quarta-feira, 14 de outubro de 2015

pedalando para o golpe

por Celso Fernandes Ribeiro

Como mal digo e bem repito: Brasil morada dos absurdos. De um novo me pega a angustiosa perplexidade. A gente tenta bocado não defender esse um governo, mas a turma da oposição não deixa. Cá em nossas bandas, o torto se faz aparecer direitoso, enquanto o certo se acua no medo cúmplice da politicagem feiosa.

No palco da política profissional, três atores encenam protagonudos o roteiro do golpe que quer de todo um jeito tirar a presidenta de seu posto e jogar o país no caos social e político que é tapete onde querem pisar os lambedores de beiços de sempre.

Aécio é nosso personagem número um. Senador há cinco anos sem qualquer serviço prestado em sua estada no Congresso. Nenhuma realização como senador. Corrupto sabido, é marcado pelas ausências no trabalho e as centenas de viagens semanais para o Rio de Janeiro, seja em jatos oficiais do governo das minhas minas gerais, seja em voos pagos pelo senado federal. É capaz, contudo, de plantar sorriso na dureza crua da cara de pau para detonar críticas à competência e à honra da presidenta eleita. Considera-se um predestinado a líder nacional. Pensa-se portador de algum direito divino, pois acha agora que eleição é questão menor. Quer ser presidente a todo custo e ao arrepio da democracia. Não restou destino outro: virou chacota em redes sociais. Basta um treinador de futebol sofrer ameaça de demissão para colocarem Aécio em disposição para assumir o posto. Perdeu o campeonato, mas quer levar no tapetão.

Manobrista supremo do tapetão é o senhor Eduardo Cunha, nosso segundo personagem. Presidente da casa legislativa, ganhou notoriedade pela habilidade típica dos donos da bola para votar e revotar matérias até obter o resultado pretendido. Taí sujeitoso que não aceita de um nenhum jeito o revés. Quando caboclo ingênuo acha que acabou o jogo, lá vem Cunha a sacar regras novas do bolso, a estipular prorrogações extras e disputas por pênaltis. Todo mundo sabe que ele é pé de valsa nas pistas de tretosas danças desde décadas atrás. Na cumeeira da arrogância, falou demais e deu bom dia pro cavalo. Foi pego na mentira com contas cheias de dinheiro sujo na Suiça e agora corre o risco de tombar. Fato é que o sujeitoso presidente da Câmara maquina o golpe junto com o ninho tucano e seus tentáculos que alcançam mídia, esseteéfe ou teceú.

Justo em cadeira ministrosa de teceú que se assenta o personagem terceiro. Até ontem, Augusto Nardes sentava a confortosa poltrona do semianonimato, mas resolveu se levantar altoso na oportunidade de “fazer história”. Ornou o jargão tucano das pedaladas para burilar a tese da reprovação das contas da presidenta e inventar ali um crime de responsabilidade.

Antes de mais nada, coisa tão importante como desconhecida é a configuração do teceú. Há quem pense, e não gente pouca, que se trata de turma vestida na neutralidade, obediente ao rigor técnico buscador da verdade, encabeçada por sujeitosos de notório saber admitidos por concurso público. Davia, a verdade mesmo é que o órgão flerta com institutos monárquicos muito pouco modernos e democráticos. Seus chefes são ex-políticos profissionais, partidários, que ganham de brinde cargo vitalício. E a verdade outra, em ainda mais doída e pouco disseminada, é que a chefatura atual do teceú conta com meia dúzia de caboclos manejosos da picareta em tretas muitas, enrolados em casos de corrupção. Pois são esses mesmos que estão cozinhando o caldo indigesto da deposição despropositada da presidenta.

Aí vem essa tal de pedalada. A mídia grande, pronta porta voz da oposição, naturalizou o golpe. Desinforma leitores e telespectadores que são obrigados a engolir sem mastigar essa ideia da pedalada. Pouca gente sabe bem do que se trata. Pouca gente sabe que é expediente administrativo usado e desabusado desde que mundo é mundo e que só um embaçamento muito grandoso e mal intencionado da realidade pode caracterizar pedalada como crime. Como é hábito da mídia criar verdades por repetição, vale repetir: não há nada, absolutamente-nada-novesfora-zero, que caracterize crime. Nem não há razão qualquer para impedimento. Tentam de todo um jeito pegar a presidenta na botija, mas o que ela não tem de traquejo político, sobra de honradez. Nunca a pegarão desse um jeito.

