terça-feira, 26 de agosto de 2014

jornalismo curupira

por Celso Fernandes Ribeiro

Figura onipresente na vida das gentes: o jornalista.

Nesse metiê das mídias informativas e deformativas, já rareiam aqueles profissionais ministros do fato. Emergem gravosos os embaixadores da versão. Fazem jornal em papel de polêmica.

De ofício, revelam-se antes jornaleiros que jornalistas, dada função precípua de vender jornal.

Talvez sido sempre assim. Induvidosa realidade é que atual notícia vergou em cara pura de mercadoria. Se informação da boa já não entusiasma, o negócio é comerciar manchete.

Fica impressão que ninguém lê o jornal além das letronas. Ali no topo garrafal bonitão o sujeitoso jornalista bota o que quer o editor patrão. Interessa pouco se o composto textual de letrinhas que vem debaixo das letronas relativiza, desdistorce ou contradiz a própria cabeçalha. Ninguém dá trela às pequenas letras.

Por ora de exemplo, vivemos fase de corrida para escolha definidora das lideranças do presidir e do governar. O futuro querendo se avizinhar um tanto tímido e vergonhado, desejoso de ser ouvido num papo bom.

Davia, o jornalista planta pés à frente com cabeça e olhos girados atrás, como um Curupira às avessas.

Se vai abordar candidato, já busca logo a manchete. Vai reduzir ministérios? Quantos e quais? Mas então Fulano de Queirós é incompetente? E o caso Ciclano Garcia? Não sabia? É picareta ou inapetente? Usa entorpecentes? Nunca? Vai controlar inflação? Ou vai sustentar emprego e salário? Mas assim vossa senhoria põe em risco a estabilidade. Mas assado vossa senhoria arrocha mesa, cama e banho dos trabalhadores.

Junho de 13 foi havido e vivido como cena política monumental. As pautas estruturosas do bem estar residem ali. Cadê jornalistas a ligar alvo e seta?

A conceber por estes jornaleiros, o país não é afinal tão portador assim das coisas importantíssimas.

O Futuro anda se sentindo tão excluído do papo que flertou enamorado, na mesa ao lado, com o Não-Ser.





sexta-feira, 22 de agosto de 2014

ode à vitória da defesa

por Edu Praça

Numa contenda em guerra, é a peaozada rasa quem assume a linha de frente. Vidas na soleira da desimportância. No turno da peleja futebolística, de inverso, ali coincide quem primeiro põe cara a combate e quem embraça louros de artilharia.

O futebol é o festejo de lanceiros atacantes. São os donos das elevadas patentes, condecorados pelos cânticos da nação.

Ocioso redundar que o equilíbrio é traço de força determinoso dos times campeões. Sem sopro duvidoso de titubeio: uma infantaria de onze em campo de batalha precisa se fazer bloco compacto de forças audazes; os setores todos do campo precisam de sujeitosos hábeis na astúcia.

É num justo dizer afirmativo, porém: não há no encontro da História maiúscula uma equipe de alto desempenho sem pelo menos duas figuras de ação crucial, a saber, o guardião da meta e o zagueiro, este sempre em interdependência de dupla.

Não conheço talho de vitórias em time sem grande goleiro ou descomposto de zagueirudos trapalhões. São eles os generais e furriéis de toda parada: enxergam todo o tabuleiro e sustêm maestria nas artes do tempo. Dos tempíssimos e átimos para as ações e reações precisas.

Com estes, não há ocasião de falha e perdão tampouco.

Ontem foi dia desses. No Mineirão, a infantaria azul estrelada suplantou a retrancada trincheira armada pela trupe do Felipão. Não sem toda paciência e perspicácia.

Quem sorriu em capas de jornal foi Dagol, o autor do disparo capital.

Mas quem as luzes, câmaras e ações deveriam buscar são aqueles que levaram de um fato a vitória no lombo: Fábio, fiador das brechas e erros alheios, e o garçom mitológico Dedé.

O jogo era jogado: a turma gaúcha esperava o dono da casa e só saía em agudos contrataques. Construiu assim as mais efetivas chances da peleja e poderia até sair vencedora, não fosse a goleiragem de Fabio, o maior de todos, um monstro das difíceis intervenções flertando com as prodigiosas milagragens.

Numa ofensiva gremista, numa hora daquelas que só atende pelo nome agá, Dedé botou desarme cirúrgico, enfiou contrataque à direita e, em tabela com Alisson, recebeu à frente em zona que não se chama conforto. Correu passos com a pelota, desacelerou como o jamaicano Bolt a não querer radicalizar recordes, olhou e pensou quase a coçar queixo. Então entregou a glória em forma de esfera na cabeça do lanceiro roubador de brilho.

A infantaria azul estrelada segue firmosa na afinação das lideranças.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

sobre a queda de Eduardo

por Cuca Linhares

Num desse jeito, este blogue vai virar um obituário. Este ano da graça dos dois mil e catorze não parece em coisa boa. Amontoado de dias que não se cabem de tanto juntar partidas tristes.

