Notícia um tanto curiosa para
saltar manchetosa em cabeça de jornal. Entre as mais lidas do dia
encontrava-se, com destaques de babado forte, o enunciado em tudo simpludo de que a parentada
da família Odebrecht, nas visitas a seu querido ente Marcelo na prisão, deverá se
submeter à revista de praxe na entrada. Enunciado assim, em letras tonalizadas
na surpresa, como se o esperado fosse um tratamento diferenciado, algo no como
de uma lista vip com direito a camarote uai-fai e combo de uísque e redibul.
Só mesmo em país abismoso feito
esse Brasil é que assunto assim na rabeira óbvia da desimportância ganha
audiência de coisa extraordinária.
Por óbvio, a revista em porta de
cadeia existe no propósito de evitar a entrada de objetos indevidos. Os artigos
mais comuns são os telefones celulares e ferramentas de fuga. Há até as arriscosas
gentes compenetradas na capacidade de inserir tais objetos em genitálias e
retos.
Resta claro que uma dessa revista
não é naipe de experiência das mais bacanudas e pode mesmo acabar em cena
vexatória, no flerte com a indignidade.
De todo um modo, apertando a mão
do não obstante, me sobra a indagosa ingenuidade: seriam as regras e a lei aplicosas
somente aos familiares e visitantes da massa de pobres e pretos coitados que
costumeiramente habitam o cárcere?
Ouço são ecos típicos de um país
que guarda na raiz o valor cultivado de uma certeza: desonestidade é inclinação das gentes pobres. Os procedimentos comuns da república não são
feitos pras delicadezas dos sujeitosos senhores de elite. Não combinam com os
modos da casa grande.
Fato é que assistimos a um Brasil
novo capaz de enjaular figuras carimbadas da elite etiquetada. O ferro pela
primeira vez fere corrupto e corruptor. É de provocar espanto na malandragem.
Convenhamos cá, considerando que essa
Lava Jato é uma operação cheia de investidas seletivas e apropriações
moralistas por parte de uma mídia engajada em derrubar o governo da ocasião,
ver essa turmosa endinheirada visitando o xilindró não deixa de ser uma face
democrática da nossa feiosa realidade. Pobre família Odebrecht. Tratada feito pobre.