sábado, 26 de julho de 2014

o portentoso fabricador de belezas

por Cuca Linhares

Minha beleza enorme mais pequena faz quatro meses de sorriso banguelo mas deverá, sinto provavelmente, viver crescimento em mundo de menos e menores belezas. Neste dia de ontem partiu ao reino da pedra aquele dos mais portentosos fabricadores da coisa bela, como poucos vistos assim de perto, tão gente amassado e reengomado na sofisticadíssima humildade.

Dizem que a causa da migração foi um avecê. Acidente vernacular cerebral, da espécie verborrágica. Um tanto montoeira de palavras se derramando dançarinas, enfileirando coreografias tão belas que já não havia como esperar papel em que se deitar postas em ordem, vestidas em iluminogravuras.

Foi de morte morrida a partida. Coitado do homem que já não via era tempo para embrulhar tanta palavra forte em papel de obra de arte. Tanta palavra mais forte que nós tudo. O homem-palavra sucumbiu bonito metamorrido na matéria-prima de si mesmo.

O fabricador de coisas belas comove por cada som apalavrado que pula da boca naquele timbre que é só de mais ninguém. Timbre de tossir pigarreado a ensinar ética pelos entremeios da estética. Voz rouca que em som de rabeca ecoa. Agudíssima.

Fabricando coisas belas, nosso homem pôs em xeque o inexorável das modernidades, a que outros homens reputam bem atávico: há menos belezas nos progressos das coisas e dos sujeitos que se coisificam.

O portentoso fabricador de belezas vê, com olhos que a terra come, a terra de quem tem fome. Enxerga fundo dentro e além da superfície. Vê aqui, debaixo da terra mesma, a raiz popular da árvore que dá o fruto delicioso, por vezes puro demais. Puro demais sempre. Árvore que os donos da terra comandam foices para ceifar. Fruto que os donos da terra, ditos eruditos, rezam e matam para não comer.

A filha minha mais pequena, e não menos a mais grande, treparão a brincar nesse pé do fruto ariano. Terão no prato farta porção. De semente rara, esse fruto da beleza tem nome cultura popular. Mas as gentes podem chamar somente Brasil.

(24 de julho de 2014)