por Edu Praça
De
um pronto, devo registro sobre o momento destacoso do futebol mineiro. Meu
estado não tem mar, mas está surfando na crista da onda. Ano passado o Galo
conquistou a América e a Raposa papou o Brasil. Neste dois mil e catorze, se
enfrentarão em clássico nas montanhas e picos do ineditismo, a decidir quem
fica com o caneco da Copa do Brasil. Na ausência do mar, bar não há de
faltar.
Mas esse um fato merecerá
um texto detalhoso no futuro breve, tão logo a batalha tenha colhido seus
feridos, vencedores e vencidos.
O papo aqui é sobre o já
ocorrido e não cuida do porvir. Na rodada passada do brasileirão, meu líder
Cruzeiro venceu sem grande resistência um Botafogo que parece fazer interesse e
força pra gozar férias no segundo escalão do futebol nacional. O time azul,
jogando em casa, não fez rogo de botar balanço nas redes por duas vezes logo
nos minutos iniciais. Depois foi só dançar o fanque do resultado administrado,
guardando combustível para o jogo decisório que teria contra o Santos pela
semifinal da Copa do Brasil.
Mas esses muitos rodeios já
me afastam demais do gol. O propósito destes escritos não nem é fazer crônica
de resultados. Abordei Cruzeiro vs Botafogo apenas para lembrar um lance
curioso, sem relevo de importância no desfecho do jogo, mas que me levou um
tiquim mais fundo nas complexidades desse esporte envolvido no sem razão
das paixões e dinheiros.
O placar já marcava dois
tentos a zero quando um dos defensores severianos, pressionado em marcação no
seu campo, fez tentativa de passe lateral. O sujeitoso boleiro parecia visar
seu companheiro de zaga, mas a bola acabou alcançando o arqueiro Jefferson. De
um pronto, com a rapidez dos convictos, o juizão soprou apito a marcar tiro em
dois lances dentro da área contra o Botafogo. Ficara caracterizado o recuo de
bola. Uma chance capital para o time azul matar o jogo empurrando a terceira
bola pras redes ainda no primeiro tempo.
Mas repente emergiu um
peraí. A nobreza do caráter chamou o juizão às falas. Marcelo Moreno, o
centravante que fazia as vezes de marcador no lance, na cumeeira das suas
honestices todas, disse ao juiz que a bola resvalou em seu pé, alterando
milimetricamente a trajetória e descaracterizando portanto o recuo intencional
da bola ao goleiro. Diante daquela atitude, não restou ao juizão senão um
acenar de braços desfazendo sua própria apitação.
Na tevê, narristas e
comentadores cobriram de elogios o pendor ético do atacante cruzeirense. De um
fato, transpondo a questão aqui pro lado da vida vivida, é atitude que merece
os aplausos todos e o troféu dourado do ferplei.
Davia, aqui pensabundo na
intimidade dos meus achismos, boto indagação: teria o sujeitoso agido da mesma
forma caso o placar registrasse resultado desfavorável no momento do lance?
Tivessse o jogo empatado ou em caminho de derrota, o caboclo cederia assim, de
delicada honestice, sua chance de gol?
Futebol é coisa complicada
demais da conta. Ouso até dizer que a filosofia praticada em campo é a
dialética da malandragem. Aqueles simpáticos a uma visão mais 'institucional'
da vida vão dizer que cabe ao juiz identificar e punir os malandrosos. Há quem
diga até mesmo que o ofício do boleiro exige a competência da malandragem. O
apitador que faça bom trabalho, tudo veja e vista a roupa sobreumana da
ausência de erros.
Há ética cabível no
futebol?
Alguém seria capaz de
condenar moralmente o Moreno, caso ficasse quieto diante do apito convicto do
juizão e cobrasse a falta em tabelinha com o João Sem Braço? O torcedor celeste
aprovaria o ato de um jogador renunciar assim uma chance caso o time tivesse em
apuros? O que dizer de patrocinadores que recebem a cada gol o retorno
financeiro das suas feiosas marcas em estampas de camisa?
Eu mesmo confesso não ter
respostas a essas interrogações. Nas minhas peladas aqui e ali, eu certamente
já lancei mão e pé dos truques e retruques da boleiragem. Nas artes do futebol
não cabe a lógica pura. A bola rola e se oferece aos dribles amorais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário