já tá quase todo mundo empregado, nem tem como gerar muitos mais postos de trabalho. Dito em outras palavras, o que importa mesmo não é o número absoluto de empregos gerados em um determinado mês, mas sim importa saber se esse montante de empego gerado é capaz de absorver os caboclos trabalhadores que entram a procurar labuta no mercado de trabalho. Na matemática do trivial, quanto menor o desemprego, menor será a geração de emprego necessária para dar conta dos novos entrantes.

Mas os jornalões continuam a praticar a máxima pela qual notícia ruim vende mais. Ainda mais se o alvo é o Petê.

Pela similitude das manchetes, parece até coisa de trato feito. Todas a enunciar somente a parte meio vazia do copo. Não sobra gota de dúvida que dia vinte e seis é o mais importante do ano. Faço espera que a metade cheia do copo seja de água com açúcar. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

que faz um senador?

por Edu Praça

Tô em peleja com meu amigo Celso e me meto agora no falatório da política. É que ares do futebol andam circundando a atmosfera eleitoral.

Os ventos do racional sopram tão longe da vela politiqueira que eleitor virou torcedor de arquibancada. Gritoso no estufar do peito, mas esquecido que voto é menos pulmão que consciência.

Costurando a linha da concordância, Celso e eu achamos que um desse povo deveria lançar mais panela de pressão nas outras cozinhas da politicagem oficial. Falo do parlamento e das assembleias, que é em verdade o escritório das nossas mais vivas necessidades e deveria ser a antessala das nossas mais imediatas lamúrias.

Brasileiro é povo centroso que não gosta de dividir responsabilidade. Candidato a presidente sabe que, se escolhido, herda de um pronto todos os pecados da humanidade. Se o time do Felipão dançou sacudido frente à artilharia alemã, sabemos claro que a culpa foi da presidenta. Desse um jeito, pouco ou nada cobramos dos excelentosos deputados e senadores.

Ora, vejam se minha incomodação não faz um bico de sentido. O atual candidato tucano à presidência tem larga vivência nos corredores da política. É senador da república que exibe vanglória de ter sido cunhado em preparo para esquentar a mais importante cadeira da nação. Devo esperar que um tal sujeitoso senador tenha ideias para a lapidação da república. Passo além das ideias, um senador tem poder. Teve o mineiro queijo e faca para lançar ao parlamento suas ideias de um país melhorado.

Mas então um caboclo cidadão vai lá no saite do Senado curiosar e bate a cara na frustração: o distinto senador nada aprovou. Propostas nenhumas no galho da relevância. Quatro anos de inatividade.

Cá me resta a pensamentosa conclusão de que não cai possível deixar voto no senhor Aecio.

Quem sabe é caso de pedir gentileza ao Senhor Palhaço Tiririca, agora escolado de reeleição, que conte à Excelência Neves o que se faz no Parlamento.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

trezentos e sessenta graus

por Cuca Linhares


Estradas em cerração nos levam ao próximo domingo de urnas. Passadas já muitas e quase todas oportunidades de acender faróis sobre a via do porvir, a neblina não permite enxergar bem as curvas que podem pegar todo um mundo de calças arriadas em surpresa. Nem não há desinfeliz que não deva tremer no medo do capote.

Há dois meses, parecia implausível botar fé em outra coisa que não fosse a reafirmação de Dona Dilma em sua desconfortosa cadeira presidencial. O difuso ímpeto mudancista que gerou ondas de protesto no Brasil recente não enxergara nos sujeitosos candidatos disponíveis uma alternativa da boa.

A trágica passagem de Eduardo Campos fez bagunça nesse coreto. Dona Marina deixou o coadjuvismo para o estrelato e se candidatou à bacia da alternância de poder. Pendurou no colo a miçanga da mudança, fazendo cantoria de uma dita e desdita nova política.

Há não mais que duas semanas, tudo quanto é fazedor de planilha e pensador do bom senso passara a dar como favas já contadas que Marina vestiria a faixa em janeiro do ano quinze. Num desse quadro, a desgastada e desgastante briga de petê contra tucanos estaria rompida, ou ao menos deixado de figurar em posição principal no carde de lutas.

No agá do hoje, faltando cinco dias pra romaria das urnas, não vejo caboclo em capacidade afirmosa de bater martelos.

