sábado, 14 de março de 2015

no longo prazo, todos estaremos...

por Cuca Linhares


Bem melhor. Se não nós, dada a induvidosa fragilidade humana capaz de cair num qualquer atravessamento de rua ou apertamento de peito, que sejam então os caboclos pequenos em filhos e netos. De um fato é que precisamos ter capacidade de pensar longe.

No agá do hoje, não temos. Parece que só o a do agora rende importância. Fazemos só o pouco e o pequeno. O curtoprazismo é o mal grande do viver contemporâneo. Cá no meu achismo, esse um tal curtoprazismo é a ideologia pura do sistema em que nada é feito pra durar, nem a firmeza de um pensamento. O que é sólido desmancha em tevê e papel jornal.

A velha mídia velhaca faz de um tudo para vender conjuntura como se fosse estrutura. Confusão da toda.

Faz propaganda das bugingangas todas que nos cercam e mobilizam e se mandam trocar de tempo em tempo. Aparelhos, roupa, carro ou a foto da rede social, tudo quer mudar de um novo a toda hora. Gira é assim a roda da economia.

Falta é dizer onde queremos chegar como gente humana.

Se pulo pra esfera de uma sociedade-país, então faz hora de perguntar se temos projeto de longo prazo. O que queremos ser quando crescer? Ora, o destino de um país não há de caber em planilha de orçamento anual.

Peguemos no exemplo da política econômica. Ouço aqui e ali toda hora essa conversa do ajuste fiscal. Olhem se sou bobo demais: a turma do dinheirame ficou no casco da tensão questionando a austeridade do governo na administração da sua dívida ano passado. O governo botou a conta no vermelho, usou o cheque especial e nessa hora evocam a máxima da economia doméstica onde só se gasta o que se ganha.

A mídia bombardeou o mantra do governo perdulário e veio de pronto a tesoura do Levyatã para podar geral e plantar o desfolhoso jardim amarelo da recessão. Todos sabemos quem vai pagar essa conta.

Ora, esse pessoal faltou à aula básica que ensinou que, quando se trata de país, dívida é sinônimo de soberania. Faz preciso administrar o pendura conforme os interesses do povo inteiro e não de meia dúzia de financistas que se alimentam à base de recessão.

Ao contrário do que dizem, a dívida líquida do meu e nosso Brasil vai muito bem, obrigado. Mora em conforto ali na casa dos trinta e poucos por cento do PIB. Mas pois é: inventaram agora que a referência deve ser a dívida bruta, que soma todo e qualquer débito do Estado, mesmo se for um empréstimo que será devolvido com prazo estabelecido e, portanto, sem efeito líquido.

Gente precisa então perguntar é para quê um país faz dívida.

No Brasil recente, a dívida bruta cresceu para compor reservas em dólar e para injetar grana nos bancos públicos com dois objetivos: i) estimular a economia via investimentos de longo prazo e a manutenção do nível de emprego; ii) forçar concorrência para a queda dos juros cobrados pelos bancos privados.

Ambos os objetivos viram êxito, em maior ou menor grau.

Mas a mídia, sempre ela, é quem pauta do debate político e econômico no Brasil. A preocupação recorrente é dupla: vender mais jornal amanhã cedo e propagar a ideologia dos lambedores de beiços de sempre. Desse um jeito, fica parecendo que nosso grande projeto de nação é fazer o ajuste fiscal. A pauta midiática aprisiona.

Retomemos o fio: não se faz desenvolvimento sem visão de longo prazo. Desenvolvimento não caminha em sapato de conjuntura. Desenvolvimento é estrutura. Luneta para a visão míope vendida na mídia velhaca. O sistema nem não deve operar pela lógica do maior lucro amanhã, que distorce o propósito da construção do bem estar lá na frente. Mas a pauta midiática nos aprisiona ao diabo do curto prazo.

No longo prazo, espero estejamos livres.

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