por Celso Fernandes Ribeiro
É de saber. Esse um nosso país é
morada dos absurdos. Lugar da elite que vive o presente com a mente firmosa no
passado. Assim nem não há tijolo e cimento de futuro a construir.
Brasil é terra partida. No início
eram sobrados e mocambos. Casa grande e senzala. E depois sudeste e nordeste.
Centro e periferia. Zona sul e zona norte. Asfalto e morro. Sala de estar e
área de serviço. Em tudo quanto é canto que se põe olhos, lá está a fissura grande se fingindo tranquila. Cada um sabe seu lugar e nele se põe.
Brasil, terra partida. Nunca nem
não foi repartida. Sobram casas, sobra chão, mas sobra gente sem teto e sem
terra. Solo rural ou teto urbano cá não servem pras gentes todas e sim pras gentes
poucas que fazem estoque de riqueza virar fluxo de dinheiro. A propriedade é
dita direito com ou sem uso. Na cumeeira da injustiça toda, ricos ficam mais
ricos a fazer renda fluir do nada para seus infinitos bolsos. É dinheiro a
virar mais dinheiro, sem nada ter feito a não ser rio que corre pro mar.
Na esteira desses uns absurdos,
rico paga menos imposto que pobre. O sistema tributário brasileiro é dos mais
regressivos do mundo. Cá na terra partida, a boca do leão não prefere presa
gorda. Vai no osso que nem igual em carnoso torresmo de barriga. Concentra seu
poder guloso de arrecadação em impostos sobre consumo, enquanto reserva a
etiqueta da moderação na hora das mordidas sobre renda e patrimônio.
Somos o único lugar do planeta
onde pessoa física não paga imposto sobre lucros e dividendos de ações. Mais um
jeito de fazer dinheiro virar mais dinheiro sem contrapartida social. Só isso
aí já resolveria de um tapa a pendenga fiscal que o governo enfrenta no hoje. Isso
sem contar os volumosos dinheiros surrupiados do caixa público pelos grandosos
sonegadores.
Apesar de um tudo, a famigerada
elite branca insiste em posar no quadro vergonhoso de vítima. Gritam contra o
excesso de impostos, mas silenciam diante do abismo das desigualdades de
oportunidades. Batem panelas contra a corrupção de um único partido, mas não
assinam a carteira da empregada doméstica. Gritam contra o banditismo dos
arrastões nas “nossas” praias, mas silenciam aquiescentes quando pretos e
pobres são impedidos de ir e vir por incorrer no crime de ser preto e pobre. Deixam-se comover em indignosas reações quando tevês e jornalões denunciam a tragédia do assassínio de um bem nascido, mas não sentem falta nem não deitam lágrima para a tragédia das chacinas cotidianas na periferia. Preto e pobre são só números que não fazemos questão de contar.
Nossa elite tem o país como sua
propriedade. Não se reconhece no nosso povo. Não assume nenhuma
responsabilidade. Se comporta como vítima de um povo mal educado e improdutivo.
“Por isso o país não cresce!”. Se esconde atrás do discurso anticorrupção para desqualificar
políticas sociais. Se esconde atrás do discurso antiviolência para criminalizar
pretos e pobres. O discurso do ódio é o discurso do óbvio. Todos somos contra a
corrupção. Todos somos contra a violência. Isso não é bandeira que se hasteia
em mastro de união.
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