Curso de tempo muito curto foi suficiente para mudar de um tudo. Mudança tanta a rumo de ficar tudo como dantes. Giro de trezentos de sessenta graus?

Dona Dilma, após o cagaço da ascensão de Marina, começou a pautar o embate e firmou sua audiência cativa nas gentes que viveram em pele as transformações sociais dos tempos últimos. É gente que provou comida quente e tirou o país do mapa da fome. É gente que vivia lá tão longe e recebeu visitas do Estado. Conheceu escola e até universidade, coisa que não costumava brotar em terras de interior. Gente que viu salário crescer e descobriu que dinheiro compra bugigangas e não só comida. Gente que passou a olhar no espelho e se ver gente.

Marina, ao lado de um caixão, acenou sorrisos e conquistou uma larga turma. Porém, de um logo começou a se atolar na areia movediça das próprias contradições. Deu bananas à institucionalidade, aos partidos e disse querer governar com “a sociedade”. Deu trufas e champagne ao sistema financeiro e prometeu um banco central obediente. Tirou o leite da indústria que, segundo ela, já é crescidinha para mamar em tetas estatais. Disse e desdisse tanta coisa que aquele papo docinho de engolir sobre nova política anda dando indigestão desconfiosa em muita gente.

Numa dessa confusão de idas e vindas, o sujeitoso Aecio ficou um bom tempo ali preso no calabouço de um castelo de cartas fora do baralho, sempre lançando aquele sorriso animoso de quem afirma ser o lindão mais querido e preparado. Agora na reta final, ensaia engatar a quinta marcha que pode lhe dar o segundo lugar que levaria a corrida presidencial ao ponto final de um giro de trezentos e sessenta graus. Será tudo como dantes? Petê pega tucano na final?  

Não sou eu capaz de achar palpite.

Viúva de um casamento de fachada, Marina pode acabar saindo da história com mãos abanando.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Marina Silva e seu navio sem lastro

por Celso Fernandes Ribeiro


Dois colegosos cientistas da política deram precisas e preciosas palavragens no Jornal Valor Econômico desta sexta-feira 12. Um par de entrevistas timbradas no puro esclarecimento. Em plástica de cores vivas e contornos pontiagudos, pintaram o quadro eleitoral saturando os matizes da contradição chamada Marina Silva.

O brilhoso perguntador buscou testar a hipótese da governabilidade caso o recheio das urnas revelasse Marina a chefa da nação. Qual seria o apanágio de um tal comando?

De um seu lado, o sujeitoso Octavio Amorim, da FGV-RJ, põe argumento na importância de um presidente necessitar polpuda estrutura política, amparo em movimentos sociais organizados e/ou tropa operante na casa parlamentar. O agá maiúsculo da história nos conta: “Quando um presidente eleito não tem uma grande organização partidária, uma base política sólida, ampla, por trás de si, essa Presidência equivaleria a um navio sem lastro (...) o capitão pode ser genial, mas o navio sem lastro pode virar a qualquer onda”.

Ora, a porta-bandeira da dita nova política não tem partido. Tá morando de favor no PSB de Eduardo Campos e prometeu sair assim que realizar o sonho da casa própria, com rede na varanda. Mas quem há de ser convidado a deitar na rede?

Personalista, Marina não se avexa no discurso de que partidos servem pessoas. Afirmativa, a cabocla candidata alega que fará governo com “os melhores”, desimportando a filiação partidária. À parte a arrogância essencial de quem se atribui o dom da definição dos “melhores”, meu colegoso cientista traz advertência: “É ruim. O sistema partidário é o lastro do sistema político”.

O que Amorim trata como contradição, Luiz Felipe Miguel, da UnB, logo detona como estratégia: “Marina está pronta para jogar o jogo que sempre foi jogado. Apesar de ter se apropriado desse discurso da nova política, eu a vejo como uma política muito pragmática”. A velha espertice a piscar olhos para a desfaçatez.

Marina está penteada em coque de saber que terá de se render ao câncer dos peemedebismos próprios do regime de coalizão. Nesse um quadro, Marina não teria problemas de governabilidade pelo simples fato de que vai se aliar aos lambedores de beiços de sempre para construir seu apoio no Congresso.

Miguel completa desalentosa conclusão: “A tendência da política brasileira, da forma como ela ocorre, é o desencanto do eleitor a cada novo governo. Porque existe um descompasso entre aquilo que se deseja, de uma política mais transparente, mais limpa, mais programática, e a prática”.

