Minha beleza enorme mais pequena faz quatro meses de sorriso banguelo mas deverá, sinto provavelmente, viver crescimento em mundo de menos e menores belezas. Neste dia de ontem partiu ao reino da pedra aquele dos mais portentosos fabricadores da coisa bela, como poucos vistos assim de perto, tão gente amassado e reengomado na sofisticadíssima humildade.
Dizem que a causa da migração foi
um avecê. Acidente vernacular cerebral, da espécie verborrágica. Um tanto
montoeira de palavras se derramando dançarinas, enfileirando coreografias tão
belas que já não havia como esperar papel em que se deitar postas em ordem, vestidas em iluminogravuras.
Foi de morte morrida a partida.
Coitado do homem que já não via era tempo para embrulhar tanta palavra forte em
papel de obra de arte. Tanta palavra mais forte que nós tudo. O homem-palavra
sucumbiu bonito metamorrido na matéria-prima de si mesmo.
O fabricador de coisas belas
comove por cada som apalavrado que pula da boca naquele timbre que é só de mais
ninguém. Timbre de tossir pigarreado a ensinar ética pelos entremeios da
estética. Voz rouca que em som de rabeca ecoa. Agudíssima.
Fabricando coisas belas, nosso
homem pôs em xeque o inexorável das modernidades, a que outros homens reputam
bem atávico: há menos belezas nos progressos das coisas e dos sujeitos que se
coisificam.
O portentoso fabricador de
belezas vê, com olhos que a terra come, a terra de quem tem fome. Enxerga fundo
dentro e além da superfície. Vê aqui, debaixo da terra mesma, a raiz popular da
árvore que dá o fruto delicioso, por vezes puro demais. Puro demais sempre. Árvore
que os donos da terra comandam foices para ceifar. Fruto que os donos da terra,
ditos eruditos, rezam e matam para não comer.
A filha minha mais pequena, e não
menos a mais grande, treparão a brincar nesse pé do fruto ariano. Terão no prato farta
porção. De semente rara, esse fruto da beleza tem nome cultura popular. Mas as
gentes podem chamar somente Brasil.
(24 de julho de 2014)