terça-feira, 30 de setembro de 2014

trezentos e sessenta graus

por Cuca Linhares


Estradas em cerração nos levam ao próximo domingo de urnas. Passadas já muitas e quase todas oportunidades de acender faróis sobre a via do porvir, a neblina não permite enxergar bem as curvas que podem pegar todo um mundo de calças arriadas em surpresa. Nem não há desinfeliz que não deva tremer no medo do capote.

Há dois meses, parecia implausível botar fé em outra coisa que não fosse a reafirmação de Dona Dilma em sua desconfortosa cadeira presidencial. O difuso ímpeto mudancista que gerou ondas de protesto no Brasil recente não enxergara nos sujeitosos candidatos disponíveis uma alternativa da boa.

A trágica passagem de Eduardo Campos fez bagunça nesse coreto. Dona Marina deixou o coadjuvismo para o estrelato e se candidatou à bacia da alternância de poder. Pendurou no colo a miçanga da mudança, fazendo cantoria de uma dita e desdita nova política.

Há não mais que duas semanas, tudo quanto é fazedor de planilha e pensador do bom senso passara a dar como favas já contadas que Marina vestiria a faixa em janeiro do ano quinze. Num desse quadro, a desgastada e desgastante briga de petê contra tucanos estaria rompida, ou ao menos deixado de figurar em posição principal no carde de lutas.

No agá do hoje, faltando cinco dias pra romaria das urnas, não vejo caboclo em capacidade afirmosa de bater martelos.

Curso de tempo muito curto foi suficiente para mudar de um tudo. Mudança tanta a rumo de ficar tudo como dantes. Giro de trezentos de sessenta graus?

Dona Dilma, após o cagaço da ascensão de Marina, começou a pautar o embate e firmou sua audiência cativa nas gentes que viveram em pele as transformações sociais dos tempos últimos. É gente que provou comida quente e tirou o país do mapa da fome. É gente que vivia lá tão longe e recebeu visitas do Estado. Conheceu escola e até universidade, coisa que não costumava brotar em terras de interior. Gente que viu salário crescer e descobriu que dinheiro compra bugigangas e não só comida. Gente que passou a olhar no espelho e se ver gente.

Marina, ao lado de um caixão, acenou sorrisos e conquistou uma larga turma. Porém, de um logo começou a se atolar na areia movediça das próprias contradições. Deu bananas à institucionalidade, aos partidos e disse querer governar com “a sociedade”. Deu trufas e champagne ao sistema financeiro e prometeu um banco central obediente. Tirou o leite da indústria que, segundo ela, já é crescidinha para mamar em tetas estatais. Disse e desdisse tanta coisa que aquele papo docinho de engolir sobre nova política anda dando indigestão desconfiosa em muita gente.

Numa dessa confusão de idas e vindas, o sujeitoso Aecio ficou um bom tempo ali preso no calabouço de um castelo de cartas fora do baralho, sempre lançando aquele sorriso animoso de quem afirma ser o lindão mais querido e preparado. Agora na reta final, ensaia engatar a quinta marcha que pode lhe dar o segundo lugar que levaria a corrida presidencial ao ponto final de um giro de trezentos e sessenta graus. Será tudo como dantes? Petê pega tucano na final?  

Não sou eu capaz de achar palpite.

Viúva de um casamento de fachada, Marina pode acabar saindo da história com mãos abanando.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Marina Silva e seu navio sem lastro

por Celso Fernandes Ribeiro


Dois colegosos cientistas da política deram precisas e preciosas palavragens no Jornal Valor Econômico desta sexta-feira 12. Um par de entrevistas timbradas no puro esclarecimento. Em plástica de cores vivas e contornos pontiagudos, pintaram o quadro eleitoral saturando os matizes da contradição chamada Marina Silva.

O brilhoso perguntador buscou testar a hipótese da governabilidade caso o recheio das urnas revelasse Marina a chefa da nação. Qual seria o apanágio de um tal comando?