Em linha de concordância, cá este blogueiro achista das coisas políticas só vê saída pela reforma da casa toda. Partidos devem ser bons e poucos. Nunca jamais financiados por empresas.

Enquanto reforma não vem, Marina lança ao vento vão o grito de novidade. Para logo em seguida nos dar boas vindas de volta à velha política.


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Não deixem de ler as entrevistas completas. Alguns outros aspectos em muito interessantes são abordados. Abaixo lanço o endereço. Talvez só abram a porta para assinantes. Se for o caso, me convide prum chope e deixo você ler no meu espertofone.




sábado, 6 de setembro de 2014

queda e ascensão da humanidade: o caso Aranha

por Cuca Linhares


Episódio flagrante de espetáculo racista rolou na Arena Grêmio semana última. Alegre não se sabia aquele Porto. Em alvo preferencial da desumanidade, o muito grande goleirão santista contragiu digno por demais da conta. Sem sacar em sacanagens da agressão torpe, mostrou ao mundo o que é muito feio e inaceitável das inteirezas do ser.

Via eu aquelas cenas no preciso momento de suas câmeras e ações. De um átimo subiu-me engulho condenatório do projeto humano de civilização. Com o ensaio de lágrimas ali na mucosa dos olhos onde toda raiva do mundo mora, foi o meu pensamento: a humanidade caiu. Um projeto falido a arrastar suas bípedes permanências primatas. Jeito não há. Eu assumia de um jeito a culpa daquela festa sinistra que a tevê iluminava.

Virado este blogue o espaço privilegiado dos mais e menos nobres achismos, quis num levante vir aqui botar cachorros a ladrar e morder. Mas escorridos minutos que trouxeram a ponderação aplacadora da cólera, pensabundo mudei: antes do manifesto, fica por bem esperar as repercussões do fato. Certo estava que de um nada sucederia. Racismo é causa afundada nesta terra. Vai ninguém no nada ligar pra esse troço. Somos todos aqueles cegos dos piores e não vemos porque não queremos.

Foi tal o meu veredicto: Faliu a humanidade! Gente que discrimina e humilha gente, tal se este gente não fosse. Isso não cabe em moldura qualquer de razão.

Pois agora, após o curso dos dias, me vi alegroso na contrariedade: me parece que temos chance. Indícios no conforto de que humanidade tem ainda um seu jeito.

Houve denúncia. Polícia recebeu e imprensa noticiou. Ainda que minhas sobrancelhas se curvem na dúvida sobre o mérito, o clube dono da arena se ferrou expulso do torneio. Não sei mesmo se clubes devem pagar pela imbecilidade humana. Mas de um tudo somado, achei foi bom e pouco. Não é caso, por óbvio, de celebração desmedida. Idiotas ainda devem ser encrencados em sua idiotice.

Mas fato induvidoso é que muitos e maiores foram os indignados acenos solidários ao rapaz Aranha, atestando que a humanidade é projeto ainda viável. Provado viabilíssimo na postura do próprio goleirão, que declarou ter aprendido com o rap a ser preto e grande.

Minha gratidão é sua, Aranha, por soprar uns grãos de areia que farão mundo mais civilizado para vivência de minhas filhas.

Receba estas letras poucas de um caboclo em admiração da muita.

Tu és sujeitoso bonito demais da conta.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

noite de futebol do puro

por Edu Praça

Noite ontem foi dessas. Mata-mata acelera os corações e faz emergir estrelas em consagração. Copa é sempre Copa. Quem não nada era, nada tinha e pouco esperava, repente tudo rapa.

A Copa do Brasil viveu noite com futebol da mais genuína popularidade. Gols por demais. Viradas. Falta de luz e lampejos de gênios. Heroísmos e injustiças das muitas: cardápio completo dos melhores ingredientes em farta porção que fazem desse esporte o mais querido.

O retrato escrito embaixo enquadra partidas que tive logro de ver ou ao menos abiscoitar bons pedaços de emoção.

Nas entrâncias de Arapiraca-AL, mesmo jogando com turma reserva, o Cruzeiro carimbou favoritismo ante o surpreendente e digno Santa Rita. Presença surpreendente nestas oitavas de finais, os alagoanos sacaram mais surpresa ao vazar os azuis no primeiro tempo. Na segunda tranche, davia, tudo rolou na linha do previsível. Cruzeiro fechou o 2 a 1 da virada e, se bem somado com o primeiro embate, temos 7 a 1. Placar largo que brasileiro não vê plano de esquecer.