Eu nem acho assim que a morte é instituto sempre assombroso e fedorento, levador de tristeza pura. Quando em ordem de passagem após punhadão bom de tempo em saúde de realizações, a morte pode ser vivida natural até com certo contente. Mas um evento fatal desfechado por acidente é de carcomer as têmporas em arrepio.

Pois veio ela mais outra vez, a morte matante, se avizinhando repente em cor de explosão.

Eduardo levado embora e junto com ele meia dúzia de caboclos gentes da fina. Tragédia grande daquelas de tornear a História toda.

Indago aos deuses meus nenhuns qual o sentido de obra desse naipe do destino. Há quem diga lá mesmo naquelas bandas do Pernambuco que o destino não é mais que o acaso atrevidamente empavonado em mania de grandezas. Acaso lapidado no dia escolhido: o mesmo 13 de agosto que cerrou olhos do velho Miguel Arraes, formoso líder chegado das esquerdices, altivo nas coisas da política e avô do Eduardo, este líder novo de uma vida política inteira que podia ter sido e que não foi.

Curioso que no dia próprio de todo desditoso infortúnio, tinha eu sido apresentado a toda família grande dos Campos, compartilhado sorrisos sinceros de empatia com a força de Renata, e apertado firme a mão do presidenciável candidato. Entrelinhas, claro: encontro feito somente por caso das letras pontiagudas da Daniela Pinheiro.

Minha leitura findou em forma de cumprimento sincero ao sujeitoso Eduardo, ainda que sem qualquer hipótese de traduzir em voto na contenda eleitoral iminente (pelo menos não agora, enquanto deitado ele numa rede esquisita que só vê direção de rebentar).

Para aquém do humano, posso justo até confessar que fiz choro de lágrima e tudo quando vi lançada na rede, a outra esta aqui em que me leem, uma fotografia de Eduardo com seu caçula, exuberando sorrisão de pai. Não deu pra não abraçar sujeito.

Eduardo era gente grande no alto das importâncias.

E o povo brasileiro nem sabia ainda (saberá jamais) dos bons motivos havidos, bem outros distintos daquele meu, para chorar essa ida sem volta.

Não vejo hora de falar analisativo dos estratagemas políticos burilados dessa tormenta. Dos descaminhos que se abrem mal traçados na corrida pelo poder. Isso é seara que meu amigo Celso de certo tomará conta mais própria em breve.

Fato registroso é que o caboclo Eduardo, ao cair botando fogo em quintal paulista – que não era o seu – desmatou campos concretos de engenhoso cultivo e anda queimando nervos muitos dos politiqueiros da paróquia.

Ali no baixio das mesquinhas humanices, tristeza torpe é ver ocorrência de velas e lágrimas tornada trivial ato eleitoral. Não o digo pelo povo, legitimado nesse proceder. Mas pelos lambedores de beiços de sempre.

Já saiu a primeira pesquisa boca de túmulo.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

a futebolização do pensamento e a guerrilha da razão

por Cuca Linhares

Sem lugar à dúvida derretedora do caráter, o futebol é a magia diabrosa que bota em xeque a verdade estabelecida nas ciências da vida aceita: será o sujeito homenzudo um animal racional?

A justa espécie homo sapiens sapiens se descobriu, no clímax de sua harmonia, bateria e evolução, um ser enfeitiçado. Que insondáveis mistérios faz um caboclo reto vestir pavilhão de clube social e entoar hinos de fidelidade que alguns não dispensam à própria dona patroa?

Meu time é melhor que o seu porque é meu. Isso é jogo de paixão. Controlar objetos é função de mãos e polegares opositores. Inventaram de fazer rolar a bola, tirando o pé do seu papel normal. Foi criado o esporte sensacional, guardadoso de toda surpresa. Jogo em que o pior (ou seja, o outro) pode vencer, deuses meus nenhuns!

Vestido de ingenuidade, achava eu que um dia os caboclos sapiens fossem tratar o jogo como jogo, esporte que é. Rivalidade dos fraternos. Alegria das puras.

Mas nada. Vergonhado de verdade, o que vejo é não só acirramento nos assuntos da bola, mas a futebolização de tudo quanto é assunto. Repente, todas as temáticas postas à mesa se tornam um jogo de paixão, tombando a razão em guerrilha.

Na política já não cabe crítica. Cada um tem seu time e torcida. Tudo ou nada. Petê não dá! Turmosa comedora de criancinha do caraio. Tem que acabar com essa raça que inventou a corrupção em nosso balneário brasilis! Tucanada é os fedepê da elite branca. Cambada de reaça hipócrita vai privatizar a senhora sua mãe e arrochar o salário dos apaniguados!

Nesse campo de guerrilha, é sim natureza nobre escolher um lado. Mas clamo a todos os deuses meus nenhuns, teria tudo no mundo apenas dois lados infundíveis e inconfundíveis!?

Tá foda! País divido e sem crítica é das piores lascaduras.