Mais uma vez, resta convocar os sujeitosos da oposição ao batente. Que tal tentar construir com trabalho sério o caminho para o poder? Esse um governo tem mão cheia de pontos fracos. É mais nobre, produtivo e inteligente sair desse moralismo monotemático e tragicômico. Será uma vitória recuperar a maturidade e a seriedade da oposição, em particular do peessedebê. Vamos deixar para disputar o poder novamente no ano dezoito. Melhor pra vocês. Melhor pro país.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

uma elite que se vitimiza

por Celso Fernandes Ribeiro

É de saber. Esse um nosso país é morada dos absurdos. Lugar da elite que vive o presente com a mente firmosa no passado. Assim nem não há tijolo e cimento de futuro a construir.

Brasil é terra partida. No início eram sobrados e mocambos. Casa grande e senzala. E depois sudeste e nordeste. Centro e periferia. Zona sul e zona norte. Asfalto e morro. Sala de estar e área de serviço. Em tudo quanto é canto que se põe olhos, lá está a fissura grande se fingindo tranquila. Cada um sabe seu lugar e nele se põe.

Brasil, terra partida. Nunca nem não foi repartida. Sobram casas, sobra chão, mas sobra gente sem teto e sem terra. Solo rural ou teto urbano cá não servem pras gentes todas e sim pras gentes poucas que fazem estoque de riqueza virar fluxo de dinheiro. A propriedade é dita direito com ou sem uso. Na cumeeira da injustiça toda, ricos ficam mais ricos a fazer renda fluir do nada para seus infinitos bolsos. É dinheiro a virar mais dinheiro, sem nada ter feito a não ser rio que corre pro mar.

Na esteira desses uns absurdos, rico paga menos imposto que pobre. O sistema tributário brasileiro é dos mais regressivos do mundo. Cá na terra partida, a boca do leão não prefere presa gorda. Vai no osso que nem igual em carnoso torresmo de barriga. Concentra seu poder guloso de arrecadação em impostos sobre consumo, enquanto reserva a etiqueta da moderação na hora das mordidas sobre renda e patrimônio.

Somos o único lugar do planeta onde pessoa física não paga imposto sobre lucros e dividendos de ações. Mais um jeito de fazer dinheiro virar mais dinheiro sem contrapartida social. Só isso aí já resolveria de um tapa a pendenga fiscal que o governo enfrenta no hoje. Isso sem contar os volumosos dinheiros surrupiados do caixa público pelos grandosos sonegadores.

Apesar de um tudo, a famigerada elite branca insiste em posar no quadro vergonhoso de vítima. Gritam contra o excesso de impostos, mas silenciam diante do abismo das desigualdades de oportunidades. Batem panelas contra a corrupção de um único partido, mas não assinam a carteira da empregada doméstica. Gritam contra o banditismo dos arrastões nas “nossas” praias, mas silenciam aquiescentes quando pretos e pobres são impedidos de ir e vir por incorrer no crime de ser preto e pobre. Deixam-se comover em indignosas reações quando tevês e jornalões denunciam a tragédia do assassínio de um bem nascido, mas não sentem falta nem não deitam lágrima para a tragédia das chacinas cotidianas na periferia. Preto e pobre são só números que não fazemos questão de contar.

Nossa elite tem o país como sua propriedade. Não se reconhece no nosso povo. Não assume nenhuma responsabilidade. Se comporta como vítima de um povo mal educado e improdutivo. “Por isso o país não cresce!”. Se esconde atrás do discurso anticorrupção para desqualificar políticas sociais. Se esconde atrás do discurso antiviolência para criminalizar pretos e pobres. O discurso do ódio é o discurso do óbvio. Todos somos contra a corrupção. Todos somos contra a violência. Isso não é bandeira que se hasteia em mastro de união.

O sistema social capitalista pressupõe e implica elites. O papel de uma elite decente compreende o mínimo de identidade com a nação. O exercício do poder em namoro com as aspirações do povo. Falta à nossa elite brasileira, desde sempre, uma mínima ideia de civilização. Uma elite que se vitimiza nem não pode ser elite.