sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Delcídio e a ladroagem dos outros

por Cuca Linhares

Nem não tem porém. Por mais ilegal que fosse, prisão desse um caboclo Delcídio foi bom e pouco. Na botija do crime feioso, arrastou junto ao xilindró um banqueiro parrudo das altas engomagens. Não dá pra não achar que é coisa legal, mas muito. Legal demais da conta ver esse naipe de bandido no sem jeito.

Todo um mundo sabe das minhas esquerdices e do meu engaste firmoso no envolvimento para eleger esse e outros governos do petê. Isso não significa, davia, uma adesão acrítica, principalmente nesse desgoverno atual que prometeu o que não fez e se enrolou pelo que não prometeu na iludida esperança de agradar o inimigo.

Então vamos no estabelecer das verdades algumas: - o governo é, na regra, fraco e incompetente; - a presidenta se mostra inepta, o que não taca um triz sobre a retidão de sua honestice; - petê é partido que sucumbiu feito a regra nas tretas não republicanas; - na exceção do Genoíno, não vi nenhum petista preso sem motivo nesses últimos tempos de cruzada antipetista.

Voltemos então ao fio desse novelo do senador preso anteontem. Em conversa telefônica gravada, o cabra fala de deus e o mundo. Cita as mais eminentes personagens da república sem pisar no nenhum constrangimento. Bota na clareza toda o fato de que o esquemão todo da lava jato remonta a tempos muito idos para lá atrás de dois mil e três.

Ele mesmo, o sujeitoso Delcidio, foi alçado a diretor mutretoso da Petrobras na época fernandista. Davia, a contar dos tratamentos recentes da mídia e do Judiciário, tudo leva a crer que Delcídio era caboclo sentado na poltrona limpa da honradez até que assinou a corruptora filiação partidária ao petê. Aprendeu a roubar com os petistas, estes sim ladrões por princípio desde o princípio.

Mas aí vem a turma indignosa achando ruim quando a gente reclama que só petista roda e dança nesse circo de horrores que se transformou a república brasileira. No brado retumbante dessa turma, aparece afirmação escrita no óbvio: o fato de que tucano rouba mais e há mais tempo e sem sofrer grande incômodo da mídia ou do Judiciário não justifica as tretas do petê. Bandido é bom preso no longe do convívio social, independente de sua ideologia ou filiação partidária. Claro que não justifica.

Não podemos, davia, simplesmente aquiescer satisfeitos com essa obsessão antipetista. Não é por aí que vai nossa reclamação quanto à indignação seletiva e à paz vivida pelos cunhas e aecios e renans e outros oposicionistas e governistas de crimes conhecidos. Não é para justificar as imperdoáveis barbaridades dos assaltantes petistas aos cofres públicos. Mas para esclarecer um ponto crucial à sociedade que está quase acreditando que todo petista é bandido e que só petista é bandido.

Nessa toada, ao não investigar e punir os crimes dos criminosos de outros partidos, mídia e Judiciário transmitem essa visão desenhada no antipetismo e não apontam para a necessidade de refundar instituições da república que moram na raiz da corrupção toda. Reforma política de verdade é tarefa urgente se queremos ajustar pro futuro um jeito mais republicano de fazer a política.

Mas do jeito que a coisa é feita e mostrada no bombardeio das manchetes, faz muita a gente acreditar que basta tirar o petê do poder que fica tudo certo. Os santos lambedores de beiços de sempre voltarão a mamar sem incômodo. 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

lama

por Cuca Linhares

Não é pra menos. Pedaço de Brasil afogado na literalidade do mar de lama: maior desastre socioambiental.

No diante da reação frouxa de empresas e governos, foi um meu amigo quem disse pouco e tudo, a um só tempo exclamoso e reticente: "vamos ver onde isso vai". É tanto descaso amarrado junto na incompetência que êita ferro! A gente fica indignoso no sem saber até onde vai o descaso e a até onde vai a incompetência. A gente tenta na fé mas já não consegue muito fugir escape da descrença.

De um fato, a noção toda se perdeu descida em lama naquilo que era rio de água doce. Agora é água dura. É água podre e morta e nem água é.

Bento Rodrigues era aldeia de gente viva. Foi engolida e tornada deserto desabitoso de lama. Nas empresas e governos, gente assim humana já parece também não haver. Ali só restam morada os peagadês no cálculo das finanças e dos votos (e dos votos financiados). Junto com a barragem de rejeitos da nossa Mariana, foi-se embora de vez a sensibilidade de dar aos problemas sua dimensão real. Na terra arrasada, o que sobrou é só pergunta.

Pode uma atividade econômica arrebentar com um ecossistema inteiro, matando gente, bicho, planta e tudo mais que é vida?

Pode o silêncio resmungoso de mídias e estado na soleira da cumplicidade?

Pode a presidenta e sua demorosa trupe levar semana para render visita e rascunhar a conta do que parece cínico chamar de prejuízo?

Tragédia nesse tamanho não deveria descalacrar ação de contingência no mesmo dia do acontecido e ter toda força intelectual e material do país mobilizada para evitar o alargamento espalhado de consequências?

Ainda que tardia, teve início uma alentosa marcha de empresa e governos para reparar o estrago irreparável. Aos de boa fé muito boa, sobra torcer para que algo diferente do usual seja feito e que se invente modo de atenuar efeitos desenrolados da tragédia.