De um seu lado, o sujeitoso Octavio Amorim, da FGV-RJ, põe argumento na importância de um presidente necessitar polpuda estrutura política, amparo em movimentos sociais organizados e/ou tropa operante na casa parlamentar. O agá maiúsculo da história nos conta: “Quando um presidente eleito não tem uma grande organização partidária, uma base política sólida, ampla, por trás de si, essa Presidência equivaleria a um navio sem lastro (...) o capitão pode ser genial, mas o navio sem lastro pode virar a qualquer onda”.

Ora, a porta-bandeira da dita nova política não tem partido. Tá morando de favor no PSB de Eduardo Campos e prometeu sair assim que realizar o sonho da casa própria, com rede na varanda. Mas quem há de ser convidado a deitar na rede?

Personalista, Marina não se avexa no discurso de que partidos servem pessoas. Afirmativa, a cabocla candidata alega que fará governo com “os melhores”, desimportando a filiação partidária. À parte a arrogância essencial de quem se atribui o dom da definição dos “melhores”, meu colegoso cientista traz advertência: “É ruim. O sistema partidário é o lastro do sistema político”.

O que Amorim trata como contradição, Luiz Felipe Miguel, da UnB, logo detona como estratégia: “Marina está pronta para jogar o jogo que sempre foi jogado. Apesar de ter se apropriado desse discurso da nova política, eu a vejo como uma política muito pragmática”. A velha espertice a piscar olhos para a desfaçatez.

Marina está penteada em coque de saber que terá de se render ao câncer dos peemedebismos próprios do regime de coalizão. Nesse um quadro, Marina não teria problemas de governabilidade pelo simples fato de que vai se aliar aos lambedores de beiços de sempre para construir seu apoio no Congresso.

Miguel completa desalentosa conclusão: “A tendência da política brasileira, da forma como ela ocorre, é o desencanto do eleitor a cada novo governo. Porque existe um descompasso entre aquilo que se deseja, de uma política mais transparente, mais limpa, mais programática, e a prática”.

Em linha de concordância, cá este blogueiro achista das coisas políticas só vê saída pela reforma da casa toda. Partidos devem ser bons e poucos. Nunca jamais financiados por empresas.

Enquanto reforma não vem, Marina lança ao vento vão o grito de novidade. Para logo em seguida nos dar boas vindas de volta à velha política.


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Não deixem de ler as entrevistas completas. Alguns outros aspectos em muito interessantes são abordados. Abaixo lanço o endereço. Talvez só abram a porta para assinantes. Se for o caso, me convide prum chope e deixo você ler no meu espertofone.




sábado, 6 de setembro de 2014

queda e ascensão da humanidade: o caso Aranha

por Cuca Linhares


Episódio flagrante de espetáculo racista rolou na Arena Grêmio semana última. Alegre não se sabia aquele Porto. Em alvo preferencial da desumanidade, o muito grande goleirão santista contragiu digno por demais da conta. Sem sacar em sacanagens da agressão torpe, mostrou ao mundo o que é muito feio e inaceitável das inteirezas do ser.

Via eu aquelas cenas no preciso momento de suas câmeras e ações. De um átimo subiu-me engulho condenatório do projeto humano de civilização. Com o ensaio de lágrimas ali na mucosa dos olhos onde toda raiva do mundo mora, foi o meu pensamento: a humanidade caiu. Um projeto falido a arrastar suas bípedes permanências primatas. Jeito não há. Eu assumia de um jeito a culpa daquela festa sinistra que a tevê iluminava.

Virado este blogue o espaço privilegiado dos mais e menos nobres achismos, quis num levante vir aqui botar cachorros a ladrar e morder. Mas escorridos minutos que trouxeram a ponderação aplacadora da cólera, pensabundo mudei: antes do manifesto, fica por bem esperar as repercussões do fato. Certo estava que de um nada sucederia. Racismo é causa afundada nesta terra. Vai ninguém no nada ligar pra esse troço. Somos todos aqueles cegos dos piores e não vemos porque não queremos.

