por Cuca Linhares
Foi demais da conta. Pude
conhecer assim de chegar perto uma figura das mais notáveis que este chão de
pisar brasileiro foi capaz de produzir em barbas e barrigas.
Nicolelis é sujeitoso movido a sonho.
Cara mesmo de cientista e dono do discurso limpo dos mais brilhosos
professores. Faz tudo quanto é tipo de jerico entender seus mais complicosos teoremas. Não foi apresentado aos limites
da criação. Oferece carona à inventividade e a leva para passear na enseada das
inteligências todas. Brinca de neurociência enquanto trabalha no fazer da coisa
boa.
Esboça espírito empreendedor como se fosse um jovem criado a ração de silício e
treinado em Harvard nas entrâncias da finança e da gestão. Mas é mesmo um
caboclo paulistano na infância dos seus cinquenta e poucos anos. Ao se virar do
avesso para investigar as mumunhas do cérebro, acabou descobrindo que o esqueleto
pode ficar do lado de fora. Feito em ficção de criança boba, mostrou pro mundo
da ciência que a força da imaginação pode fazer um paralítico voltar a andar em
trilho de dignidade e esperança.
O inventor Santos Dumont é havido
seu ídolo maiúsculo: o caboclo mineiro que teve a sorte de não frequentar
escolas que podassem sua certeza utópica de que o homem podia voar. Brasileiro
que é brasileiro quase não crê que avião e samba são tretas do nosso balaio.
As pesquisas do Nicolelis trazem
consigo uma cambada de potenciais desenvolvimentos tecnológicos. Resta claro
que esse negócio de fazer cérebro comandar máquinas é um campo vasto para a
fazeção de dinheiros. Nosso cientista fuxicou no baú esquecido da História as
estratégias estadunidenses que levaram à formação do ambiente criativo fabricador
das tecnologias todas que hoje mandam e comandam as vidas minhas e nossas. Descobriu
que os núcleos de inovação técnica naquelas bandas foram plantados em territórios onde havia nada. Aí sacudiu a
poeira suada da luta para inventar um campus lá na lonjura da Macaíba. Quer refundar
a forma de fazer as gentes aprenderem coisas, do maternal ao doutorado. Quer ver brotar ali a nova classe
empresarial brasileira, ensinada a usar fracassos como insumo de trabalho e fazedores
de um novo paradigma para uso da ciência como fonte da transformação social e
econômica do Brasil.
Miguel Nicolelis é um tropicalista
da ciência que busca no alfabeto um dê de desenvolvimento. É inspiração da pura
para quem acredita na rapaziada que constrói a manhã desejada.