Se é pra levantar dedos apontosos sobre culpados, talvez devamos mirar todos nós, que perdemos a noção de absolutamente tudo. A tragédia de Bento Rodrigues é a perfeita meta-metáfora do metal vil envolto de lama a arrebentar com tudo que é vida. Perdemos a noção do que é a vida, sempre trocada por dinheiros. Haverá dinheiros tantos e capazes para a ressurreição alguma? Essa é a pergunta útil que nos bota o cabresto do olhar futuro. Mas é pouco e só. Tá deveras difícil demais da conta olhar pra frente.

Tristeza muita. Não contente em roubar as doçuras de gentes, os dinheiros já não deixam correr um rio doce.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

o destino do nosso tempo e o tempo do nosso destino

por Cuca Linhares

Vê se não. Tanta coisa. Os bondes passando e nós aqui na sem condição de pongar. No passo que passam as oportunidades todas, a angústia finca cabeça de não aproveitar nenhumas.

A gente nem não sabe pra onde vai nosso tempo. É nós o tempo todo fazendo minuto e hora de gastar sem pra que ou pra quem, sem entender como o destino do nosso tempo define o tempo do nosso destino. E assim a gente despresta atenção no amor e nas belezas todas que não moram nos eslaides de pauerpointe que decoram as paredes de nossa vida.

E assim, sem tempo, tudo vai chegando no seu lugar. O branco chega nos cabelos. As gorduras deitam confortosas na cintura. E assim a gente se esquece de si e vai caçar dinheiros para calçar futuro de uns filhos que já não achamos o tempo de ver crescer. E os dinheiros até vão preguiçudos sentar nos bolsos sem querer saber o que fazem ali. Afinal, pra que servem os bolsos senão como descanso dos dinheiros?

No agá do hoje, acordei com bolso cheio de confusão. Num é que estamos, quase sem querer, operando a mágica de fazer sumir a vida toda?

Pulo da cama e bato a cara nessa janela que já não mostra ninguém nem nada lá fora. Essa mesma janela que cobrimos de grades para confinar o olhar que não sai e se proteger do resto que não entra.

Os amigos bons e velhos vão ficando, velhos como nós, pelo caminho. Reparo que todo mundo tá sumido de todo mundo. As amizades já não se exercitam no cotidiano da prosa e da mesa de bar que era só política da pura.

Todo mundo no ritmo solo da sua própria falta de tempo. Indivíduos que desaprenderam a tocar forma de orquestra.

Tá todo mundo sumido de todo mundo, cada vez mais embolado no tempo que fugiu escorrido no ralo do capital. De um fato, essa é a maior estratégia de sobrevivência do capital. Sorrateiramente subtrai todo nosso tempo. Sem choro de questão, deixamos de saber a que nosso tempo serve, a não ser reunir dinheiros em bolsos. No simples, acabamos aceitosos sentados em cima da certeza de que o tempo é sempre menor do que precisamos para a política da vida que realmente importa: o papo cotidiano, o torresmo com cachaça, a revolução.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

pedalando para o golpe

por Celso Fernandes Ribeiro

Como mal digo e bem repito: Brasil morada dos absurdos. De um novo me pega a angustiosa perplexidade. A gente tenta bocado não defender esse um governo, mas a turma da oposição não deixa. Cá em nossas bandas, o torto se faz aparecer direitoso, enquanto o certo se acua no medo cúmplice da politicagem feiosa.

No palco da política profissional, três atores encenam protagonudos o roteiro do golpe que quer de todo um jeito tirar a presidenta de seu posto e jogar o país no caos social e político que é tapete onde querem pisar os lambedores de beiços de sempre.

Aécio é nosso personagem número um. Senador há cinco anos sem qualquer serviço prestado em sua estada no Congresso. Nenhuma realização como senador. Corrupto sabido, é marcado pelas ausências no trabalho e as centenas de viagens semanais para o Rio de Janeiro, seja em jatos oficiais do governo das minhas minas gerais, seja em voos pagos pelo senado federal. É capaz, contudo, de plantar sorriso na dureza crua da cara de pau para detonar críticas à competência e à honra da presidenta eleita. Considera-se um predestinado a líder nacional. Pensa-se portador de algum direito divino, pois acha agora que eleição é questão menor. Quer ser presidente a todo custo e ao arrepio da democracia. Não restou destino outro: virou chacota em redes sociais. Basta um treinador de futebol sofrer ameaça de demissão para colocarem Aécio em disposição para assumir o posto. Perdeu o campeonato, mas quer levar no tapetão.

Manobrista supremo do tapetão é o senhor Eduardo Cunha, nosso segundo personagem. Presidente da casa legislativa, ganhou notoriedade pela habilidade típica dos donos da bola para votar e revotar matérias até obter o resultado pretendido. Taí sujeitoso que não aceita de um nenhum jeito o revés. Quando caboclo ingênuo acha que acabou o jogo, lá vem Cunha a sacar regras novas do bolso, a estipular prorrogações extras e disputas por pênaltis. Todo mundo sabe que ele é pé de valsa nas pistas de tretosas danças desde décadas atrás. Na cumeeira da arrogância, falou demais e deu bom dia pro cavalo. Foi pego na mentira com contas cheias de dinheiro sujo na Suiça e agora corre o risco de tombar. Fato é que o sujeitoso presidente da Câmara maquina o golpe junto com o ninho tucano e seus tentáculos que alcançam mídia, esseteéfe ou teceú.

Justo em cadeira ministrosa de teceú que se assenta o personagem terceiro. Até ontem, Augusto Nardes sentava a confortosa poltrona do semianonimato, mas resolveu se levantar altoso na oportunidade de “fazer história”. Ornou o jargão tucano das pedaladas para burilar a tese da reprovação das contas da presidenta e inventar ali um crime de responsabilidade.

