quarta-feira, 25 de março de 2015

economia, matéria de amor

por Cuca Linhares


Vez ou outra vem caboclo indagoso querendo saber quando o trem da economia nacional vai engatar de um novo em trilhos de prosperidade. Minha resposta sempre encontra um interlocutor estranhoso em olhos semicerrados ou mesmo risudo na meia boca do deboche. Pois digo: economia é a engenharia humana do amor e do humor. Quando falta amor e humor, a depressão é destino certo.

Verdade contradita: na origem dos calos econômicos raramente se encontram sapatos estritamente econômicos. Nosso um país vive crise política marcada pelo inconformismo dos derrotados nas urnas. São os donos do bumbo e do trombone que lançam seus tentáculos na mídia para praticar ódio cotidianamente em telas de tevê e folhas de jornal.

No agá do hoje, ninguém enfia notícia boa na cabeça. Todo o corpo de gentes coreografado na dança do pessimismo. Se assim é, nem não adianta: não há um dono de dinheiros que vai empregar cifrões em investimento. Pelo contrário, essa uma turma vai se encontrar preocuposa nos clubes de cavalos ou nos mais finos salões para lamentar o ambiente de incertezas, o caos na gestão da coisa pública e a pesadíssima carga de impostos. Ali entre vinhos e canapés, duvidarão se o ministro Levy será capaz de levar a efeito um pacote de austeridade. Mas ajudando o sujeitoso ministro em sua tarefa, não podem decidir outra coisa: podar a produção e dispensar pobres diabos de seus postos de trabalho. Os salários, afinal de contas, estão altos demais da conta e o trem fora dos trilhos exige aperto de cintos.

Dinamismo econômico requer carisma e bom papo para seduzir o espírito animal dos dinheiros capitais. Economia é a arte de plantar amor e humor para colher emprego e renda. Esse um governo da dona Dilma não se mostra capaz de aplacar o ódio e o mau humor. É governo sisudo e de carranca fechada. Não conta piada, não assume seus erros. Não fabrica a leveza e os sorrisos se fecham em lábios bicudos.

Situação complicosa. Meus leitores poucos e bons sabem que os donos dos dinheiros capitais no Brasil são poucos e nem tão bons. Ou os donos do pibe estão atolados na lama da corrupção, ou estão embarcados na nau antigovernista que convence a nação de que essa mesma corrupção é mal recente e solúvel pela troca simples do governante de plantão. Entre os grandes fazedores de pibe, é só raiva no coração. Já não tiram de nenhum jeito o escorpião do bolso.

Resta crer que há horizonte belo sem nuvens. Aguardar por um céu mais azul e um governo mais inspirador, pois brasileiro não é povo para quietar o facho na desalegria. É preciso acabar com essa tristeza, é preciso inventar de novo o amor.

sábado, 14 de março de 2015

no longo prazo, todos estaremos...

por Cuca Linhares


Bem melhor. Se não nós, dada a induvidosa fragilidade humana capaz de cair num qualquer atravessamento de rua ou apertamento de peito, que sejam então os caboclos pequenos em filhos e netos. De um fato é que precisamos ter capacidade de pensar longe.

No agá do hoje, não temos. Parece que só o a do agora rende importância. Fazemos só o pouco e o pequeno. O curtoprazismo é o mal grande do viver contemporâneo. Cá no meu achismo, esse um tal curtoprazismo é a ideologia pura do sistema em que nada é feito pra durar, nem a firmeza de um pensamento. O que é sólido desmancha em tevê e papel jornal.

A velha mídia velhaca faz de um tudo para vender conjuntura como se fosse estrutura. Confusão da toda.

Faz propaganda das bugingangas todas que nos cercam e mobilizam e se mandam trocar de tempo em tempo. Aparelhos, roupa, carro ou a foto da rede social, tudo quer mudar de um novo a toda hora. Gira é assim a roda da economia.

Falta é dizer onde queremos chegar como gente humana.

Se pulo pra esfera de uma sociedade-país, então faz hora de perguntar se temos projeto de longo prazo. O que queremos ser quando crescer? Ora, o destino de um país não há de caber em planilha de orçamento anual.

Peguemos no exemplo da política econômica. Ouço aqui e ali toda hora essa conversa do ajuste fiscal. Olhem se sou bobo demais: a turma do dinheirame ficou no casco da tensão questionando a austeridade do governo na administração da sua dívida ano passado. O governo botou a conta no vermelho, usou o cheque especial e nessa hora evocam a máxima da economia doméstica onde só se gasta o que se ganha.

A mídia bombardeou o mantra do governo perdulário e veio de pronto a tesoura do Levyatã para podar geral e plantar o desfolhoso jardim amarelo da recessão. Todos sabemos quem vai pagar essa conta.

