segunda-feira, 27 de abril de 2015

a cara da Câmara (breve análise da casa legislativa em uma votação)

por Cuca Linhares


Há coisa de uma semana os sujeitosos deputados federais passaram adiante projeto de lei queroso de permitir terceirização de tudo quanto é trabalho. Se ratificada em lei, mesmo aquelas lidas e costuras essenciais e relacionadas à importância central da empresa poderão ser subcontratadas.

Ora bem sabido é que subcontratação é o prenome do precário. Subtração de direitos fundados e consolidados no terreno trabalhista. Em sociedade feito a nossa, com história pendurada na desigualdade muito feiosa e resistente, as garantias ao trabalhador foram firme passo civilizatório. Não será bem-vindo e bem visto esse cambaleio de meia volta.

Sem contar que essa é manobra política em todo arriscada. Ceeletê é que nem assim: escritura sagrada. O caboclo trabalhador já nasce sabendo que vai ter direito. Abuso além da conta de atrevimento de quem arredar uma vírgula nesse texto. Povo chia feito peito em asma.

E que pensam diachos de empresários para não querer o mínimo de confortosa estabilidade nem mesmo para seus fundamentosos empregados!? Que fechem seus botecos porque assim não há garçom que sirva.

Mas para além da minha indignosa visão sobre o tal projeto, quero mesmo é revelar qual minha boca aberta em surpresa ao ver, no placar do plenário, quem votou como. Trago cá um retrato breve da nossa casa legislativa e das malucosas conclusões que podemos tirar de uma votação como essa. Vivi até paciência pra cercar os números em tabela. Vejam lá.

   VOTAÇÃO PROJETO DE LEI 4330

Partido (?)
Sim
Não
PTB
13
8
 PTN
2
2
PRB
5
5
PEN
1
1
PHS
2
2
PMN
1
2
PPS
6
5
PSB
13
16
PR
17
11
PSC
6
4
PP
28
3
PSD
21
6
PSDB
33
10
PMDB
49
13
DEM
12
4
Solidariedade
10
3
PV
6
2
PROS
2
9
PDT
2
17
PCdoB
0
12
PSOL
0
5
PT
0
58
*A tabela não inclui todos os partidos com representação na Câmara Federal.

A seguir ponho lista na quantidade de sandices que um quadro bobo desses pode revelar sobre nosso sistema político:

1) Temos mais de vinte e cinco partidos representados no Congresso. É sigla demais e nem com muita criatividade caboclo inventa tanta ideologia.

2) O PTB, dito Partido Trabalhista Brasileiro, aquele mesmo de Vargas, votou majoritário a favor do projeto.

3) O PTN, Partido Trabalhista Nacional (o que será que o diferencia do Partido Trabalhista Brasileiro?); o PRB, Partido Republicano Brasileiro; o PEN, Partido Ecológico Nacional; e o PHS – Partido Humanista da Solidariedade racharam-se em metades incrivelmente iguais. São agremiações pequenas, com meias dúzias de alguns deputados. Se se apresentam em divisão tão cinquentaporcentosa diante de um tema tão importante, seriam capazes de encontrar alguma identificação que justifique sua reunião em um partido político?

4) A mesma indagosa perplexidade serve para o PMN – Partido da Mobilização Nacional (que causa os mobiliza?); o PPS – Partido Popular Socialista; o PSB – Partido Socialista Brasileiro (devem ser estes os socialistas impopulares); o PR – Partido da República (a manifesta crença na “pessoa livre” e a “valorização da pessoa na sua individualidade” talvez explique o quadro de sua posição face ao projeto da terceirização); e o PSC – Partido Social Cristão (inclui na sua plataforma o zelo pela segurança no trânsito). Estes todos partidos (?) conseguiram se dividir quase no meio a meio, feito time de pelada.

5) O PP – Partido Progressista votou a favor do projeto. Isso mesmo, progressista.

6) O PSD – Partido Social Democrático votou a favor do projeto. Sim, social democrático. Se meus leitores poucos e bons encamparam o desafio, façam-me explicação da diferença entre estes bichos aí e os tucanos da Social Democracia Brasileira (PSDB), que também votaram pela terceirização ampla, geral e irrestrita.

7) Apenas três agremiações votaram em trato de unanimidade: PCdoB, PSOL e o PT. Votaram contra o projeto. Perdoem-me a esquerdice, mas talvez só esses mereçam o Pê na sigla.

Fato é que política boa não dá pra sair de um congresso assim costurado no retalho. Um amontoado de legendas de aluguel que desvia e desviabializa qualquer governação.

