terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

a utopia transformadora de Miguel Nicolelis


por Cuca Linhares

Foi demais da conta. Pude conhecer assim de chegar perto uma figura das mais notáveis que este chão de pisar brasileiro foi capaz de produzir em barbas e barrigas.

Nicolelis é sujeitoso movido a sonho. Cara mesmo de cientista e dono do discurso limpo dos mais brilhosos professores. Faz tudo quanto é tipo de jerico entender seus mais complicosos teoremas. Não foi apresentado aos limites da criação. Oferece carona à inventividade e a leva para passear na enseada das inteligências todas. Brinca de neurociência enquanto trabalha no fazer da coisa boa. 

Esboça espírito empreendedor como se fosse um jovem criado a ração de silício e treinado em Harvard nas entrâncias da finança e da gestão. Mas é mesmo um caboclo paulistano na infância dos seus cinquenta e poucos anos. Ao se virar do avesso para investigar as mumunhas do cérebro, acabou descobrindo que o esqueleto pode ficar do lado de fora. Feito em ficção de criança boba, mostrou pro mundo da ciência que a força da imaginação pode fazer um paralítico voltar a andar em trilho de dignidade e esperança.

O inventor Santos Dumont é havido seu ídolo maiúsculo: o caboclo mineiro que teve a sorte de não frequentar escolas que podassem sua certeza utópica de que o homem podia voar. Brasileiro que é brasileiro quase não crê que avião e samba são tretas do nosso balaio.

As pesquisas do Nicolelis trazem consigo uma cambada de potenciais desenvolvimentos tecnológicos. Resta claro que esse negócio de fazer cérebro comandar máquinas é um campo vasto para a fazeção de dinheiros. Nosso cientista fuxicou no baú esquecido da História as estratégias estadunidenses que levaram à formação do ambiente criativo fabricador das tecnologias todas que hoje mandam e comandam as vidas minhas e nossas. Descobriu que os núcleos de inovação técnica naquelas bandas foram plantados em territórios onde havia nada. Aí sacudiu a poeira suada da luta para inventar um campus lá na lonjura da Macaíba. Quer refundar a forma de fazer as gentes aprenderem coisas, do maternal ao doutorado. Quer ver brotar ali a nova classe empresarial brasileira, ensinada a usar fracassos como insumo de trabalho e fazedores de um novo paradigma para uso da ciência como fonte da transformação social e econômica do Brasil.

Miguel Nicolelis é um tropicalista da ciência que busca no alfabeto um dê de desenvolvimento. É inspiração da pura para quem acredita na rapaziada que constrói a manhã desejada.