Ora, esse pessoal faltou à aula básica que ensinou que, quando se trata de país, dívida é sinônimo de soberania. Faz preciso administrar o pendura conforme os interesses do povo inteiro e não de meia dúzia de financistas que se alimentam à base de recessão.

Ao contrário do que dizem, a dívida líquida do meu e nosso Brasil vai muito bem, obrigado. Mora em conforto ali na casa dos trinta e poucos por cento do PIB. Mas pois é: inventaram agora que a referência deve ser a dívida bruta, que soma todo e qualquer débito do Estado, mesmo se for um empréstimo que será devolvido com prazo estabelecido e, portanto, sem efeito líquido.

Gente precisa então perguntar é para quê um país faz dívida.

No Brasil recente, a dívida bruta cresceu para compor reservas em dólar e para injetar grana nos bancos públicos com dois objetivos: i) estimular a economia via investimentos de longo prazo e a manutenção do nível de emprego; ii) forçar concorrência para a queda dos juros cobrados pelos bancos privados.

Ambos os objetivos viram êxito, em maior ou menor grau.

Mas a mídia, sempre ela, é quem pauta do debate político e econômico no Brasil. A preocupação recorrente é dupla: vender mais jornal amanhã cedo e propagar a ideologia dos lambedores de beiços de sempre. Desse um jeito, fica parecendo que nosso grande projeto de nação é fazer o ajuste fiscal. A pauta midiática aprisiona.

Retomemos o fio: não se faz desenvolvimento sem visão de longo prazo. Desenvolvimento não caminha em sapato de conjuntura. Desenvolvimento é estrutura. Luneta para a visão míope vendida na mídia velhaca. O sistema nem não deve operar pela lógica do maior lucro amanhã, que distorce o propósito da construção do bem estar lá na frente. Mas a pauta midiática nos aprisiona ao diabo do curto prazo.

No longo prazo, espero estejamos livres.

sábado, 7 de março de 2015

mudar para ficar tudo como está

por Cuca Linhares


Tudo em erro grande. Vou na carona do último texto de Celso para produzir achismo dos mais cheios de ismos: o papo da política anda fugindo às garras do essencial e se deixa abraçar pelo disputismo raso e pelo moralismo seletivo. Já dito e repetido neste blogue: arena do embate político virou contornos de futebol da paixão roxa.

De um lado, petê e petistas no pedestal alto de seu legado social a bradar que a corrupção é invenção de antes e outros. Como se essa verdade os eximisse de descer os pés no chão da autocrítica para reformar-se. Refundar-se, defenderiam alguns.

Do lado oposto, a sanha odiosa e odienta do antipetismo em babas de gritos contra a corrupção supostamente institucionalizada pelo partido governista. Como se essa mentira eximisse a turma de alguma proposta concreta para a reforma institucional do sistema. Vivem da tacação de pedra mas não se apresentam para reformar um vitral. Querem apenas tomar a casa de assalto.

Bem no meio disso tudo, o oligopólio da mídia velha e velhaca que joga no time do antipetismo e vicia o debate no alimento da antipolítica, sem lançar à mesa as alternativas de transformação institucional para que possamos discutir. A pegada é moralista mas não é moralizante.

Ora, as mais antigas carochices dão conta de que a corrupção é mal sistêmico.  A retórica só moralista para colar malvadices e semvergonhices num ou noutro ceenepejota ou cepeéfe é a armadilha de quem não quer por em pauta o que realmente importa: colocar em xeque os mecanismos que sustentam a corrupção como endemia.

O debate público infantoso sobre quem registrou a patente da corrupção é inócuo para a sociedade. Importa mesmo é medir conteúdo e energia política necessários para construir iniciativa de transformação dessa realidade.

Sabido: brasileiro é bicho que não liga para o Legislativo e prefere lançar as flechas da crítica ao Executivo, principalmente o federal. Metade da Câmara (ou mais), ainda que eleita pelo povo, está a serviço de corporações que financiaram sua campanha. Como poderíamos resgatar os deputados a trabalhar para nós? Será que eles estão dispostos a acabar com os dutos de irrigação dinheirosa da corrupção? Essas são as questões algumas que não se fazem por aí.

A grande mídia não traz à luz o debate sério sobre reforma política. Lembrando que isso é coisa viável só em cedo alvorecer de mandato. Daqui a pouco terá anoitecido mais um mandato, e os gatos eleitos de plantão acabam sempre todos pardos entrando no mesmo balaio do imobilismo, preocupados somente em obter mais um mandato, prometendo de um novo o que não fizeram no atual.