Quanto ao conteúdo do projeto de lei, fora os achismos já ditos, devo destacar em advertência que os industriosos homens de empresas andam por aí na campanha plantando ideia de que o projeto de lei é bom para os trabalhadores. De pequeno menino, ouvi meu pai dizer vezes ou outras a um interlocutor empertigado: “olha, você achar que eu sou idiota até aceito de bom grado; mas você querer me convencer de que sou idiota já é um pouco ambicioso demais na beira do abuso”.

Resta claro é que gente feito nós de juízo não deve nem de nenhum jeito terceirizar a voz política a esses sujeitosos deputados em sua maioria ou financiados por empresas graúdas ou eles mesmos empresários. 

Meu apelo aos industriosos homens de bem e senhores de empresas: que tal desmamar eficiência e redução de custo tirando os brioches da sua mesa própria? Deixem quieto o pãozim frio de cada dia de quem trabalha.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

os craques e o exercício da esperança

por Celso Fernandes Ribeiro

Cá rogo licença ao amigo Edu Praça para enfiar tangência em assunto do terreno dele. É que a essa altura dos campeonatos, início de temporada boleira sem encantamentos ou emoções, futebol neste Brasil meu e nosso só serve mesmo é pra fabricar metáforas. Lá vou.

Essa uma gente cabocla gosta mesmo é de esperança. Êita povo capaz de exercitar a certeza absoluta no país do futuro mesmo com os pés afundados na areia movediça dos ranços passadistas. O expectador político tem mesmo seu traço de torcedor1.

Depois de temporada além-secular na segunda divisão da civilização mundial, o Brasil entrou no século vinte e um a lograr direito de disputa no grupo principal. Uma neorgulhosa massa de brasileiros assistiu enfim a seu toque de bola respeitado e agora estudado na atenção pelos demais competidores de primeira linha.

Mas eis que vem a crise na intermediária da política e da economia. Agora o jogo se desenha seguinte: fim do primeiro tempo e o time metido todo em pés pelas mãos. Governo já não acerta no encaixe das jogadas. Quanto às tramas, só as tenebrosas ganham apelo de verdade. Time vaciloso nos avanços, bateção de cabeça sem saber como conter os fortes contra-ataques pelo flanco da direita.

Na volta do intervalo, a torcida – que firmou reapoio ao time mesmo na incerta vereda – abre bocas sobre queixos caídos que não creem no estratagema: entrou Joaquim pimpão com faixa de capitão e tudo para comandar a cabeça da área. O plantel da presidenta ensaia em campo a tática econômica da retranca liberal. A ordem é botina em canelas todas para segurar o empate. O adversário já perdeu o respeito e ataca em bloco. Remédio conhecido: marcação cerrada pela necessidade de restabelecer a confiança no sistema defensivo. Os avanços estão mesmo desautorizados. Aquele raio vívido da esperança no placar favorável parece deitar outra vez preguiçudo no berço esplêndido da covardia.

Tristeza toda nas arquibancadas: com time desse ninguém precisa adversário. Jogo feio de quem se fia no medo de perder. Ora, povo que nem é nada bobo já sabe que o resultado disso só pode ser derrota certa. E lá se vão os gritos todos de impropérios a zunir ouvidos da dona Dilma.

Repente, de onde nada mais se espera, vem a nesga da esperança a provar iluminosa por que é a última que morre. A presidenta tira do banco de reservas ninguém menos que Janine Ribeiro. Meia esquerda com brilhosidade muita de craque, ainda não testado no time principal. Sujeitoso capaz de arredondar a bola na intermediária e fazer a ligação com a área almejada da pátria educadora.

E para que não duvidem da sua disposição a fazer o time jogar de um novo na boniteza do ataque, a presidenta manda também a campo o agudo ponta-esquerda Jessé Souza, habilidoso demais da conta nas leituras de partida. Um Neymar na arte equilibrosa de avaliar e alinhavar o plano do quadro social e das políticas públicas.

Como este aqui é quase sempre espaço de contraponto à dança engajada do pessimismo atávico, assim é que a corrente pra frente algo irracional da torcida acaba achando razão pra apoiar novamente o time. Minha torcida é toda pra eles, os craques do bem. 

E o futuro espelhe essa grandeza.

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1 Resta claro que nem não estou falando da torcida turmosa da hipocrisia, composta pelos criançoides que reclamam o retorno dos milicos porque admitiram enfim não saber brincar de democracia.