Antes de mais nada, coisa tão importante como desconhecida é a configuração do teceú. Há quem pense, e não gente pouca, que se trata de turma vestida na neutralidade, obediente ao rigor técnico buscador da verdade, encabeçada por sujeitosos de notório saber admitidos por concurso público. Davia, a verdade mesmo é que o órgão flerta com institutos monárquicos muito pouco modernos e democráticos. Seus chefes são ex-políticos profissionais, partidários, que ganham de brinde cargo vitalício. E a verdade outra, em ainda mais doída e pouco disseminada, é que a chefatura atual do teceú conta com meia dúzia de caboclos manejosos da picareta em tretas muitas, enrolados em casos de corrupção. Pois são esses mesmos que estão cozinhando o caldo indigesto da deposição despropositada da presidenta.

Aí vem essa tal de pedalada. A mídia grande, pronta porta voz da oposição, naturalizou o golpe. Desinforma leitores e telespectadores que são obrigados a engolir sem mastigar essa ideia da pedalada. Pouca gente sabe bem do que se trata. Pouca gente sabe que é expediente administrativo usado e desabusado desde que mundo é mundo e que só um embaçamento muito grandoso e mal intencionado da realidade pode caracterizar pedalada como crime. Como é hábito da mídia criar verdades por repetição, vale repetir: não há nada, absolutamente-nada-novesfora-zero, que caracterize crime. Nem não há razão qualquer para impedimento. Tentam de todo um jeito pegar a presidenta na botija, mas o que ela não tem de traquejo político, sobra de honradez. Nunca a pegarão desse um jeito.

Mais uma vez, resta convocar os sujeitosos da oposição ao batente. Que tal tentar construir com trabalho sério o caminho para o poder? Esse um governo tem mão cheia de pontos fracos. É mais nobre, produtivo e inteligente sair desse moralismo monotemático e tragicômico. Será uma vitória recuperar a maturidade e a seriedade da oposição, em particular do peessedebê. Vamos deixar para disputar o poder novamente no ano dezoito. Melhor pra vocês. Melhor pro país.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

uma elite que se vitimiza

por Celso Fernandes Ribeiro

É de saber. Esse um nosso país é morada dos absurdos. Lugar da elite que vive o presente com a mente firmosa no passado. Assim nem não há tijolo e cimento de futuro a construir.

Brasil é terra partida. No início eram sobrados e mocambos. Casa grande e senzala. E depois sudeste e nordeste. Centro e periferia. Zona sul e zona norte. Asfalto e morro. Sala de estar e área de serviço. Em tudo quanto é canto que se põe olhos, lá está a fissura grande se fingindo tranquila. Cada um sabe seu lugar e nele se põe.

Brasil, terra partida. Nunca nem não foi repartida. Sobram casas, sobra chão, mas sobra gente sem teto e sem terra. Solo rural ou teto urbano cá não servem pras gentes todas e sim pras gentes poucas que fazem estoque de riqueza virar fluxo de dinheiro. A propriedade é dita direito com ou sem uso. Na cumeeira da injustiça toda, ricos ficam mais ricos a fazer renda fluir do nada para seus infinitos bolsos. É dinheiro a virar mais dinheiro, sem nada ter feito a não ser rio que corre pro mar.

Na esteira desses uns absurdos, rico paga menos imposto que pobre. O sistema tributário brasileiro é dos mais regressivos do mundo. Cá na terra partida, a boca do leão não prefere presa gorda. Vai no osso que nem igual em carnoso torresmo de barriga. Concentra seu poder guloso de arrecadação em impostos sobre consumo, enquanto reserva a etiqueta da moderação na hora das mordidas sobre renda e patrimônio.

Somos o único lugar do planeta onde pessoa física não paga imposto sobre lucros e dividendos de ações. Mais um jeito de fazer dinheiro virar mais dinheiro sem contrapartida social. Só isso aí já resolveria de um tapa a pendenga fiscal que o governo enfrenta no hoje. Isso sem contar os volumosos dinheiros surrupiados do caixa público pelos grandosos sonegadores.

Apesar de um tudo, a famigerada elite branca insiste em posar no quadro vergonhoso de vítima. Gritam contra o excesso de impostos, mas silenciam diante do abismo das desigualdades de oportunidades. Batem panelas contra a corrupção de um único partido, mas não assinam a carteira da empregada doméstica. Gritam contra o banditismo dos arrastões nas “nossas” praias, mas silenciam aquiescentes quando pretos e pobres são impedidos de ir e vir por incorrer no crime de ser preto e pobre. Deixam-se comover em indignosas reações quando tevês e jornalões denunciam a tragédia do assassínio de um bem nascido, mas não sentem falta nem não deitam lágrima para a tragédia das chacinas cotidianas na periferia. Preto e pobre são só números que não fazemos questão de contar.

Nossa elite tem o país como sua propriedade. Não se reconhece no nosso povo. Não assume nenhuma responsabilidade. Se comporta como vítima de um povo mal educado e improdutivo. “Por isso o país não cresce!”. Se esconde atrás do discurso anticorrupção para desqualificar políticas sociais. Se esconde atrás do discurso antiviolência para criminalizar pretos e pobres. O discurso do ódio é o discurso do óbvio. Todos somos contra a corrupção. Todos somos contra a violência. Isso não é bandeira que se hasteia em mastro de união.

