Estradas em cerração nos levam ao próximo domingo de urnas. Passadas já muitas e quase todas
oportunidades de acender faróis sobre a via do porvir, a neblina não permite
enxergar bem as curvas que podem pegar todo um mundo de calças arriadas em
surpresa. Nem não há desinfeliz que não deva tremer no medo do capote.
Há dois meses, parecia
implausível botar fé em outra coisa que não fosse a reafirmação de Dona Dilma
em sua desconfortosa cadeira presidencial. O difuso ímpeto mudancista que gerou
ondas de protesto no Brasil recente não enxergara nos sujeitosos candidatos
disponíveis uma alternativa da boa.
A trágica passagem de Eduardo
Campos fez bagunça nesse coreto. Dona Marina deixou o coadjuvismo para o
estrelato e se candidatou à bacia da alternância de poder. Pendurou no colo a
miçanga da mudança, fazendo cantoria de uma dita e desdita nova política.
Há não mais que duas semanas,
tudo quanto é fazedor de planilha e pensador do bom senso passara a dar como
favas já contadas que Marina vestiria a faixa em janeiro do ano quinze. Num
desse quadro, a desgastada e desgastante briga de petê contra tucanos estaria
rompida, ou ao menos deixado de figurar em posição principal no carde de lutas.
No agá do hoje, faltando cinco dias
pra romaria das urnas, não vejo caboclo em capacidade afirmosa de bater
martelos.
Curso de tempo muito curto foi
suficiente para mudar de um tudo. Mudança tanta a rumo de ficar
tudo como dantes. Giro de trezentos de sessenta graus?
Dona Dilma, após o cagaço da
ascensão de Marina, começou a pautar o embate e firmou sua audiência cativa nas
gentes que viveram em pele as transformações sociais dos tempos últimos. É
gente que provou comida quente e tirou o país do mapa da fome. É gente que
vivia lá tão longe e recebeu visitas do Estado. Conheceu escola e até
universidade, coisa que não costumava brotar em terras de interior. Gente que
viu salário crescer e descobriu que dinheiro compra bugigangas e não só comida.
Gente que passou a olhar no espelho e se ver gente.
Marina, ao lado de um caixão,
acenou sorrisos e conquistou uma larga turma. Porém, de um logo começou a se
atolar na areia movediça das próprias contradições. Deu bananas à
institucionalidade, aos partidos e disse querer governar com “a sociedade”. Deu
trufas e champagne ao sistema financeiro e prometeu um banco central obediente.
Tirou o leite da indústria que, segundo ela, já é crescidinha para mamar em
tetas estatais. Disse e desdisse tanta coisa que aquele papo docinho de engolir
sobre nova política anda dando indigestão desconfiosa em muita gente.
Numa dessa confusão de idas e
vindas, o sujeitoso Aecio ficou um bom tempo ali preso no calabouço de um
castelo de cartas fora do baralho, sempre lançando aquele sorriso animoso de
quem afirma ser o lindão mais querido e preparado. Agora na reta final, ensaia
engatar a quinta marcha que pode lhe dar o segundo lugar que levaria a corrida
presidencial ao ponto final de um giro de trezentos e sessenta graus. Será tudo como dantes?
Petê pega tucano na final?
Não sou eu capaz de achar
palpite.
Viúva de um casamento de fachada,
Marina pode acabar saindo da história com mãos abanando.