Foi tal o meu veredicto: Faliu a humanidade! Gente que discrimina e humilha gente, tal se este gente não fosse. Isso não cabe em moldura qualquer de razão.

Pois agora, após o curso dos dias, me vi alegroso na contrariedade: me parece que temos chance. Indícios no conforto de que humanidade tem ainda um seu jeito.

Houve denúncia. Polícia recebeu e imprensa noticiou. Ainda que minhas sobrancelhas se curvem na dúvida sobre o mérito, o clube dono da arena se ferrou expulso do torneio. Não sei mesmo se clubes devem pagar pela imbecilidade humana. Mas de um tudo somado, achei foi bom e pouco. Não é caso, por óbvio, de celebração desmedida. Idiotas ainda devem ser encrencados em sua idiotice.

Mas fato induvidoso é que muitos e maiores foram os indignados acenos solidários ao rapaz Aranha, atestando que a humanidade é projeto ainda viável. Provado viabilíssimo na postura do próprio goleirão, que declarou ter aprendido com o rap a ser preto e grande.

Minha gratidão é sua, Aranha, por soprar uns grãos de areia que farão mundo mais civilizado para vivência de minhas filhas.

Receba estas letras poucas de um caboclo em admiração da muita.

Tu és sujeitoso bonito demais da conta.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

noite de futebol do puro

por Edu Praça

Noite ontem foi dessas. Mata-mata acelera os corações e faz emergir estrelas em consagração. Copa é sempre Copa. Quem não nada era, nada tinha e pouco esperava, repente tudo rapa.

A Copa do Brasil viveu noite com futebol da mais genuína popularidade. Gols por demais. Viradas. Falta de luz e lampejos de gênios. Heroísmos e injustiças das muitas: cardápio completo dos melhores ingredientes em farta porção que fazem desse esporte o mais querido.

O retrato escrito embaixo enquadra partidas que tive logro de ver ou ao menos abiscoitar bons pedaços de emoção.

Nas entrâncias de Arapiraca-AL, mesmo jogando com turma reserva, o Cruzeiro carimbou favoritismo ante o surpreendente e digno Santa Rita. Presença surpreendente nestas oitavas de finais, os alagoanos sacaram mais surpresa ao vazar os azuis no primeiro tempo. Na segunda tranche, davia, tudo rolou na linha do previsível. Cruzeiro fechou o 2 a 1 da virada e, se bem somado com o primeiro embate, temos 7 a 1. Placar largo que brasileiro não vê plano de esquecer.

Após susto de queda frente ao Bragantino na ida, na volta o Timão não fez rogo para liquidar em logo sua fatura nas paragens de Itaquera. Enfiou três tentos rede adentro em filme de 20 minutos, com cenas roubadas por Renato Augusto. O Corinthians ainda cedeu honra de um tento à turma de Bragança, mas ficou na boa para rolar a pelota e engolfar o apito final classificatório com o placar de 3 a 1.

Não vi com atenção o que se deu lá nas alturas do Castelão, mas de um fato o incendiário de General Severiano celebrou demais da conta. Segundo consta, o jogo teve apitagem escorregosa de lama e lambança, mas sem viés. O Vozão era havido vencedor, por incríveis 3 tentos a 2, até os 49 do segundo tempo. Pois em dois minutos o Fogão logrou feito de empatar e virar com golaço em placa de André Bahia. O alvinegro da estrela solitária, que tinha perdido em casa por 2 a 1, garantiu seu salto à frente na competição. Placar final mostrou 4 a 3 com botafoguenses em justos pulos de suado heroísmo.