O sistema social capitalista pressupõe e implica elites. O papel de uma elite decente compreende o mínimo de identidade com a nação. O exercício do poder em namoro com as aspirações do povo. Falta à nossa elite brasileira, desde sempre, uma mínima ideia de civilização. Uma elite que se vitimiza nem não pode ser elite.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

entre o óbvio e o ridículo: o Brasil em recuperação

por Cuca Linhares

Ó se não é isso mesmo. Brasil nem não passou de ano. Fico eu lembroso da infância escolar, desolado na tristeza de viver amiguinhos em contramão no curso do tempo, presos no ano anterior. Recuperação. Segunda época. No agá do hoje, o Brasil desanda assim: pisa pé fincado no ano que passou.

Os sujeitosos cabeças da política de oposição querem de um todo jeito a cabeça da comandanta. Trégua nenhuma levanta bandeira de presença. A comandanta eleita, por seu turno, prospera no ofício de não comandar. A comandanta foi escolhida pelo povo no propósito de desarmar a bomba do arrocho, recolocando o trem nos trilhos sem maiores dores. Davia, nenhum plano crível se apresentou. Agora age feito aquele um sociólogo que, no seu tempo de comandante, tratou de deitar joelhos à cartilha neoliberal e pediu para esquecermos sua obra e seus escritos de outrora.

De tanto querer, parimos a tal crise funda somada na política e na economia. E aqueles todos a quem o bom senso chama para tapar o buraco só fazem cavar mais e mais. Nem não precisa o peagadê nas ciências todas da economia política e da política econômica. Nem não precisa mais que sentar na cadeira do bom senso para fazer certeza que o tal ajuste numa economia que andava de lado só iria desajustar tudo de vez.

Minha uma visão nos óculos do achismo é de perplexidade da pura. Tudo no redor caminha entre o óbvio e o ridículo.

É óbvio que devemos mirar uma trajetória de estabilidade do endividamento público. É ridícula a ideia de que o país se encontra na beira da insolvência com a dívida líquida morando abaixo dos quarenta por cento do pibe. É óbvio que o pibe vai tropeçar e rolar ladeira abaixo se o Estado não exercer agora-mais-do-que-nunca a capacidade de investimento. É ridículo querer resolver o desacerto fiscal só sacando a tesoura no pano da despesa e jogando o peso do ajuste em cima dos mais pobres. Óbvio que a pressão inflacionária não decorre de excesso de demanda. Ridículo querer aliviar essa pressão com injeção letal de juros. É óbvio que há espaço gordo de arrecadação em intervenções cirúrgicas no nosso ultra regressivo sistema tributário, por exemplo, voltando a taxar lucros e dividendos. É ridículo que o desgoverno da comandanta apresente fragmentos de soluções que logo somem na fumaça da própria fragilidade.

Óbvio que é papel do planejamento levantar a mão acendosa da luz que há de haver no final do túnel. Ridículo não demitir o cabeça da fazenda que boicota qualquer tentativa de ajuste “por cima”, jogando a conta toda pra quem menos pode pagar. Óbvio que se deve resistir aos cortes no social. Ridículo o chefe da casa civil não cumprir a contento seu papel no manejo concatenoso da política para produzir ambiente de novo arranque econômico. É óbvio que se a redenção repousa em figuras como Calheiros ou Katia Abreu, estamos mesmo escolhendo, diante do abismo, dar um passo à frente.

Óbvio que a coisa anda feiosa no escuro da rua sem saída. Ridículo que o governo se deixe refém de gente em naipe de Cunha ou Aecio, corruptos sabidos e ressabidos no manuseio da picareta. Na ponta toda dessa contradição, estamos paralisados por um turbilhão em que a política avacalha a economia, que arrasta de volta o cenário político pruma noite sem sono e sem fim.

Este um governo é pura desarticulação. Impressão toda é que ninguém faz ideia de nada. Não tem unidade. Ninguém se fala. Sem uma carta na manga, a comandanta deixa os inimigos no domínio do jogo. Falta pra nós uma ideia. Uma ideia de Brasil.

domingo, 23 de agosto de 2015

rei Baixastral e o império da exceção

por Celso Fernandes Ribeiro

Contra tudo. Contra tudo o que opera no regime sorrisudo do bom; contra toda voz despejada na alegria do tom propositivo; contra todo olhar brilhoso que ousa enxergar por cima das nuvens cinzas um fio de luz solar para amarrar uma agenda positiva. Contra tudo, sempre haverá o Baixastral.

Baixastral é aquele sujeitoso que vive em peso de pedras nos bolsos ao alcance das mãos. Sempre tem uma para tacar nos adversários que ele mesmo inventa para si.

Nessas cruzadas de pedra, Baixastral conquistou o terreno da vida brasileira. Gritou alto em força de autoridade para fundar seu grande império, nomeado o Império da Exceção.

Fincou bandeira e fez domínio.

Os gritos de ordem do Imperador ecoam em jornalões e grandes tevês, implantando verdades na cabeça de todas as gentes. Tudo que é exceção se veste em máscara de regra. E assim foi e é.

Quando o tal BolsaFamília fez ensaio de excluir do cardápio nacional a tragédia indignosa da fome, lá foram os soldados do Baixastral trazer em contraponto uma meia dúzia de vagabundos que preferem a escolha do atoísmo por uma ou duas centenas de reais. Como se fosse regra.

Quando assistência médica básica chegou em visita pras gentes que nunca viram um estetoscópio em vida, de um pronto as corporações imperiais pescaram aqui e acolá uns caboclos cubanos com dificuldades no trato com a língua portuguesa para vender a verdade da impertinente contratação de médicos estrangeiros. Como se fosse regra.