Após susto de queda frente ao Bragantino na ida, na volta o Timão não fez rogo para liquidar em logo sua fatura nas paragens de Itaquera. Enfiou três tentos rede adentro em filme de 20 minutos, com cenas roubadas por Renato Augusto. O Corinthians ainda cedeu honra de um tento à turma de Bragança, mas ficou na boa para rolar a pelota e engolfar o apito final classificatório com o placar de 3 a 1.

Não vi com atenção o que se deu lá nas alturas do Castelão, mas de um fato o incendiário de General Severiano celebrou demais da conta. Segundo consta, o jogo teve apitagem escorregosa de lama e lambança, mas sem viés. O Vozão era havido vencedor, por incríveis 3 tentos a 2, até os 49 do segundo tempo. Pois em dois minutos o Fogão logrou feito de empatar e virar com golaço em placa de André Bahia. O alvinegro da estrela solitária, que tinha perdido em casa por 2 a 1, garantiu seu salto à frente na competição. Placar final mostrou 4 a 3 com botafoguenses em justos pulos de suado heroísmo.

Cá no balneário, o Maraca também fez jus às suas épicas tradições e viu o Flamengo deixar rotas as vestes do improvável. Tinha caído por 3 a 0 para os coxas brancas em Curitiba e já ensaiava desculpas montadas no foco direcionado para o outro campeonato brasileiro. Não sem controvérsia, o juiz apontou a marca penal duas vezes e Alec converteu ambas, inflando esperanças da torcida. Mais um gol foi achado por Eduardo e o desfecho levado aos pênaltis.

A incompetência do boleiro brasilis para tiros na marca dos 11 metros é tão extremosa que faz assunto para outro texto. Fato sofrível é que a goleiragem fez festa. Dos 12 penais cobrados, apenas 5 encontraram as redes. Paulo Vitor felicíssimo nas defesas e no flerte com a fortuna. Flamengo verteu três tiros em gol, avança às quartas de finais e segue firmoso na ladeira da raça, desde que o já desgastado e desacreditado Luxa assumiu o comando da tropa.

Chamado às falas pela imprensa, o herói flamenguista Eduardo declarou: “No futebol tudo é possível”. De um fato. Óbvia boleiragem em forma de verdade.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

contra o buraco negro eleitoral

por Celso Fernandes Ribeiro

Nos jornalões e panfletos. Nos apitos do aparelho celular. Nas mais frequentadas redes virtuais e bodegas de esquina. Em todos os meios, é mensagem somente uma: a escolha do chefe da nação. Ou chefa, como indicam agora as roletas todas do bom senso.

Se este nosso povo não despavimentar o que parece estrada certa, teremos a lisonja de um duplo presente: o drible à dicotomia da máxima mesmice emoldurada por petês e tucanos, lançando estes de lambuja ao segundo cenário do coadjuvismo. Ainda que possam ostentar um resto de calibre decisório ante uma das candidaturas protagonistas no decisivo turno.

Mas não vejo hora de abordar as mumunhas muitas dessa disputa. Pelo antes inverso, venho sublinhar em traço de contrariedade o buraco negro eleitoral havido e vivido. Quero mesmo é desviar um tanto os olhares e orelhas do duelo central entre Dilma e Marina. Queiram entender o porquê.

Não vejo muito uns poucos volumes de ares inspirados ou suores derramados que não sejam em função da escolha presidencial. As tensões e atenções estão todas ali, atraídas àquelas duas mulheres-buraco-negro. Colados nelas, não deixamos luz ou tempo ou espaço para as importâncias do redor.
Em um desse quadro, soa como matéria de esquecimento que a eleição é ampla, geral e quase irrestrita.

Tenho cá que as casas do parlamento e os governos locais são os mais diretos mandatários de nossas demandas, ferramentosos governantes de nosso bem estar. Escola, esgoto, mobilidade e segurança são alguns exemplos de objetos da governação próxima. Redundo persistoso na prosa de que uns temas dessa grande importância estão sem destaque na pauta, em parte porque são vinculados à esfera local.

