terça-feira, 17 de maio de 2016

nada está tão ruim...

por Celso Fernandes Ribeiro

Quedou mesmo na rasteira. O governo tombou afastado em golpe dado pelos próprios sócios de outrora. Na feiura da traição toda feito facada nas costas, o senado mandou a comandanta Dilma para casa até que sejam julgadas suas pedaladas.

Seria ladainha rezada no inútil repetir que o petê não tá pagando muito mais caro que a fatura plantada. Em doze anos no nome da tal governabilidade, o partido dos trabalhadores admitiu aceitoso um bocado das sujas barbaridades. Nessa uma toada de alianças, foi entregando anel por anel até que perdeu foi tudo que é juízo e dignidade junto com os dedos. Gente que se fia em Sarney vai mesmo acabar desenfiada por Cunha e Temer.

Bom, estamos combinados então que o petê, embaçado no deslumbre das vacas gordas e do vento em popa da era Lula, não fez o que devia ter feito nas searas da reforma política, da coragem econômica e meia dúzia de outras tarefas que poderiam ter levado esse um país do século dezenove ao vinte e um.

Davia, vamos cá combinar também que estar só e mal acompanhado não é bastante razão para que um governante mereça impedimento sem crime escancarado na evidência. Dilma foi eleita no voto limpo e caiu agora tão simplesmente pela perda de apoio no parlamento e na sociedade, tomados todos pelo antipetismo ensinado no dia a dia de tevês e jornalões. As tais pedaladas foram o pretexto achado para dar jeito de macular mulher vestida na seriedade.

O certo seria no assim: governo ruim a gente xinga, esperneia e aguenta quatro anos para tentar um melhor. Caso contrário, não resta regra de democracia para fazer respeito. Vira bagunça da pura.

No lamento dos infelizmentes, assim foi. O golpe parlamentar e midiático alçou o sujeitoso Temer ao poder máximo. Mal sabe ele que o golpe não foi mais que o primeiro passo calçado no insuficiente. Digo o passo menos difícil até. O presidente golpista vai ter que cavar sua legitimidade em terreno que margeia o impossível. Pesquisas já mostraram que sua rejeição é gigantosa. Ninguém sentado no bom senso vai reconhecer governo sem voto.

O presidente interino já assumiu cometendo patetadas. Rodeado pelos palacianos todos homens e todos brancos, fez um discurso medíocre e monótono clamando a comunhão nacional. Com seu lema “ordem e progresso”, fez logo mostra que o objetivo é fincar pé no século dezenove.

Como se não bastasse a cantilena esperada para agradar os deuses dos mercados e os lambedores de beiços de sempre, tascou inspirado uma frase de parachoque de caminhão: “Não fale em crise. Trabalhe”. Disse até que pretende levantar a confiança do país espalhando milhares de outdoors com essa frase.
Não falar pode mesmo compor um bom mote de um governo sem legitimidade. Vai que pega cola. Um convite para fazer da vida um exercício cego de fé e silêncio.

Não fale na crise. Logo, ela não existe.

Não fale na corrupção. Logo, ela não existe.

Não podia ser mais genial como estratégia desse naipe governo, não fosse o óbvio de que não vai dar certo. Não bastou mais que um dia útil de governo para que Temer conseguisse decepcionar até mesmo quem não esperava nada.

Resta claro que um lema mais apropriado ao arremedo de governo instalado à revelia do voto poderia ser: Nada está tão ruim que não possa piorar bastante.

terça-feira, 26 de abril de 2016

dia seguinte

Cuca Linhares

No enfim. Cá tomo volta depois de longo assento silenciado dessas letras. É que caminhar nas sombras do momento político pede apuro de olhos e ouvidos. No recente do tempo, gritar nas ruas e praças fez mais importância que essa minha conversa fiada de pensabundo.

Vê se não. Lá se vai uma boa centena e meia de dias e o disco não vira. De todo um jeito só querem mesmo é varrer o petê. Tudo que é indignoso grito ecoado em jornalões e tevês continuam cabendo num só partido político.

Resta claro que o petê ainda deve seu mea culpa pelos amasios todos com os lambedores de beiços de sempre. Feito em feira, vendeu nossos votos e uma dúzia de almas pro peemedebê, nos preços menores a cada xepa de mandato. Faltou a exercitosa autocrítica. Vendeu na baixa e agora paga caro.

Davia, isso não torce pelo menos três realidades. Uma, que o avanço civilizatório do país sob o petê é inegável. Outra, que esse um povo depositou escolha na continuidade do petismo no comando da máquina executiva. Apesar dos pesares todos, Dilma se revelou preferida por um mundo de povo cabreiro com as alternativas postas no ano catorze. E no terceiro, fato de que não pesa sobre a presidenta nem nenhumas desconfiosas acusações.

E se assim foi como foi, só cabe na regra que a chefa Dilma ganhou mais quatro anos pra mostrar serviço, a menos que se caia enrolosa em crime de responsabilidade sem morada na dúvida.

Mas já nem não querem saber. Os pastores da república rezam em livro que não é a constituição. Ensaiam seu golpe ao arrepio de regras. Na cumeeira da tragicomédia, a câmara virou igreja para aceitar impítiman sem pecado. Agora cabe ao senado montar o juízo final da coisa feia toda. Mas será mesmo esse juízo o final da novela e todos felizes para sempre?

Vamos então supor que a tese sem fundo da pedalada encontre morada também no senado federal. Vai que a Dilma tombe mesmo na rasteira baixa. E depois, nasce o sol do dia seguinte? Haverá aguardo de luz alguma e travessia firme em ponte pro futuro? Pois cá estes meus olhos que veem se veem perdidos na ceguice do breu.

Dizem uns que a mudança do governo gera choque de confiança sobre a economia. Sendo desenvolvimento tarefa de longo prazo, fico cá pensando que naipe de sujeito com dinheiro no bolso vai topar investimento grande se a turma no poder nem não respeita o calendário da democracia.

No registro da coisa curiosa, após o culto ecumênico de domingo 17 de abril, aquela tal lava jato e seu um juiz salvador da pátria desceu súbito das manchetes. Enquanto isso, a corte suprema deixa Seu Cunha desincomodado na chefia encomendosa do golpe e sem aguardo do julgamento de seus muitos crimes. Tribunal misericordioso.  De um fato, quando quer, um juiz é capaz de julgar na fração do segundo. Mas quando calha, faz de assento seus processos. 

Panelas silentes.

Cá estes meus olhos só alcançam barulhosas trevas.

Governo sem voto tomado de assalto sem agenda nem compromisso com o povo. Aprendi com o mestre o que meto nas aspas: “O avanço político, que é o mais difícil e importante de todos que logra o homem, faz-se aprendendo a administrar conflitos. Daí que só as sociedades democráticas o realizem com segurança.” Democracia sem povo é a bagunça desfilando namorosa na mão dada com o dia seguinte. Pura entropia sem o nenhum sentido.

Brasil tem mesmo essa uma mania histórica de consertar falha na política reduzindo a taxa de povo no processo. Típico de país que não  desacostumou  a ter donos. Pois tarefa de democracia dá trabalho. Não seria hora de proclamar a república?