quarta-feira, 11 de novembro de 2015

o destino do nosso tempo e o tempo do nosso destino

por Cuca Linhares

Vê se não. Tanta coisa. Os bondes passando e nós aqui na sem condição de pongar. No passo que passam as oportunidades todas, a angústia finca cabeça de não aproveitar nenhumas.

A gente nem não sabe pra onde vai nosso tempo. É nós o tempo todo fazendo minuto e hora de gastar sem pra que ou pra quem, sem entender como o destino do nosso tempo define o tempo do nosso destino. E assim a gente despresta atenção no amor e nas belezas todas que não moram nos eslaides de pauerpointe que decoram as paredes de nossa vida.

E assim, sem tempo, tudo vai chegando no seu lugar. O branco chega nos cabelos. As gorduras deitam confortosas na cintura. E assim a gente se esquece de si e vai caçar dinheiros para calçar futuro de uns filhos que já não achamos o tempo de ver crescer. E os dinheiros até vão preguiçudos sentar nos bolsos sem querer saber o que fazem ali. Afinal, pra que servem os bolsos senão como descanso dos dinheiros?

No agá do hoje, acordei com bolso cheio de confusão. Num é que estamos, quase sem querer, operando a mágica de fazer sumir a vida toda?

Pulo da cama e bato a cara nessa janela que já não mostra ninguém nem nada lá fora. Essa mesma janela que cobrimos de grades para confinar o olhar que não sai e se proteger do resto que não entra.

Os amigos bons e velhos vão ficando, velhos como nós, pelo caminho. Reparo que todo mundo tá sumido de todo mundo. As amizades já não se exercitam no cotidiano da prosa e da mesa de bar que era só política da pura.

Todo mundo no ritmo solo da sua própria falta de tempo. Indivíduos que desaprenderam a tocar forma de orquestra.

Tá todo mundo sumido de todo mundo, cada vez mais embolado no tempo que fugiu escorrido no ralo do capital. De um fato, essa é a maior estratégia de sobrevivência do capital. Sorrateiramente subtrai todo nosso tempo. Sem choro de questão, deixamos de saber a que nosso tempo serve, a não ser reunir dinheiros em bolsos. No simples, acabamos aceitosos sentados em cima da certeza de que o tempo é sempre menor do que precisamos para a política da vida que realmente importa: o papo cotidiano, o torresmo com cachaça, a revolução.

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