Mas não adianta: brasileiro faz encanto demais do ocupante da cadeira central do governo federal. Olha bem lá e longe, mas desdenha de sua cozinha.

Pois se me dão a chance de esboçar proposta de mudança institucional feita no buril do achismo, seria de boa função dar jeito de apartar as escolhas federais e locais. Reservar período eleitoral para as escolhas locais (governos de estado, deputados estaduais, prefeituras, vereadores) e juntar as escolhas federais em período outro (presidente e deputado federal). Senado pode entrar nas duas rodadas, já que o mandato é de oito anos, ora renovando um terço, ora renovando os outros dois terços.

Desse um jeito, conseguimos dispensar mais equilíbrio e atenção importante a tudo que importa.

Enquanto assim não é, caros amigos leitores, olhemos na sala grande para a briga entre Dilma e Marina, mas olhemos também em força de carinho pra nossa cozinha, onde é afinal cozido nosso rango e lavado o prato do amanhã, em que não teremos o condão de cuspir.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

jornalismo curupira

por Celso Fernandes Ribeiro

Figura onipresente na vida das gentes: o jornalista.

Nesse metiê das mídias informativas e deformativas, já rareiam aqueles profissionais ministros do fato. Emergem gravosos os embaixadores da versão. Fazem jornal em papel de polêmica.

De ofício, revelam-se antes jornaleiros que jornalistas, dada função precípua de vender jornal.

Talvez sido sempre assim. Induvidosa realidade é que atual notícia vergou em cara pura de mercadoria. Se informação da boa já não entusiasma, o negócio é comerciar manchete.

Fica impressão que ninguém lê o jornal além das letronas. Ali no topo garrafal bonitão o sujeitoso jornalista bota o que quer o editor patrão. Interessa pouco se o composto textual de letrinhas que vem debaixo das letronas relativiza, desdistorce ou contradiz a própria cabeçalha. Ninguém dá trela às pequenas letras.

Por ora de exemplo, vivemos fase de corrida para escolha definidora das lideranças do presidir e do governar. O futuro querendo se avizinhar um tanto tímido e vergonhado, desejoso de ser ouvido num papo bom.

Davia, o jornalista planta pés à frente com cabeça e olhos girados atrás, como um Curupira às avessas.

Se vai abordar candidato, já busca logo a manchete. Vai reduzir ministérios? Quantos e quais? Mas então Fulano de Queirós é incompetente? E o caso Ciclano Garcia? Não sabia? É picareta ou inapetente? Usa entorpecentes? Nunca? Vai controlar inflação? Ou vai sustentar emprego e salário? Mas assim vossa senhoria põe em risco a estabilidade. Mas assado vossa senhoria arrocha mesa, cama e banho dos trabalhadores.

Junho de 13 foi havido e vivido como cena política monumental. As pautas estruturosas do bem estar residem ali. Cadê jornalistas a ligar alvo e seta?

A conceber por estes jornaleiros, o país não é afinal tão portador assim das coisas importantíssimas.

O Futuro anda se sentindo tão excluído do papo que flertou enamorado, na mesa ao lado, com o Não-Ser.





sexta-feira, 22 de agosto de 2014

ode à vitória da defesa

por Edu Praça

Numa contenda em guerra, é a peaozada rasa quem assume a linha de frente. Vidas na soleira da desimportância. No turno da peleja futebolística, de inverso, ali coincide quem primeiro põe cara a combate e quem embraça louros de artilharia.

O futebol é o festejo de lanceiros atacantes. São os donos das elevadas patentes, condecorados pelos cânticos da nação.

Ocioso redundar que o equilíbrio é traço de força determinoso dos times campeões. Sem sopro duvidoso de titubeio: uma infantaria de onze em campo de batalha precisa se fazer bloco compacto de forças audazes; os setores todos do campo precisam de sujeitosos hábeis na astúcia.

É num justo dizer afirmativo, porém: não há no encontro da História maiúscula uma equipe de alto desempenho sem pelo menos duas figuras de ação crucial, a saber, o guardião da meta e o zagueiro, este sempre em interdependência de dupla.

Não conheço talho de vitórias em time sem grande goleiro ou descomposto de zagueirudos trapalhões. São eles os generais e furriéis de toda parada: enxergam todo o tabuleiro e sustêm maestria nas artes do tempo. Dos tempíssimos e átimos para as ações e reações precisas.

Com estes, não há ocasião de falha e perdão tampouco.

