sábado, 6 de setembro de 2014

queda e ascensão da humanidade: o caso Aranha

por Cuca Linhares


Episódio flagrante de espetáculo racista rolou na Arena Grêmio semana última. Alegre não se sabia aquele Porto. Em alvo preferencial da desumanidade, o muito grande goleirão santista contragiu digno por demais da conta. Sem sacar em sacanagens da agressão torpe, mostrou ao mundo o que é muito feio e inaceitável das inteirezas do ser.

Via eu aquelas cenas no preciso momento de suas câmeras e ações. De um átimo subiu-me engulho condenatório do projeto humano de civilização. Com o ensaio de lágrimas ali na mucosa dos olhos onde toda raiva do mundo mora, foi o meu pensamento: a humanidade caiu. Um projeto falido a arrastar suas bípedes permanências primatas. Jeito não há. Eu assumia de um jeito a culpa daquela festa sinistra que a tevê iluminava.

Virado este blogue o espaço privilegiado dos mais e menos nobres achismos, quis num levante vir aqui botar cachorros a ladrar e morder. Mas escorridos minutos que trouxeram a ponderação aplacadora da cólera, pensabundo mudei: antes do manifesto, fica por bem esperar as repercussões do fato. Certo estava que de um nada sucederia. Racismo é causa afundada nesta terra. Vai ninguém no nada ligar pra esse troço. Somos todos aqueles cegos dos piores e não vemos porque não queremos.

Foi tal o meu veredicto: Faliu a humanidade! Gente que discrimina e humilha gente, tal se este gente não fosse. Isso não cabe em moldura qualquer de razão.

Pois agora, após o curso dos dias, me vi alegroso na contrariedade: me parece que temos chance. Indícios no conforto de que humanidade tem ainda um seu jeito.

Houve denúncia. Polícia recebeu e imprensa noticiou. Ainda que minhas sobrancelhas se curvem na dúvida sobre o mérito, o clube dono da arena se ferrou expulso do torneio. Não sei mesmo se clubes devem pagar pela imbecilidade humana. Mas de um tudo somado, achei foi bom e pouco. Não é caso, por óbvio, de celebração desmedida. Idiotas ainda devem ser encrencados em sua idiotice.

Mas fato induvidoso é que muitos e maiores foram os indignados acenos solidários ao rapaz Aranha, atestando que a humanidade é projeto ainda viável. Provado viabilíssimo na postura do próprio goleirão, que declarou ter aprendido com o rap a ser preto e grande.

Minha gratidão é sua, Aranha, por soprar uns grãos de areia que farão mundo mais civilizado para vivência de minhas filhas.

Receba estas letras poucas de um caboclo em admiração da muita.

Tu és sujeitoso bonito demais da conta.

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