Como não colou essa teoria da incompetência cubana e tampouco a simples e tosca hostilização, repentino o Baixastral se apiedou da condição de trabalho dos pobres cubanos, descritos de hora para outra como vítimas. Escravos de um regime de terror comunista. De um novo, sem cola. Povo nosso sem saúde num é bobo nem nada. Imaginem agora com alguma saúde. Alegrosos da vida a celebrar seus doutores.

Davia, o Baixastral não deita descanso. Se tem petê no meio, tem manchete sempre negativa em telas e papeis.

Quando São Paulo ensaiou medidas de tardia vanguarda para trazer cidade em rumo de civilização, lá vieram as pedras do exército do Baixastral. Primeiro ciclovias e corredores de ônibus a contestar a hegemonia anti-civilizatória dos carros. Os jornalões insistiam na tese da invencionice, segundo a qual corredor de ônibus é desperdício de espaço e as vermelhas ciclovias não seriam senão propaganda da esquerdice do prefeito. E lá vieram fotos de corredores vazios e mal traçadas ciclofaixas. Como se fossem regra.

Agora o prefeitoso tranquilão inventou abrir a Avenida Paulista ao lazer da população nos domingos. E lá vieram os diários do Baixastral trazer mosquito pro piquenique. Foram criativos a ponto de afirmar especulosas dificuldades para o bom funcionamento dos hospitais da região. Quando consultados, os hospitais negaram qualquer interferência negativa do convescote urbano. Segue o jogo.

Mas o um fato tristudo é que Baixastral, o Grande, segue abusado em conquista de amplos e maiores territórios na arquitetura do golpe. Pois eu em um meu canto, ando firmoso na peleja de um golpe que leve esse Baixastral para a guilhotina. Cá no meu achismo, esse é o golpe legítimo que deve alimentar em força nossa descontentosa ação. Fora, Baixastral. Leve contigo esse um seu jornalismo.

sábado, 25 de julho de 2015

pobre família Odebrecht (ou espantoso Brasil novo)

por Celso Fernandes Ribeiro


Notícia um tanto curiosa para saltar manchetosa em cabeça de jornal. Entre as mais lidas do dia encontrava-se, com destaques de babado forte, o enunciado em tudo simpludo de que a parentada da família Odebrecht, nas visitas a seu querido ente Marcelo na prisão, deverá se submeter à revista de praxe na entrada. Enunciado assim, em letras tonalizadas na surpresa, como se o esperado fosse um tratamento diferenciado, algo no como de uma lista vip com direito a camarote uai-fai e combo de uísque e redibul.

Só mesmo em país abismoso feito esse Brasil é que assunto assim na rabeira óbvia da desimportância ganha audiência de coisa extraordinária.

Por óbvio, a revista em porta de cadeia existe no propósito de evitar a entrada de objetos indevidos. Os artigos mais comuns são os telefones celulares e ferramentas de fuga. Há até as arriscosas gentes compenetradas na capacidade de inserir tais objetos em genitálias e retos.

Resta claro que uma dessa revista não é naipe de experiência das mais bacanudas e pode mesmo acabar em cena vexatória, no flerte com a indignidade.

De todo um modo, apertando a mão do não obstante, me sobra a indagosa ingenuidade: seriam as regras e a lei aplicosas somente aos familiares e visitantes da massa de pobres e pretos coitados que costumeiramente habitam o cárcere?

Ouço são ecos típicos de um país que guarda na raiz o valor cultivado de uma certeza: desonestidade é inclinação das gentes pobres. Os procedimentos comuns da república não são feitos pras delicadezas dos sujeitosos senhores de elite. Não combinam com os modos da casa grande.

Fato é que assistimos a um Brasil novo capaz de enjaular figuras carimbadas da elite etiquetada. O ferro pela primeira vez fere corrupto e corruptor. É de provocar espanto na malandragem.

Convenhamos cá, considerando que essa Lava Jato é uma operação cheia de investidas seletivas e apropriações moralistas por parte de uma mídia engajada em derrubar o governo da ocasião, ver essa turmosa endinheirada visitando o xilindró não deixa de ser uma face democrática da nossa feiosa realidade. Pobre família Odebrecht. Tratada feito pobre.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

cortando o mal pelo tronco

por Celso Fernandes Ribeiro

A clivagem política que o Brasil vive no hoje é fenômeno cheio do curioso. O que aparece amiúde é caboclo político calhorda sem assento na vergonha posando para a foto do bom costume. Na oposição ao governo eleito, pouco se vê além das patetadas moralistas. A turma que guardou e guarda o Brasil na mala cheia da desigualdade desde a chegada do Pedro Álvares continua a aspirar ao centro do poder reclamado como um direito divino, pouco importosa se descalça de votos e sem projeto qualquer de alternativa civilizatória.

Na cabeça pequenuda dessa turma, o Planalto é como uma de suas fazendas que foi invadida e agora caberia chamada de milicos para reintegração da posse a braço de força.

Para não variar, as pedras são jogadas todas no poder executivo e, friso no dizer, algumas muito no alvo certo do merecimento. Mas convenhamos se não cabe mirada de um ou dois desconfiosos olhos nos outros três poderes da nossa vilipendiada república: legislativo, judiciário e midiático.

O Parlamento caiu joelhos aos prepostos e impostores de bíblia no suvaco ou de boiada e eleitorado no curral. É esse o reboco mal ajambrado da atual casa do povo. Na tese de um esgarçado tecido de retalhosas alianças, o governo tem uma ampla base de apoio. De um fato é que com uma base de apoio dessas, não há governo que precise de inimigos.

A turma da toga trabalha pouco e deu de selecionar vítimas pelas cores. A penada dos doutos senhores só cobra tenência de pretos e vermelhos.