Ontem foi dia desses. No Mineirão, a infantaria azul estrelada suplantou a retrancada trincheira armada pela trupe do Felipão. Não sem toda paciência e perspicácia.

Quem sorriu em capas de jornal foi Dagol, o autor do disparo capital.

Mas quem as luzes, câmaras e ações deveriam buscar são aqueles que levaram de um fato a vitória no lombo: Fábio, fiador das brechas e erros alheios, e o garçom mitológico Dedé.

O jogo era jogado: a turma gaúcha esperava o dono da casa e só saía em agudos contrataques. Construiu assim as mais efetivas chances da peleja e poderia até sair vencedora, não fosse a goleiragem de Fabio, o maior de todos, um monstro das difíceis intervenções flertando com as prodigiosas milagragens.

Numa ofensiva gremista, numa hora daquelas que só atende pelo nome agá, Dedé botou desarme cirúrgico, enfiou contrataque à direita e, em tabela com Alisson, recebeu à frente em zona que não se chama conforto. Correu passos com a pelota, desacelerou como o jamaicano Bolt a não querer radicalizar recordes, olhou e pensou quase a coçar queixo. Então entregou a glória em forma de esfera na cabeça do lanceiro roubador de brilho.

A infantaria azul estrelada segue firmosa na afinação das lideranças.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

sobre a queda de Eduardo

por Cuca Linhares

Num desse jeito, este blogue vai virar um obituário. Este ano da graça dos dois mil e catorze não parece em coisa boa. Amontoado de dias que não se cabem de tanto juntar partidas tristes.

Eu nem acho assim que a morte é instituto sempre assombroso e fedorento, levador de tristeza pura. Quando em ordem de passagem após punhadão bom de tempo em saúde de realizações, a morte pode ser vivida natural até com certo contente. Mas um evento fatal desfechado por acidente é de carcomer as têmporas em arrepio.

Pois veio ela mais outra vez, a morte matante, se avizinhando repente em cor de explosão.

Eduardo levado embora e junto com ele meia dúzia de caboclos gentes da fina. Tragédia grande daquelas de tornear a História toda.

Indago aos deuses meus nenhuns qual o sentido de obra desse naipe do destino. Há quem diga lá mesmo naquelas bandas do Pernambuco que o destino não é mais que o acaso atrevidamente empavonado em mania de grandezas. Acaso lapidado no dia escolhido: o mesmo 13 de agosto que cerrou olhos do velho Miguel Arraes, formoso líder chegado das esquerdices, altivo nas coisas da política e avô do Eduardo, este líder novo de uma vida política inteira que podia ter sido e que não foi.

Curioso que no dia próprio de todo desditoso infortúnio, tinha eu sido apresentado a toda família grande dos Campos, compartilhado sorrisos sinceros de empatia com a força de Renata, e apertado firme a mão do presidenciável candidato. Entrelinhas, claro: encontro feito somente por caso das letras pontiagudas da Daniela Pinheiro.

Minha leitura findou em forma de cumprimento sincero ao sujeitoso Eduardo, ainda que sem qualquer hipótese de traduzir em voto na contenda eleitoral iminente (pelo menos não agora, enquanto deitado ele numa rede esquisita que só vê direção de rebentar).

Para aquém do humano, posso justo até confessar que fiz choro de lágrima e tudo quando vi lançada na rede, a outra esta aqui em que me leem, uma fotografia de Eduardo com seu caçula, exuberando sorrisão de pai. Não deu pra não abraçar sujeito.

Eduardo era gente grande no alto das importâncias.

E o povo brasileiro nem sabia ainda (saberá jamais) dos bons motivos havidos, bem outros distintos daquele meu, para chorar essa ida sem volta.

Não vejo hora de falar analisativo dos estratagemas políticos burilados dessa tormenta. Dos descaminhos que se abrem mal traçados na corrida pelo poder. Isso é seara que meu amigo Celso de certo tomará conta mais própria em breve.

Fato registroso é que o caboclo Eduardo, ao cair botando fogo em quintal paulista – que não era o seu – desmatou campos concretos de engenhoso cultivo e anda queimando nervos muitos dos politiqueiros da paróquia.

Ali no baixio das mesquinhas humanices, tristeza torpe é ver ocorrência de velas e lágrimas tornada trivial ato eleitoral. Não o digo pelo povo, legitimado nesse proceder. Mas pelos lambedores de beiços de sempre.