Assim eu sei que esse BaVi politiqueiro ecoado em mantra pela velha mídia de massa no Brasil tem um só de propósito: apear o petê e restabelecer o poder central aos lambedores de beiços de antanho, peritos nas artimanhas de manter suas sujeiras sob os panos.

Cabe então desmistificar essa conversa muita da fiada que transformou a corrupção na principal agenda nacional.

Do jeito que está por aí o rumo tomado da prosa, o de propósito é aquele que marca a história deste meu e nosso país Brasil: mudar para manter tudo como está.

segunda-feira, 2 de março de 2015

velha mídia e o golpe da indignação seletiva

por Celso Fernandes Ribeiro

Quase nem não tenho jeito de saber. Qual das raivezas martela mais o pesar dos sentimentos? O petê que se esvai paulatino como um partido qualquer dos mais velhacos, se deixando atolar na lama do apontar de dedos cínicos para seus detratores? Ou estes mesmos detratores, máquinas de escrever estripulias golpistas e sonegações de verdades para apear o petê do poder? Coisa bonita não está.

Seria até veramente bacana se a grande e velha mídia colocasse aqui em pauta um verdadeiro debate sobre as mazelas da corrupção, sem o roteiro novelesco de mocinhos e bandidos. Caberia aí um papo de certo viés sociológico, a discutir sobre o enraizamento da corrupção nas sociedades capitalistas em geral e na sociedade brasileira em particular, onde o nível feudal de desigualdade aguça os vícios de um sistema que bota caboclo contra caboclo e se alimenta da emulação entre aqueles que têm mais bugingangas e aqueles que as querem ter, mesmo sem querer.

De outro lado, caberia talvez um papo sobre os sujeitosos furadores de fila e de sinal vermelho. Os sonegadores de impostos pessoas físicas e jurídicas. Os profissionais liberais que vendem recibos. Os apologistas todos do jeitinho. Os caboclos bem educados que aprenderam desde criançudo a cuidar da casa sua, mas que a rua é de ninguém e desmerece cuidados.

E se o foco recai sobre o mundo da política profissional das coisas do estado, caberia fundo um papo sobre a turma que mobiliza milhões de dinheiros em campanhas eleitorais, para depois cobrar a fatura dos seus eleitos.

Davia, debate não se dá. É carga da munição toda que alveja um corpo só: o mal tem nome e se chama petê. Na Petrobras, aqueles sujeitosos senhores funcionários de carreira e já com posições importantes na empresa antes do ano dois mil e três eram brilhosos homens de bem até que, repente, veio o petê e lançou neles o feitiço dos malvados roubadores.

As picaretagens contábeis da campanha do petê lá atrás foram julgadas por tribunal independente e autônomo de teorias e práticas. Um bocado de gente da cúpula petista sentou visita na cadeia. A polícia federal e os procuradores parecem trabalhar como querem para esmiuçar fatos e feitos do petê. Mas e os inventores do esquema lá em minha terra mineira, que pesadas flechas nossa imprensa lançou contra eles?

Por issos que, cá pra mim, as tretas todas envolvendo o petê só fazem afirmar que as coisas do combate à corrupção andam até em marcha de melhora. Melhora seletiva, resta claro, pois um baronato inteiro continua inatacável a lamber beiços. Ou algum dos meu poucos e bons leitores vestiriam a peruca ruiva da ingenuidade para verberar essa conversa fiada de que o petê inventou a corrupção?

Sou crítico fudido do petê, o partido que cresceu demais e chegou lá em cima para deitar joelhos às mesmas práticas que babava gritos para negar na origem. Minha crítica é soco ainda mais violento na cara deste um governo perdido em rumo nenhum só de fracasso econômico e político.

Assim ainda, esse é o petê que na minha malfeita conta reúne maior número de bons quadros políticos nessa caldeira destemperada de partidos brasileiros. Conta feita em caneta vermelha, resta claro.

Aí quem, como eu, enxerga o mundo com mais nitidez pelo olho esquerdo, acaba obrigado a atenuar as críticas por sacar que a pauta forçada da grande mídia é usar a indignação seletiva como ferramenta de manobra para a volta ao passado. Não vemos o mesmo entusiasmo para pichar desmandos de autoria outra. A cantilena midiática é tocada no tom do golpe. Querem de todo jeito vestir a faixa verde-amarela no senhor Temer. Ó se não é de beleza: o peemedebismo a recobrar a moralidade da política. Ó se não é o restauro do poder aos lambedores de beiços de sempre.

Mudar é bom se for na urna ou se for pra melhor. De um fato, precisamos é de mais e melhores fontes da informação. Isso sim. Driblar essa mistificação do mundo político gritada todo dia em letras de manchete.

Impitiman é meuzovo.