De último e não somenos importância, a mídia. Poder grandoso operado por fora da carta constitucional, a mídia grande e oligopolizada legitima e reproduz os matizes daquela torpe seleção rubro-negra. Nas poucas redações e editorias, um peti comitê se põe às falas para decidir o que publicar, o tom da pajelança, o que vaza e o que não vaza. Definem quais escândalos se merecem grandes a fazer gritar indignosas vozes dos homens de bem.

Resta claro que, nas moradas dessa turma dona do poder não executivo, os telhados de vidro são blindados. Ruim de quebrar. Fazem, desfazem e refazem o que bem entendem sem atenção grande dos guardiães da ordem de direito.

Voltando ao parlamento, ali se discute o ritmo da marcha à ré. Usam a estratégia de pautar matérias que pareciam superadas no século dezenove para que todo mundo acabe achando de bom não botar pé fora do século vinte. 

De um fato, a casa legislativa anda muito da mal habitada. Embalada em comando pelo presidente Cunha, tem cabido toda sorte de manobras descabidas. A frieza infantiloide do dono da bola tem conseguido procedimentos mágicos para votar e revotar matérias até que se obtenha o resultado desejado.

Financiamento de campanha. Maioridade penal. O fazedor de política mostra a seu povo o grande talento de cortar o mal sempre... pelo tronco. Falta visita à raiz.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

demissão do Marcelo Oliveira: imbecilidade travestida de solução

por Cuca Linhares


É o que sempre brado no dizer: na esfera do futebol, incompetência dos dirigentes não encontra cerca de limites. Por mais que a realidade produza as evidências todas pro caminhar em contrário, os sujeitosos cartolas continuam repisando os erros mesmos de sempre.

Assim foi. A diretoria celeste demitiu o treinador Marcelo Oliveira.

Em dois anos e mais metade, Marcelo foi o maestro que emprestou o talento de sua afinação para o time azul encontrar compasso de jogar por música. Assim papamos na gulodice os campeonatos brasileiros de treze e de catorze.

Este quinze era ano para reformulação. Meio time foi mexido no desmonte e o material novo colocado à disposição do Marcelo não mostrou liga de regularidade. Até chegou a apresentar disciplina para bons jogos e, na Libertadores, quando a coisa ensaiava ficar bonita, veio a traulitada da desclassificação em Mineirão pleno das gentes de azul. Nada além de futebol.

Mas o fracasso da empreitada não soava dúvidas quanto à notória competência do treinador. Aí vem a Diretoria fazer média pequena para demonstrar seu algum falso ativismo: demite o maestro da orquestra em atitude sem qualquer flerte com o bom senso. Não foi outra coisa que imbecilidade travestida de solução.

Bom senso era marca que Marcelo sempre estampou na face e na fala. Caboclo vestido na simplicidade. Craque firmoso na inteligência. Compromisso todo com o jogo jogado em toque redondo de bola. Sujeitoso daqueles fora da série. Tipo da gente que anda escasso achar em qualquer canto ou ofício. Nem nenhuma sanha elogiosa de parágrafo inteiro dará conta da boniteza desse caráter.

O torcedor cruzeirense vai sentir essa falta demais da conta.   

Reinou em outra vez a visão míope de curtíssimo alcance. Sobra cargas de burrice nos gabinetes do Barro Preto e nos camarotes do Mineirão. Vai faltar bom senso na beira da cancha.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

River dá uma aula acachapante

por Edu Praça


No cume da decepção em língua seca e garganta fechada no nó. O preparo todo foi no ornamento da festa. Cinquenta mil gentes no Mineirão em sereno puro da celebração. Certeza absoluta do Cruzeiro na semifinal da Libertadores. Davia futebol é coisa que não perdoa as certezas. E o chope não deu outra que se tornar em água.

Jogo de corpo presente. Time azul em campo não era o mesmo da semana passada. Energia nenhuma no debaixo da camisa. Diria até que vergonha nenhuma no suor pequeno a escorrer na cara.

Cruzeiro disforme na moleza pura. River mostrou que entende mais do riscado. Conhecem melhor as estratégias, os atalhos e macetes da brincadeira.

E assim manda o castigo desse esporte. Repente, o feito épico da semana passada se ajoelha ao esquecimento de um esse jogo adverso. Parecia a Copa da turma do Felipão frente à Alemanha. Nem não dá pra fazer destaque negativo. Ninguém vestiu azul para pisar o gramado pensando em jogo de bola. Tem algo de coisa errada nesse jeito dos jogadores perceberem sua profissão.

River deu aula. Fez três tentos na base dos golaços e poderia ter feito mais um ou outro na toada da humilhação. Futebol jogado.

Torcida celeste pagou caro e merecia o mínimo do engajamento dos seus representantes. Difícil engolir o amargo do enredo desfilado no Mineirão.

Hoje é dia de amanhã. Bola pra frente. Acreditar que essa tristeza toda não é mais que esporte. E sempre haverá uma semana que vem para oferecer a oportunidade da redenção.

sábado, 23 de maio de 2015

na disciplina e na raça, Cruzeiro bate o River

por Edu Praça

Libertadores é raça. Em depois de meses fora das resenhas, não fiz cabimento deixar de rabiscar na história escrita essas mais recentes páginas heroicas. No todo futebol das batalhas épicas, meu Cruzeiro calçou a cara da emoção feito há muito não vínhamos, víamos e vencíamos.