Já saiu a primeira pesquisa boca de túmulo.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

a futebolização do pensamento e a guerrilha da razão

por Cuca Linhares

Sem lugar à dúvida derretedora do caráter, o futebol é a magia diabrosa que bota em xeque a verdade estabelecida nas ciências da vida aceita: será o sujeito homenzudo um animal racional?

A justa espécie homo sapiens sapiens se descobriu, no clímax de sua harmonia, bateria e evolução, um ser enfeitiçado. Que insondáveis mistérios faz um caboclo reto vestir pavilhão de clube social e entoar hinos de fidelidade que alguns não dispensam à própria dona patroa?

Meu time é melhor que o seu porque é meu. Isso é jogo de paixão. Controlar objetos é função de mãos e polegares opositores. Inventaram de fazer rolar a bola, tirando o pé do seu papel normal. Foi criado o esporte sensacional, guardadoso de toda surpresa. Jogo em que o pior (ou seja, o outro) pode vencer, deuses meus nenhuns!

Vestido de ingenuidade, achava eu que um dia os caboclos sapiens fossem tratar o jogo como jogo, esporte que é. Rivalidade dos fraternos. Alegria das puras.

Mas nada. Vergonhado de verdade, o que vejo é não só acirramento nos assuntos da bola, mas a futebolização de tudo quanto é assunto. Repente, todas as temáticas postas à mesa se tornam um jogo de paixão, tombando a razão em guerrilha.

Na política já não cabe crítica. Cada um tem seu time e torcida. Tudo ou nada. Petê não dá! Turmosa comedora de criancinha do caraio. Tem que acabar com essa raça que inventou a corrupção em nosso balneário brasilis! Tucanada é os fedepê da elite branca. Cambada de reaça hipócrita vai privatizar a senhora sua mãe e arrochar o salário dos apaniguados!

Nesse campo de guerrilha, é sim natureza nobre escolher um lado. Mas clamo a todos os deuses meus nenhuns, teria tudo no mundo apenas dois lados infundíveis e inconfundíveis!?

Tá foda! País divido e sem crítica é das piores lascaduras.





sábado, 26 de julho de 2014

o portentoso fabricador de belezas

por Cuca Linhares

Minha beleza enorme mais pequena faz quatro meses de sorriso banguelo mas deverá, sinto provavelmente, viver crescimento em mundo de menos e menores belezas. Neste dia de ontem partiu ao reino da pedra aquele dos mais portentosos fabricadores da coisa bela, como poucos vistos assim de perto, tão gente amassado e reengomado na sofisticadíssima humildade.

Dizem que a causa da migração foi um avecê. Acidente vernacular cerebral, da espécie verborrágica. Um tanto montoeira de palavras se derramando dançarinas, enfileirando coreografias tão belas que já não havia como esperar papel em que se deitar postas em ordem, vestidas em iluminogravuras.

Foi de morte morrida a partida. Coitado do homem que já não via era tempo para embrulhar tanta palavra forte em papel de obra de arte. Tanta palavra mais forte que nós tudo. O homem-palavra sucumbiu bonito metamorrido na matéria-prima de si mesmo.

O fabricador de coisas belas comove por cada som apalavrado que pula da boca naquele timbre que é só de mais ninguém. Timbre de tossir pigarreado a ensinar ética pelos entremeios da estética. Voz rouca que em som de rabeca ecoa. Agudíssima.

Fabricando coisas belas, nosso homem pôs em xeque o inexorável das modernidades, a que outros homens reputam bem atávico: há menos belezas nos progressos das coisas e dos sujeitos que se coisificam.

O portentoso fabricador de belezas vê, com olhos que a terra come, a terra de quem tem fome. Enxerga fundo dentro e além da superfície. Vê aqui, debaixo da terra mesma, a raiz popular da árvore que dá o fruto delicioso, por vezes puro demais. Puro demais sempre. Árvore que os donos da terra comandam foices para ceifar. Fruto que os donos da terra, ditos eruditos, rezam e matam para não comer.

A filha minha mais pequena, e não menos a mais grande, treparão a brincar nesse pé do fruto ariano. Terão no prato farta porção. De semente rara, esse fruto da beleza tem nome cultura popular. Mas as gentes podem chamar somente Brasil.

(24 de julho de 2014)