Cá no balneário, o Maraca também fez jus às suas épicas tradições e viu o Flamengo deixar rotas as vestes do improvável. Tinha caído por 3 a 0 para os coxas brancas em Curitiba e já ensaiava desculpas montadas no foco direcionado para o outro campeonato brasileiro. Não sem controvérsia, o juiz apontou a marca penal duas vezes e Alec converteu ambas, inflando esperanças da torcida. Mais um gol foi achado por Eduardo e o desfecho levado aos pênaltis.

A incompetência do boleiro brasilis para tiros na marca dos 11 metros é tão extremosa que faz assunto para outro texto. Fato sofrível é que a goleiragem fez festa. Dos 12 penais cobrados, apenas 5 encontraram as redes. Paulo Vitor felicíssimo nas defesas e no flerte com a fortuna. Flamengo verteu três tiros em gol, avança às quartas de finais e segue firmoso na ladeira da raça, desde que o já desgastado e desacreditado Luxa assumiu o comando da tropa.

Chamado às falas pela imprensa, o herói flamenguista Eduardo declarou: “No futebol tudo é possível”. De um fato. Óbvia boleiragem em forma de verdade.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

contra o buraco negro eleitoral

por Celso Fernandes Ribeiro

Nos jornalões e panfletos. Nos apitos do aparelho celular. Nas mais frequentadas redes virtuais e bodegas de esquina. Em todos os meios, é mensagem somente uma: a escolha do chefe da nação. Ou chefa, como indicam agora as roletas todas do bom senso.

Se este nosso povo não despavimentar o que parece estrada certa, teremos a lisonja de um duplo presente: o drible à dicotomia da máxima mesmice emoldurada por petês e tucanos, lançando estes de lambuja ao segundo cenário do coadjuvismo. Ainda que possam ostentar um resto de calibre decisório ante uma das candidaturas protagonistas no decisivo turno.

Mas não vejo hora de abordar as mumunhas muitas dessa disputa. Pelo antes inverso, venho sublinhar em traço de contrariedade o buraco negro eleitoral havido e vivido. Quero mesmo é desviar um tanto os olhares e orelhas do duelo central entre Dilma e Marina. Queiram entender o porquê.

Não vejo muito uns poucos volumes de ares inspirados ou suores derramados que não sejam em função da escolha presidencial. As tensões e atenções estão todas ali, atraídas àquelas duas mulheres-buraco-negro. Colados nelas, não deixamos luz ou tempo ou espaço para as importâncias do redor.
Em um desse quadro, soa como matéria de esquecimento que a eleição é ampla, geral e quase irrestrita.

Tenho cá que as casas do parlamento e os governos locais são os mais diretos mandatários de nossas demandas, ferramentosos governantes de nosso bem estar. Escola, esgoto, mobilidade e segurança são alguns exemplos de objetos da governação próxima. Redundo persistoso na prosa de que uns temas dessa grande importância estão sem destaque na pauta, em parte porque são vinculados à esfera local.

Mas não adianta: brasileiro faz encanto demais do ocupante da cadeira central do governo federal. Olha bem lá e longe, mas desdenha de sua cozinha.

Pois se me dão a chance de esboçar proposta de mudança institucional feita no buril do achismo, seria de boa função dar jeito de apartar as escolhas federais e locais. Reservar período eleitoral para as escolhas locais (governos de estado, deputados estaduais, prefeituras, vereadores) e juntar as escolhas federais em período outro (presidente e deputado federal). Senado pode entrar nas duas rodadas, já que o mandato é de oito anos, ora renovando um terço, ora renovando os outros dois terços.

Desse um jeito, conseguimos dispensar mais equilíbrio e atenção importante a tudo que importa.

Enquanto assim não é, caros amigos leitores, olhemos na sala grande para a briga entre Dilma e Marina, mas olhemos também em força de carinho pra nossa cozinha, onde é afinal cozido nosso rango e lavado o prato do amanhã, em que não teremos o condão de cuspir.