segunda-feira, 10 de novembro de 2014

futebol, ética e malandragem

por Edu Praça

De um pronto, devo registro sobre o momento destacoso do futebol mineiro. Meu estado não tem mar, mas está surfando na crista da onda. Ano passado o Galo conquistou a América e a Raposa papou o Brasil. Neste dois mil e catorze, se enfrentarão em clássico nas montanhas e picos do ineditismo, a decidir quem fica com o caneco da Copa do Brasil. Na ausência do mar, bar não há de faltar.

Mas esse um fato merecerá um texto detalhoso no futuro breve, tão logo a batalha tenha colhido seus feridos, vencedores e vencidos. 

O papo aqui é sobre o já ocorrido e não cuida do porvir. Na rodada passada do brasileirão, meu líder Cruzeiro venceu sem grande resistência um Botafogo que parece fazer interesse e força pra gozar férias no segundo escalão do futebol nacional. O time azul, jogando em casa, não fez rogo de botar balanço nas redes por duas vezes logo nos minutos iniciais. Depois foi só dançar o fanque do resultado administrado, guardando combustível para o jogo decisório que teria contra o Santos pela semifinal da Copa do Brasil.

Mas esses muitos rodeios já me afastam demais do gol. O propósito destes escritos não nem é fazer crônica de resultados. Abordei Cruzeiro vs Botafogo apenas para lembrar um lance curioso, sem relevo de importância no desfecho do jogo, mas que me levou um tiquim mais fundo nas complexidades desse esporte envolvido no sem razão das paixões e dinheiros.

O placar já marcava dois tentos a zero quando um dos defensores severianos, pressionado em marcação no seu campo, fez tentativa de passe lateral. O sujeitoso boleiro parecia visar seu companheiro de zaga, mas a bola acabou alcançando o arqueiro Jefferson. De um pronto, com a rapidez dos convictos, o juizão soprou apito a marcar tiro em dois lances dentro da área contra o Botafogo. Ficara caracterizado o recuo de bola. Uma chance capital para o time azul matar o jogo empurrando a terceira bola pras redes ainda no primeiro tempo.

Mas repente emergiu um peraí. A nobreza do caráter chamou o juizão às falas. Marcelo Moreno, o centravante que fazia as vezes de marcador no lance, na cumeeira das suas honestices todas, disse ao juiz que a bola resvalou em seu pé, alterando milimetricamente a trajetória e descaracterizando portanto o recuo intencional da bola ao goleiro. Diante daquela atitude, não restou ao juizão senão um acenar de braços desfazendo sua própria apitação.

Na tevê, narristas e comentadores cobriram de elogios o pendor ético do atacante cruzeirense. De um fato, transpondo a questão aqui pro lado da vida vivida, é atitude que merece os aplausos todos e o troféu dourado do ferplei.

Davia, aqui pensabundo na intimidade dos meus achismos, boto indagação: teria o sujeitoso agido da mesma forma caso o placar registrasse resultado desfavorável no momento do lance? Tivessse o jogo empatado ou em caminho de derrota, o caboclo cederia assim, de delicada honestice, sua chance de gol?

Futebol é coisa complicada demais da conta. Ouso até dizer que a filosofia praticada em campo é a dialética da malandragem. Aqueles simpáticos a uma visão mais 'institucional' da vida vão dizer que cabe ao juiz identificar e punir os malandrosos. Há quem diga até mesmo que o ofício do boleiro exige a competência da malandragem. O apitador que faça bom trabalho, tudo veja e vista a roupa sobreumana da ausência de erros. 

Há ética cabível no futebol?

Alguém seria capaz de condenar moralmente o Moreno, caso ficasse quieto diante do apito convicto do juizão e cobrasse a falta em tabelinha com o João Sem Braço? O torcedor celeste aprovaria o ato de um jogador renunciar assim uma chance caso o time tivesse em apuros? O que dizer de patrocinadores que recebem a cada gol o retorno financeiro das suas feiosas marcas em estampas de camisa?

Eu mesmo confesso não ter respostas a essas interrogações. Nas minhas peladas aqui e ali, eu certamente já lancei mão e pé dos truques e retruques da boleiragem. Nas artes do futebol não cabe a lógica pura. A bola rola e se oferece aos dribles amorais.


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