quinta-feira, 1 de outubro de 2015

uma elite que se vitimiza

por Celso Fernandes Ribeiro

É de saber. Esse um nosso país é morada dos absurdos. Lugar da elite que vive o presente com a mente firmosa no passado. Assim nem não há tijolo e cimento de futuro a construir.

Brasil é terra partida. No início eram sobrados e mocambos. Casa grande e senzala. E depois sudeste e nordeste. Centro e periferia. Zona sul e zona norte. Asfalto e morro. Sala de estar e área de serviço. Em tudo quanto é canto que se põe olhos, lá está a fissura grande se fingindo tranquila. Cada um sabe seu lugar e nele se põe.

Brasil, terra partida. Nunca nem não foi repartida. Sobram casas, sobra chão, mas sobra gente sem teto e sem terra. Solo rural ou teto urbano cá não servem pras gentes todas e sim pras gentes poucas que fazem estoque de riqueza virar fluxo de dinheiro. A propriedade é dita direito com ou sem uso. Na cumeeira da injustiça toda, ricos ficam mais ricos a fazer renda fluir do nada para seus infinitos bolsos. É dinheiro a virar mais dinheiro, sem nada ter feito a não ser rio que corre pro mar.

Na esteira desses uns absurdos, rico paga menos imposto que pobre. O sistema tributário brasileiro é dos mais regressivos do mundo. Cá na terra partida, a boca do leão não prefere presa gorda. Vai no osso que nem igual em carnoso torresmo de barriga. Concentra seu poder guloso de arrecadação em impostos sobre consumo, enquanto reserva a etiqueta da moderação na hora das mordidas sobre renda e patrimônio.

Somos o único lugar do planeta onde pessoa física não paga imposto sobre lucros e dividendos de ações. Mais um jeito de fazer dinheiro virar mais dinheiro sem contrapartida social. Só isso aí já resolveria de um tapa a pendenga fiscal que o governo enfrenta no hoje. Isso sem contar os volumosos dinheiros surrupiados do caixa público pelos grandosos sonegadores.

Apesar de um tudo, a famigerada elite branca insiste em posar no quadro vergonhoso de vítima. Gritam contra o excesso de impostos, mas silenciam diante do abismo das desigualdades de oportunidades. Batem panelas contra a corrupção de um único partido, mas não assinam a carteira da empregada doméstica. Gritam contra o banditismo dos arrastões nas “nossas” praias, mas silenciam aquiescentes quando pretos e pobres são impedidos de ir e vir por incorrer no crime de ser preto e pobre. Deixam-se comover em indignosas reações quando tevês e jornalões denunciam a tragédia do assassínio de um bem nascido, mas não sentem falta nem não deitam lágrima para a tragédia das chacinas cotidianas na periferia. Preto e pobre são só números que não fazemos questão de contar.

Nossa elite tem o país como sua propriedade. Não se reconhece no nosso povo. Não assume nenhuma responsabilidade. Se comporta como vítima de um povo mal educado e improdutivo. “Por isso o país não cresce!”. Se esconde atrás do discurso anticorrupção para desqualificar políticas sociais. Se esconde atrás do discurso antiviolência para criminalizar pretos e pobres. O discurso do ódio é o discurso do óbvio. Todos somos contra a corrupção. Todos somos contra a violência. Isso não é bandeira que se hasteia em mastro de união.

O sistema social capitalista pressupõe e implica elites. O papel de uma elite decente compreende o mínimo de identidade com a nação. O exercício do poder em namoro com as aspirações do povo. Falta à nossa elite brasileira, desde sempre, uma mínima ideia de civilização. Uma elite que se vitimiza nem não pode ser elite.

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