domingo, 19 de outubro de 2014

copo meio vazio (ou a dança do pessimismo engajado)

por Cuca Linhares

É de escalar as ladeiras do impressionante. Reclamoso, vou me meter de novo na treta do jornalismo. Desta vez, sentar achismos na cadeira do econômico.

A economia já costuma ser refeição pesada de digerir. E tem gente graúda que faz questão de botar mais caroço nesse angu de rapa, que é pra ninguém engolir mesmo.

Mas não adianta. Aprendi um cadim do economismo. Uns sujeitosos caboclos lá das Minas Gerais trataram de me ensinar tudinho. Recebi os princípios do conhecimento prudente para uma vida decente. Passeei na vanguarda do saber acadêmico até descobrir que o saber, quem sabe mesmo é o humilde caboclo vivedor. Porque este sabe de si e dos seus apertosos calos.

Pois então. Jornal virou mesmo panfleto de partido político a torcer realidades. Mas nem é aí onde assopro a corneta do problema. Sou de considerar muito nobre quando um noticioso periódico publica sua preferência nos cardápios eleitorais. Davia, um fato é que não há mais que meia dúzia de proprietários das mídias de mais amplo alcance neste nosso Brasil. Hipócritas na alegação de isenção, dabitude não se revelam preferidores deste ou daquele candidato. Meia dúzia de ovos postos num cesto só. Ali na cozinha malocados no armário da direita.

Vivemos jornalismo de manchete. Aquele que tem capacidade de fazer notícia boa virar tragédia com fins politiqueiros.

Quero cá me deitar num só exemplo demonstroso desse estratagema midiático.

Não teve um cabimento o tal tipo de matéria que encontrei num dançar maiúsculo de manchetes. Um jornalão publicou ontem “Geração de emprego tem pior resultado em 13 anos”. Outro diário mandou “Emprego tem pior setembro desde 2001”. E para finalizar a orquestra, um terceiro potente órgão de imprensa ratificou “País tem menor geração de empregos formais desde 2001”.

O sujeitoso que engole essas manchetes na talagada feito cachaça boa, conclui de pronto que o país vive uma crise no mercado de trabalho. Porém, o leitor mais atento vai franzir testa e botar indagação. Como pode isso se o governo canta aos quatro ventos que o desemprego deixou de ser fantasma assombroso? Quem está mentindo?

Aí é onde mora todo ardil: incrivelmente, ninguém está mentindo. Simplesmente os editores escolheram pintar em cinza um céu que podia ser azul claro. Não é difícil explicar o óbvio do disparate. O próprio texto que segue a manchete esclarece que foram geradas um milhão de novas vagas formais nos nove primeiros meses do ano. Isso é notícia boa para fazer nenhum caboclo botar defeito. O seu e o meu Brasil tem no agá do hoje uma taxa de desemprego beijando ali os cinco por cento. A mais baixa da nossa destrambelhada história.

Nada mais natural, portanto, que a geração absoluta de empregos seja menor. Se já tá quase todo mundo empregado, nem tem como gerar muitos mais postos de trabalho. Dito em outras palavras, o que importa mesmo não é o número absoluto de empregos gerados em um determinado mês, mas sim importa saber se esse montante de empego gerado é capaz de absorver os caboclos trabalhadores que entram a procurar labuta no mercado de trabalho. Na matemática do trivial, quanto menor o desemprego, menor será a geração de emprego necessária para dar conta dos novos entrantes.

Mas os jornalões continuam a praticar a máxima pela qual notícia ruim vende mais. Ainda mais se o alvo é o Petê.

Pela similitude das manchetes, parece até coisa de trato feito. Todas a enunciar somente a parte meio vazia do copo. Não sobra gota de dúvida que dia vinte e seis é o mais importante do ano. Faço espera que a metade cheia do copo seja de água com açúcar. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

que faz um senador?

por Edu Praça

Tô em peleja com meu amigo Celso e me meto agora no falatório da política. É que ares do futebol andam circundando a atmosfera eleitoral.

Os ventos do racional sopram tão longe da vela politiqueira que eleitor virou torcedor de arquibancada. Gritoso no estufar do peito, mas esquecido que voto é menos pulmão que consciência.

Costurando a linha da concordância, Celso e eu achamos que um desse povo deveria lançar mais panela de pressão nas outras cozinhas da politicagem oficial. Falo do parlamento e das assembleias, que é em verdade o escritório das nossas mais vivas necessidades e deveria ser a antessala das nossas mais imediatas lamúrias.

Brasileiro é povo centroso que não gosta de dividir responsabilidade. Candidato a presidente sabe que, se escolhido, herda de um pronto todos os pecados da humanidade. Se o time do Felipão dançou sacudido frente à artilharia alemã, sabemos claro que a culpa foi da presidenta. Desse um jeito, pouco ou nada cobramos dos excelentosos deputados e senadores.

Ora, vejam se minha incomodação não faz um bico de sentido. O atual candidato tucano à presidência tem larga vivência nos corredores da política. É senador da república que exibe vanglória de ter sido cunhado em preparo para esquentar a mais importante cadeira da nação. Devo esperar que um tal sujeitoso senador tenha ideias para a lapidação da república. Passo além das ideias, um senador tem poder. Teve o mineiro queijo e faca para lançar ao parlamento suas ideias de um país melhorado.

Mas então um caboclo cidadão vai lá no saite do Senado curiosar e bate a cara na frustração: o distinto senador nada aprovou. Propostas nenhumas no galho da relevância. Quatro anos de inatividade.

Cá me resta a pensamentosa conclusão de que não cai possível deixar voto no senhor Aecio.

Quem sabe é caso de pedir gentileza ao Senhor Palhaço Tiririca, agora escolado de reeleição, que conte à Excelência Neves o que se faz no Parlamento.