sábado, 3 de janeiro de 2015

lá se vai Guido, tocador e carregador de pianos

por Celso Fernandes Ribeiro

Coisa conhecida. É traço bem brasileiro do povo meu e nosso a zoação com todo alcance. Nem ninguém ou nada escapa. 

Nossa terra produz gente muita em respiro de dignas homenagens. Nas artes, nas ciências, nos esportes. Nas políticas até. Mas este não é país dado a reverências com os seus. 

Mesmo as gentes capturosas de admiração grande acabam em algum momento vestindo alvo das ofensivas e piadices. Pouco importa a dureza da sua obra. Tudo pode ser deitado fora num bobo tropeço de meio fio. Repente, realização rica vira pó. O sopro fácil da crítica chutadora de baldes espalha sem piedade os rótulos do desorgulho. E lá vai pedrada. Idiota. Incapaz. Apedeuta. Néscio. E lá vai pedrada.

Guido Mantega é gente no cume das importâncias. É caboclo tocador que todo maestro gosta. Pescoço enrolado na gravata da labuta, carregou e afinou os pianos pesados da orquestra estatal. Sob a batuta de Lula, foi encarregado da planejação. Quando o bicho pegou no BNDES, foi lá reapertar parafusos e arranjar umas cordas. Quando a confusão reinou na Fazenda, outra vez foi o caboclo designado para o reacerto de melodia e ritmo. Ali ficou até anteontem no edifício mais envidraçado da esplanada dos ministérios. E lá vai pedrada.

A economia andou bem. A economia andou mal. Pedrada.

Fato registroso é que os pecados de Guido se fiaram no excesso e nunca na falta. Ministrou ativo na promoção das políticas econômicas, via de regra calculadas nas planilhas das boas intenções que vez ou outra povoam o inferno.

Guido botou a turma pra trabalhar na toada do espírito público. Conduziu estratagemas criativos para estimular os setores produtivos. Pedrada. Articulou desoneração de impostos, concedeu subsídios, manejou gastos. Em mares de grande tormenta no capitalismo mundial, viu sua economia produzir celebroso nível de emprego e renda. Pedrada.

Nestes últimos tempos de teimoso fervor keynesiano, torrou decerto um bocado de grana. A conta ficou no vermelho. Pedrada. Mas nessa economia mundial que rasteja em busca de fôlego, contemos em dedos de uma mão os países grandes que andam operando no azul.

Se aqui carrego na tinta da aplauso, é pra fazer contraste ao hábito corrente de pintar tudo em cores desqualificosas de cinza e sangue.

Tenho cá que caboclo idiota não sustenta nove anos o tranco do comando de uma das maiores economias do mundo. Mas tudo tem sua hora chegada. O desgaste é natural como a necessidade de mudar os sentinelas das finanças. Os apedrejadores do tal mercado há tempos não gostavam mais dele. (Quer melhor credencial para os aplausos todos?) 

Guido pode agora se recolher e deitar descanso tranquilo na rede do dever cumprido (se bem que duvido que o sujeitoso ex-ministro não vá caçar novas sarnas para coçar num breve).

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