As oitavas de final foram coisa de São Paulo contra São Fabio. E as milagragens do arqueiro maior de todos garantiram duplamente a classificação: primeiro evitou uma goleada saopaulina que se ensaiou no Morumbi ante um bando azul acuado e apático. Trouxemos com muito lucro o um a zero do placar adverso e, em casa, devolvemos na pressão a justeza do placar mínimo para resolver a pendenga nas cobranças de pênaltis. São Fabio catou duas para carimbar as passagens para as quartas de final em Buenos Aires, frente ao River Plate.

Nesta quinta foi jogo de livro. Monumental estádio cheio nas cores e cantorias. Argentinos sabem demais da conta esse ofício de fazer torcida. Davia, o Cruzeiro fez visita inconveniente ao River.

O time azul se portou firmoso na obediência concentrada própria dos soldados em batalha. Jogo pegado na dureza quase violenta da lealdade. Defesa alinhada na segurança compacta para o perigo não fazer morada. Longe de feio, o jogo construiu boas tramas e os sustos pegaram todas as cores de torcidas. As investidas mais agudas eram do time azul. Teve no certame as chances melhores.

O esquadrão azul marcou em cima desde os primeiros minutos, na toada do roubo de bola para botar contrataque na caixa. Sem as brilhosidades nenhumas do improviso, consciente das suas limitações todas, o time não inventou jogo de moda. Segurou em força de disciplina os ímpetos do adversário.

De Arrascaeta, que veste em sua camisa dez a esperança do inusitado, não mostrava o que sabe. O maestro Marcelo Oliveira abriu então o palco para Gabriel Xavier. Pisou o campo para amolar o lado esquerdo e abrir os caminhos do gol.

Em lance despretensioso, Xavier explorava a ponta canhota e ganhou cobrança de lateral. Naquela altura de dificuldade do embate, o empate em zero a zero até já se mostrava na justeza das expectativas de ambas as equipes. Mas com as mãos Mena lançou um balão à área. No rebate-bate o defensor do River zagueirou um balão ainda mais alto. Damião firmou em disputa e conseguiu quase sem querer achar Xavier na linha de tiro. O chute sem jeito encontrou esbarramento no goleiro Barovero e sobrou em Marquinhos na calma para encontrar a rede.

O time azul das cinco estrelas escreveu mais uma página histórica. Bater o River em casa é feito para poucos ou nenhuns. Vitória daquelas para lembrar toda e sempre. Quando ausentam o talento e a graça, nada mal encontrar beleza na disciplina e na raça. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

a cara da Câmara (breve análise da casa legislativa em uma votação)

por Cuca Linhares


Há coisa de uma semana os sujeitosos deputados federais passaram adiante projeto de lei queroso de permitir terceirização de tudo quanto é trabalho. Se ratificada em lei, mesmo aquelas lidas e costuras essenciais e relacionadas à importância central da empresa poderão ser subcontratadas.

Ora bem sabido é que subcontratação é o prenome do precário. Subtração de direitos fundados e consolidados no terreno trabalhista. Em sociedade feito a nossa, com história pendurada na desigualdade muito feiosa e resistente, as garantias ao trabalhador foram firme passo civilizatório. Não será bem-vindo e bem visto esse cambaleio de meia volta.

Sem contar que essa é manobra política em todo arriscada. Ceeletê é que nem assim: escritura sagrada. O caboclo trabalhador já nasce sabendo que vai ter direito. Abuso além da conta de atrevimento de quem arredar uma vírgula nesse texto. Povo chia feito peito em asma.

E que pensam diachos de empresários para não querer o mínimo de confortosa estabilidade nem mesmo para seus fundamentosos empregados!? Que fechem seus botecos porque assim não há garçom que sirva.

Mas para além da minha indignosa visão sobre o tal projeto, quero mesmo é revelar qual minha boca aberta em surpresa ao ver, no placar do plenário, quem votou como. Trago cá um retrato breve da nossa casa legislativa e das malucosas conclusões que podemos tirar de uma votação como essa. Vivi até paciência pra cercar os números em tabela. Vejam lá.

   VOTAÇÃO PROJETO DE LEI 4330

Partido (?)
Sim
Não
PTB
13
8
 PTN
2
2
PRB
5
5
PEN
1
1
PHS
2
2
PMN
1
2
PPS
6
5
PSB
13
16
PR
17
11
PSC
6
4
PP
28
3
PSD
21
6
PSDB
33
10
PMDB
49
13
DEM
12
4
Solidariedade
10
3
PV
6
2
PROS
2
9
PDT
2
17
PCdoB
0
12
PSOL
0
5
PT
0
58
*A tabela não inclui todos os partidos com representação na Câmara Federal.

A seguir ponho lista na quantidade de sandices que um quadro bobo desses pode revelar sobre nosso sistema político:

1) Temos mais de vinte e cinco partidos representados no Congresso. É sigla demais e nem com muita criatividade caboclo inventa tanta ideologia.

2) O PTB, dito Partido Trabalhista Brasileiro, aquele mesmo de Vargas, votou majoritário a favor do projeto.

3) O PTN, Partido Trabalhista Nacional (o que será que o diferencia do Partido Trabalhista Brasileiro?); o PRB, Partido Republicano Brasileiro; o PEN, Partido Ecológico Nacional; e o PHS – Partido Humanista da Solidariedade racharam-se em metades incrivelmente iguais. São agremiações pequenas, com meias dúzias de alguns deputados. Se se apresentam em divisão tão cinquentaporcentosa diante de um tema tão importante, seriam capazes de encontrar alguma identificação que justifique sua reunião em um partido político?

