por Cuca Linhares
Ó se não é isso mesmo. Brasil nem
não passou de ano. Fico eu lembroso da infância escolar, desolado na tristeza
de viver amiguinhos em contramão no curso do tempo, presos no ano anterior. Recuperação.
Segunda época. No agá do hoje, o Brasil desanda assim: pisa pé fincado no ano
que passou.
Os sujeitosos cabeças da política
de oposição querem de um todo jeito a cabeça da comandanta. Trégua nenhuma
levanta bandeira de presença. A comandanta eleita, por seu turno, prospera no
ofício de não comandar. A comandanta foi escolhida pelo povo no propósito de
desarmar a bomba do arrocho, recolocando o trem nos trilhos sem maiores dores. Davia,
nenhum plano crível se apresentou. Agora age feito aquele um sociólogo que, no
seu tempo de comandante, tratou de deitar joelhos à cartilha neoliberal e pediu
para esquecermos sua obra e seus escritos de outrora.
De tanto querer, parimos a tal
crise funda somada na política e na economia. E aqueles todos a quem o bom
senso chama para tapar o buraco só fazem cavar mais e mais. Nem não precisa o
peagadê nas ciências todas da economia política e da política econômica. Nem
não precisa mais que sentar na cadeira do bom senso para fazer certeza que o
tal ajuste numa economia que andava de lado só iria desajustar tudo de vez.
Minha uma visão nos óculos do
achismo é de perplexidade da pura. Tudo no redor caminha entre o óbvio e o
ridículo.
É óbvio que devemos mirar uma
trajetória de estabilidade do endividamento público. É ridícula a ideia de que
o país se encontra na beira da insolvência com a dívida líquida morando abaixo
dos quarenta por cento do pibe. É óbvio que o pibe vai tropeçar e rolar ladeira
abaixo se o Estado não exercer agora-mais-do-que-nunca a capacidade de
investimento. É ridículo querer resolver o desacerto fiscal só sacando a
tesoura no pano da despesa e jogando o peso do ajuste em cima dos mais pobres. Óbvio
que a pressão inflacionária não decorre de excesso de demanda. Ridículo querer
aliviar essa pressão com injeção letal de juros. É óbvio que há espaço gordo de
arrecadação em intervenções cirúrgicas no nosso ultra regressivo sistema
tributário, por exemplo, voltando a taxar lucros e dividendos. É ridículo que o
desgoverno da comandanta apresente fragmentos de soluções que logo somem na
fumaça da própria fragilidade.
Óbvio que é papel do planejamento
levantar a mão acendosa da luz que há de haver no final do túnel. Ridículo não
demitir o cabeça da fazenda que boicota qualquer tentativa de ajuste “por cima”, jogando a conta toda pra quem menos pode pagar.
Óbvio que se deve resistir aos cortes no social. Ridículo o chefe da casa civil
não cumprir a contento seu papel no manejo concatenoso da política para produzir
ambiente de novo arranque econômico. É óbvio que se a redenção repousa em
figuras como Calheiros ou Katia Abreu, estamos mesmo escolhendo, diante do
abismo, dar um passo à frente.
Óbvio que a coisa anda feiosa no
escuro da rua sem saída. Ridículo que o governo se deixe refém de gente em
naipe de Cunha ou Aecio, corruptos sabidos e ressabidos no manuseio da
picareta. Na ponta toda dessa contradição, estamos paralisados por um turbilhão
em que a política avacalha a economia, que arrasta de volta o cenário político
pruma noite sem sono e sem fim.
Este um governo é pura
desarticulação. Impressão toda é que ninguém faz ideia de nada. Não tem
unidade. Ninguém se fala. Sem uma carta na manga, a comandanta deixa os
inimigos no domínio do jogo. Falta pra nós uma ideia. Uma ideia de Brasil.