por Cuca Linhares
É de escalar as ladeiras do
impressionante. Reclamoso, vou me meter de novo na treta do jornalismo. Desta
vez, sentar achismos na cadeira do econômico.
A economia já costuma ser refeição
pesada de digerir. E tem gente graúda que faz questão de botar mais caroço
nesse angu de rapa, que é pra ninguém engolir mesmo.
Mas não adianta. Aprendi um cadim do economismo. Uns sujeitosos
caboclos lá das Minas Gerais trataram de me ensinar tudinho. Recebi os
princípios do conhecimento prudente para uma vida decente. Passeei na vanguarda
do saber acadêmico até descobrir que o saber, quem sabe mesmo é o humilde caboclo vivedor.
Porque este sabe de si e dos seus apertosos calos.
Pois então. Jornal virou mesmo
panfleto de partido político a torcer realidades. Mas nem é aí onde assopro a corneta do problema.
Sou de considerar muito nobre quando um noticioso periódico publica sua
preferência nos cardápios eleitorais. Davia, um fato é que não há mais que meia
dúzia de proprietários das mídias de mais amplo alcance neste nosso Brasil. Hipócritas na alegação de isenção, dabitude não se revelam
preferidores deste ou daquele candidato. Meia dúzia de ovos postos num cesto só. Ali na cozinha malocados no armário da direita.
Vivemos jornalismo de manchete. Aquele que tem capacidade de fazer notícia boa virar tragédia com fins politiqueiros.
Quero cá me deitar num só exemplo
demonstroso desse estratagema midiático.
Não teve um cabimento o tal tipo
de matéria que encontrei num dançar maiúsculo de manchetes. Um jornalão
publicou ontem “Geração de emprego tem pior resultado em 13 anos”. Outro diário
mandou “Emprego tem pior setembro desde 2001”. E para finalizar a orquestra, um
terceiro potente órgão de imprensa ratificou “País tem menor geração de
empregos formais desde 2001”.
O sujeitoso que engole essas manchetes
na talagada feito cachaça boa, conclui de pronto que o país vive uma crise no
mercado de trabalho. Porém, o leitor mais atento vai franzir testa e botar indagação.
Como pode isso se o governo canta aos quatro ventos que o desemprego deixou de
ser fantasma assombroso? Quem está mentindo?
Aí é onde mora todo ardil: incrivelmente,
ninguém está mentindo. Simplesmente os editores escolheram pintar em cinza um
céu que podia ser azul claro. Não é difícil explicar o óbvio do disparate. O
próprio texto que segue a manchete esclarece que foram geradas um milhão de
novas vagas formais nos nove primeiros meses do ano. Isso é notícia boa para fazer
nenhum caboclo botar defeito. O seu e o meu Brasil tem no agá do hoje uma taxa
de desemprego beijando ali os cinco por cento. A mais baixa da nossa
destrambelhada história.
Nada mais natural, portanto, que a
geração absoluta de empregos seja menor. Se já tá quase todo mundo empregado,
nem tem como gerar muitos mais postos de trabalho. Dito em outras palavras, o
que importa mesmo não é o número absoluto de empregos gerados em um determinado
mês, mas sim importa saber se esse montante de empego gerado é capaz de
absorver os caboclos trabalhadores que entram a procurar labuta no mercado de
trabalho. Na matemática do trivial, quanto menor o desemprego, menor será a geração de emprego necessária
para dar conta dos novos entrantes.
Mas os jornalões continuam a
praticar a máxima pela qual notícia ruim vende mais. Ainda mais se o alvo é o
Petê.
Pela similitude das manchetes,
parece até coisa de trato feito. Todas a enunciar somente a parte meio vazia do
copo. Não sobra gota de dúvida que dia vinte e seis é o mais importante do ano.
Faço espera que a metade cheia do copo seja de água com açúcar.