4) A mesma indagosa perplexidade serve para o PMN – Partido da Mobilização Nacional (que causa os mobiliza?); o PPS – Partido Popular Socialista; o PSB – Partido Socialista Brasileiro (devem ser estes os socialistas impopulares); o PR – Partido da República (a manifesta crença na “pessoa livre” e a “valorização da pessoa na sua individualidade” talvez explique o quadro de sua posição face ao projeto da terceirização); e o PSC – Partido Social Cristão (inclui na sua plataforma o zelo pela segurança no trânsito). Estes todos partidos (?) conseguiram se dividir quase no meio a meio, feito time de pelada.

5) O PP – Partido Progressista votou a favor do projeto. Isso mesmo, progressista.

6) O PSD – Partido Social Democrático votou a favor do projeto. Sim, social democrático. Se meus leitores poucos e bons encamparam o desafio, façam-me explicação da diferença entre estes bichos aí e os tucanos da Social Democracia Brasileira (PSDB), que também votaram pela terceirização ampla, geral e irrestrita.

7) Apenas três agremiações votaram em trato de unanimidade: PCdoB, PSOL e o PT. Votaram contra o projeto. Perdoem-me a esquerdice, mas talvez só esses mereçam o Pê na sigla.

Fato é que política boa não dá pra sair de um congresso assim costurado no retalho. Um amontoado de legendas de aluguel que desvia e desviabializa qualquer governação.

Quanto ao conteúdo do projeto de lei, fora os achismos já ditos, devo destacar em advertência que os industriosos homens de empresas andam por aí na campanha plantando ideia de que o projeto de lei é bom para os trabalhadores. De pequeno menino, ouvi meu pai dizer vezes ou outras a um interlocutor empertigado: “olha, você achar que eu sou idiota até aceito de bom grado; mas você querer me convencer de que sou idiota já é um pouco ambicioso demais na beira do abuso”.

Resta claro é que gente feito nós de juízo não deve nem de nenhum jeito terceirizar a voz política a esses sujeitosos deputados em sua maioria ou financiados por empresas graúdas ou eles mesmos empresários. 

Meu apelo aos industriosos homens de bem e senhores de empresas: que tal desmamar eficiência e redução de custo tirando os brioches da sua mesa própria? Deixem quieto o pãozim frio de cada dia de quem trabalha.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

os craques e o exercício da esperança

por Celso Fernandes Ribeiro

Cá rogo licença ao amigo Edu Praça para enfiar tangência em assunto do terreno dele. É que a essa altura dos campeonatos, início de temporada boleira sem encantamentos ou emoções, futebol neste Brasil meu e nosso só serve mesmo é pra fabricar metáforas. Lá vou.

Essa uma gente cabocla gosta mesmo é de esperança. Êita povo capaz de exercitar a certeza absoluta no país do futuro mesmo com os pés afundados na areia movediça dos ranços passadistas. O expectador político tem mesmo seu traço de torcedor1.

Depois de temporada além-secular na segunda divisão da civilização mundial, o Brasil entrou no século vinte e um a lograr direito de disputa no grupo principal. Uma neorgulhosa massa de brasileiros assistiu enfim a seu toque de bola respeitado e agora estudado na atenção pelos demais competidores de primeira linha.

Mas eis que vem a crise na intermediária da política e da economia. Agora o jogo se desenha seguinte: fim do primeiro tempo e o time metido todo em pés pelas mãos. Governo já não acerta no encaixe das jogadas. Quanto às tramas, só as tenebrosas ganham apelo de verdade. Time vaciloso nos avanços, bateção de cabeça sem saber como conter os fortes contra-ataques pelo flanco da direita.

Na volta do intervalo, a torcida – que firmou reapoio ao time mesmo na incerta vereda – abre bocas sobre queixos caídos que não creem no estratagema: entrou Joaquim pimpão com faixa de capitão e tudo para comandar a cabeça da área. O plantel da presidenta ensaia em campo a tática econômica da retranca liberal. A ordem é botina em canelas todas para segurar o empate. O adversário já perdeu o respeito e ataca em bloco. Remédio conhecido: marcação cerrada pela necessidade de restabelecer a confiança no sistema defensivo. Os avanços estão mesmo desautorizados. Aquele raio vívido da esperança no placar favorável parece deitar outra vez preguiçudo no berço esplêndido da covardia.

Tristeza toda nas arquibancadas: com time desse ninguém precisa adversário. Jogo feio de quem se fia no medo de perder. Ora, povo que nem é nada bobo já sabe que o resultado disso só pode ser derrota certa. E lá se vão os gritos todos de impropérios a zunir ouvidos da dona Dilma.

Repente, de onde nada mais se espera, vem a nesga da esperança a provar iluminosa por que é a última que morre. A presidenta tira do banco de reservas ninguém menos que Janine Ribeiro. Meia esquerda com brilhosidade muita de craque, ainda não testado no time principal. Sujeitoso capaz de arredondar a bola na intermediária e fazer a ligação com a área almejada da pátria educadora.

E para que não duvidem da sua disposição a fazer o time jogar de um novo na boniteza do ataque, a presidenta manda também a campo o agudo ponta-esquerda Jessé Souza, habilidoso demais da conta nas leituras de partida. Um Neymar na arte equilibrosa de avaliar e alinhavar o plano do quadro social e das políticas públicas.

Como este aqui é quase sempre espaço de contraponto à dança engajada do pessimismo atávico, assim é que a corrente pra frente algo irracional da torcida acaba achando razão pra apoiar novamente o time. Minha torcida é toda pra eles, os craques do bem. 

E o futuro espelhe essa grandeza.

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1 Resta claro que nem não estou falando da torcida turmosa da hipocrisia, composta pelos criançoides que reclamam o retorno dos milicos porque admitiram enfim não saber brincar de democracia.