sábado, 25 de julho de 2015

pobre família Odebrecht (ou espantoso Brasil novo)

por Celso Fernandes Ribeiro


Notícia um tanto curiosa para saltar manchetosa em cabeça de jornal. Entre as mais lidas do dia encontrava-se, com destaques de babado forte, o enunciado em tudo simpludo de que a parentada da família Odebrecht, nas visitas a seu querido ente Marcelo na prisão, deverá se submeter à revista de praxe na entrada. Enunciado assim, em letras tonalizadas na surpresa, como se o esperado fosse um tratamento diferenciado, algo no como de uma lista vip com direito a camarote uai-fai e combo de uísque e redibul.

Só mesmo em país abismoso feito esse Brasil é que assunto assim na rabeira óbvia da desimportância ganha audiência de coisa extraordinária.

Por óbvio, a revista em porta de cadeia existe no propósito de evitar a entrada de objetos indevidos. Os artigos mais comuns são os telefones celulares e ferramentas de fuga. Há até as arriscosas gentes compenetradas na capacidade de inserir tais objetos em genitálias e retos.

Resta claro que uma dessa revista não é naipe de experiência das mais bacanudas e pode mesmo acabar em cena vexatória, no flerte com a indignidade.

De todo um modo, apertando a mão do não obstante, me sobra a indagosa ingenuidade: seriam as regras e a lei aplicosas somente aos familiares e visitantes da massa de pobres e pretos coitados que costumeiramente habitam o cárcere?

Ouço são ecos típicos de um país que guarda na raiz o valor cultivado de uma certeza: desonestidade é inclinação das gentes pobres. Os procedimentos comuns da república não são feitos pras delicadezas dos sujeitosos senhores de elite. Não combinam com os modos da casa grande.

Fato é que assistimos a um Brasil novo capaz de enjaular figuras carimbadas da elite etiquetada. O ferro pela primeira vez fere corrupto e corruptor. É de provocar espanto na malandragem.

Convenhamos cá, considerando que essa Lava Jato é uma operação cheia de investidas seletivas e apropriações moralistas por parte de uma mídia engajada em derrubar o governo da ocasião, ver essa turmosa endinheirada visitando o xilindró não deixa de ser uma face democrática da nossa feiosa realidade. Pobre família Odebrecht. Tratada feito pobre.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

cortando o mal pelo tronco

por Celso Fernandes Ribeiro

A clivagem política que o Brasil vive no hoje é fenômeno cheio do curioso. O que aparece amiúde é caboclo político calhorda sem assento na vergonha posando para a foto do bom costume. Na oposição ao governo eleito, pouco se vê além das patetadas moralistas. A turma que guardou e guarda o Brasil na mala cheia da desigualdade desde a chegada do Pedro Álvares continua a aspirar ao centro do poder reclamado como um direito divino, pouco importosa se descalça de votos e sem projeto qualquer de alternativa civilizatória.

Na cabeça pequenuda dessa turma, o Planalto é como uma de suas fazendas que foi invadida e agora caberia chamada de milicos para reintegração da posse a braço de força.

Para não variar, as pedras são jogadas todas no poder executivo e, friso no dizer, algumas muito no alvo certo do merecimento. Mas convenhamos se não cabe mirada de um ou dois desconfiosos olhos nos outros três poderes da nossa vilipendiada república: legislativo, judiciário e midiático.

O Parlamento caiu joelhos aos prepostos e impostores de bíblia no suvaco ou de boiada e eleitorado no curral. É esse o reboco mal ajambrado da atual casa do povo. Na tese de um esgarçado tecido de retalhosas alianças, o governo tem uma ampla base de apoio. De um fato é que com uma base de apoio dessas, não há governo que precise de inimigos.

A turma da toga trabalha pouco e deu de selecionar vítimas pelas cores. A penada dos doutos senhores só cobra tenência de pretos e vermelhos.

De último e não somenos importância, a mídia. Poder grandoso operado por fora da carta constitucional, a mídia grande e oligopolizada legitima e reproduz os matizes daquela torpe seleção rubro-negra. Nas poucas redações e editorias, um peti comitê se põe às falas para decidir o que publicar, o tom da pajelança, o que vaza e o que não vaza. Definem quais escândalos se merecem grandes a fazer gritar indignosas vozes dos homens de bem.

Resta claro que, nas moradas dessa turma dona do poder não executivo, os telhados de vidro são blindados. Ruim de quebrar. Fazem, desfazem e refazem o que bem entendem sem atenção grande dos guardiães da ordem de direito.

Voltando ao parlamento, ali se discute o ritmo da marcha à ré. Usam a estratégia de pautar matérias que pareciam superadas no século dezenove para que todo mundo acabe achando de bom não botar pé fora do século vinte. 

De um fato, a casa legislativa anda muito da mal habitada. Embalada em comando pelo presidente Cunha, tem cabido toda sorte de manobras descabidas. A frieza infantiloide do dono da bola tem conseguido procedimentos mágicos para votar e revotar matérias até que se obtenha o resultado desejado.

Financiamento de campanha. Maioridade penal. O fazedor de política mostra a seu povo o grande talento de cortar o mal sempre... pelo tronco. Falta visita à raiz.